|
|
07/09/2004
A peça estava na Rua Barão Rodrigues Mendes, perto do baluarte da muralha que fazia a defesa do Recife contra ataque de inimigos no século 17 CLEIDE ALVES Uma preciosidade arqueológica – fragmento de cachimbo com data impressa de 1633 – foi resgatado do subsolo do Bairro do Recife por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Encontrar um objeto datado numa escavação é muito raro, tivemos uma grande sorte”, afirma a coordenadora do programa, Anne-Marie Pessis. O achado estava na Rua Barão Rodrigues Mendes, perto do baluarte da muralha que fazia a defesa do Recife contra ataque de inimigos no século 17, no período holandês (1630-1654). Os arqueólogos passaram cinco semanas no local, acompanhando a relocação das tubulações da Compesa e da Telemar, que passavam por cima do baluarte, e fazendo escavações para deixar a muralha mais evidente para o público. Na mesma área os pesquisadores descobriram um pedaço de cachimbo com o bojo (parte onde se coloca o fumo) em formato de cabeça, com cabelo, bigodes, orelhas e o rosto completo. “É uma figura masculina holandesa”, diz a arqueóloga Elisabeth Medeiros. Os cachimbos são de terracota, argila modelada e cozida ao forno. Também recuperaram um brinco de ouro português, moedas, dentes humanos, balas de chumbo, cacos de louça dos séculos 17, 18 e 19, cerâmica colonial e ossos. São mais de cinco mil peças. Os ossos estão sendo analisados pelo zooarqueólogo da Universidade Católica de Pernambuco, Albérico Nogueira de Queiroz, que integra o colegiado da pós-graduação. Segundo Elisabeth Medeiros, as escavações deixaram à mostra uma parede do baluarte (voltada para o mar) com 3,40 metros de altura, formada por sete blocos de arenito, um sobre o outro. “A altura da parede é maior. Não chegamos ao fim porque o lugar é alagado e precisamos de equipamento adequado para continuar a pesquisa”, declara Anne-Marie. EXPOSIÇÃO – Os arqueólogos localizaram dois degraus de pedra descendo do baluarte em direção ao nível do piso original da cidade. “O baluarte deve ser coberto, com material transparente, para garantir sua preservação. Isso é fundamental. É importante mostrar esse acervo para o público. As pessoas precisam ver e não apenas saber que existem esses caminhos holandeses subterrâneos”, sublinha Anne-Marie. Gabriela Martin, vice-coordenadora da pós-graduação, acrescenta que os fragmentos de objetos mais importantes ficarão expostos junto do baluarte. O restante será guardado no Pavilhão da Arqueologia, no campus da UFPE. O espaço, que havia sido depredado por vândalos no ano passado, foi recuperado e gradeado. A pesquisa no Bairro do Recife é desenvolvida por meio de um convênio de cooperação técnica e financeira entre a Prefeitura do Recife (Empresa de Urbanização) e a UFPE. O resultado da escavação vai subsidiar o município na elaboração de um projeto arquitetônico que permita a visitação pública ao achado. “O convênio é muito positivo porque permite a auto-sustentação do curso. Estamos mantendo alunos na Serra da Capivara (sítio arqueológico no Piauí) com recursos do convênio”, comemora Anne-Marie. O material é confrontado com documentação histórica e mapas que tratam do tema. Gabriela acrescenta que o trecho do baluarte coincide com a descrição da muralha feita por Gaspar Barléus na publicação História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil, encomendada por Maurício de Nassau, que governou o Brasil holandês de 1637 a 1644. Elas também utilizam pesquisas dos arquitetos José Luiz Mota Menezes e Nestor Goulart Reis, este último de São Paulo. “Vamos enriquecer a documentação histórica e torná-la mais precisa”, destaca Anne-Marie. O baluarte havia sido localizado em 2001, pela equipe do arqueólogo Marcos Albuquerque, da UFPE. (© JC Online) Arquitetos se debruçam sobre mapas históricos para traçar a evolução urbana de São José A evolução urbana do bairro de São José, Centro do Recife, está sendo pesquisada por professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Ciências Humanas (Esuda). Eles estão confrontando mapas da cidade, dos séculos 17 ao 20, com a bibliografia existente. Com os resultados, os pesquisadores pretendem fazer simulações para mostrar as várias etapas de ocupação do lugar. “Queremos evidenciar as mudanças ocorridas no bairro de São José ao longo do anos, como abertura de ruas, demolição de prédios, construções novas, crescimento vertical da localidade”, declara o professor Josué Mendonça. Com auxílio de programas de computador, é feito o levantamento tridimensional do bairro. “Estamos colocando nos mapas os imóveis identificados e percebemos que há conflito entre mapa e bibliografia”, comenta. A pesquisa começou em fevereiro e deve demorar três anos para ficar pronta. “Havia uma horta perto da atual Igreja de São Pedro dos Clérigos, que não está assinalada nos mapas. A cartografia também não mostra a localização do canal que havia na Rua das Águas Verdes nem o momento em que esse canal deixa de existir”, acrescenta o professor André Lemoine. Ele cita a falta de informações em mapa sobre o oratório que teria dado origem à Igreja de Nossa Senhora do Terço. “O local passou por três momentos. Havia o oratório e depois uma capela, substituída pela igreja”, diz. “Estamos em busca de ajustes para tornas as informações mais ricas.” O estudo é feito com recursos da faculdade e será publicada em DVD. Os professores utilizam o Atlas Cartográfico do Recife.
(© JC Online)
|
|
||||