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Barraco na maloca do tio Oscar

07/09/2004

Cláudio Assis


Jaime Biaggio

   Foi a noite de “O homem que copiava”, que, indicado em oito categorias do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, o “Oscar” daqui, ganhou em seis. Foi a noite de Paulo José, homenageado com um troféu especial. Mas e Cláudio Assis, diretor de “Amarelo manga”, lá queria saber disso?— Imbecil! — gritou ele, no fundo do cinema Odeon BR, assim que cessaram os aplausos aos vencedores da categoria diretor, Hector Babenco, de “Carandiru”, e Jorge Furtado, de “O homem que copiava” — que não estava lá e era representado pelo ator Lázaro Ramos.

   — Isso é comigo...? — perguntou Babenco, com a cara já fechada, sem conseguir ver quem era o antagonista.

   — É, é com você, sim!

   — Bom, queria saber por que você não diz isso aqui, na minha cara — provocou o cineasta argentino.

   Para quê?

   — VOCÊ É UM IMBECIL! Eu sou Cláudio Assis, e você é um imbecil! — disse o cineasta pernambucano, saindo de onde estava e caminhando para onde poderia ser visto.

   Babenco se calou e só ficou encarando Assis, com cara de contrariado. Mas a platéia, que até ali estivera muda, começou a vaiar e a mandar o pernambucano calar a boca.

   Para quê?

   — NÃO ME CALO! Sou Cláudio Assis e falo o que eu quiser!! E vocês vão todos tomar no c...!!!! (e variações em cima disso, até Cláudio Assis decidir que estava bom e sair da sala).

   E assim transcorreu mais um Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, agora sob patrocínio da TAM.

Foi tudo em defesa do presidente

   Por que isso tudo? Bem, na hora, pareceu faniquito de mau perdedor. Afinal, “Amarelo manga”, com 13 indicações e visível carinho da platéia, só levara um prêmio até ali, o de fotografia, para Walter Carvalho (e ficou nisso; e o engraçado é que “Carandiru” também ia mal, levando apenas dois prêmios entre 14 indicações). Mas havia outro motivo: aparentemente Babenco tinha falado mal do Brasil em Buenos Aires, onde também chamou o presidente Lula de bêbado.

   — O Cláudio vinha remoendo isso há meses — disse um conhecido dele.

   Outros diziam que Assis já vinha mostrando disposição de bagunçar a festa desde cedo. Conseguiu. Foi digno de um Oscar.

O Globo)


Nada como um ano depois do outro

   Antes do ataque de Cláudio Assis, a cerimônia transcorria sonolenta. O diretor teatral Ivan Sugahara, responsável pela belíssima festa de 2003, desta vez teve pouquíssimo tempo para trabalhar a idéia de uma homenagem a vários filmes brasileiros que fazem aniversários significativos em 2004 (dez, 20, 30 anos etc). Isso ficou visível no resultado, em especial no texto dado aos atores da companhia teatral de Sugahara, Os Dezequilibrados.

   A idéia nem era má e era simpática: após a projeção de uma cena de determinado filme (“A mulher de todos”, “À meia-noite levarei sua alma”, “Deus e o Diabo na terra do Sol”, “Macunaíma”, “Carlota Joaquina”, “A velha a fiar” etc), seu personagem principal entraria no palco para apresentar o prêmio seguinte. Mas o que se viu no palco do Odeon foi só a boa idéia, claramente subdesenvolvida. Tanto que nenhuma intervenção dos atores foi muito aplaudida. As ovações ficaram para cenas de determinados filmes, em especial “A velha a fiar”, de Humberto Mauro.

Paulo José chegou a requintes de preparação

   E, claro, para a aparição ao vivo de Paulo José, homenageado da noite. Ele foi aplaudido de pé tanto na chegada ao palco, a caráter, puxado pelos atores, quanto após ler o longo mas belo texto que preparou para a ocasião, narrando, num estilo inspirado em Mário de Andrade, como foi escolhido por Joaquim Pedro de Andrade para viver Macunaíma. O carinho da platéia pelo veterano ator foi equivalente ao que ele dedicou à premiação.

   — Ele pediu para ensaiar o texto que tinha preparado para ler, chegou até a pedir que molhassem o cabelo dele, porque ele entraria no palco após uma cena do filme em que ele aparecia de cabelo molhado — disse Beatriz Caiado, produtora executiva da Academia Brasileira de Cinema.

   Entre os filmes que competiam, foi “Amarelo manga” o que maior carinho recebeu da platéia, mesmo depois do incidente protagonizado pelo diretor. E também seu concorrente pernambucano, “Lisbela e o prisioneiro”, cujas indicações eram muito aplaudidas, bem como os prêmios que recebeu. Em especial o inesperado troféu de ator para Selton Mello, quando a maioria esperava Rodrigo Santoro, que concorria por “Carandiru”. Problema nenhum: há dois anos, esperava-se a vitória de Selton, por “Lavoura arcaica”. Ganhou Rodrigo, por “Bicho de sete cabeças”.

   — Já vi que é só não esperar ganhar que as coisas acontecem — disse Selton Mello.

   Enquanto isso, a consagração de “O homem que copiava” não era tão aplaudida, em parte porque a equipe estava inteiramente ausente. Lázaro Ramos teve de ir ao palco pegar os troféus de todo mundo. Menos o dele: melhor ator foi uma das duas únicas categorias em que o filme perdeu.

   — Agradeço ao Furtado pela chance. É muito bom beijar na boca e não só pegar em arma, como ator negro — disse ele, na melhor tirada da noite.

   E de resto? Os comentários à boca pequena sobre o incidente, claro.

   — Queria ver ele peitar assim o Barretão ou o Cacá — insinuava um.

   — Isso me lembrou o Arthur Omar (reclamando de “O cinema falado”, de Caetano Veloso, no FestRio de 1986) . Só que o Arthur Omar tinha razão — brincava outro.

O Globo)


Os premiados

FILME: “O homem que copiava”

DIREÇÃO: Hector Babenco (“Carandiru”) e Jorge Furtado (“O homem que copiava”)

DOCUMENTÁRIO: “Nelson Freire”

ATOR: Selton Mello (“Lisbela e o prisioneiro”)

ATRIZ: Débora Falabella (“Dois perdidos numa noite suja”)

ATOR COADJUVANTE: Pedro Cardoso (“O homem que copiava”)

ATRIZ COADJUVANTE: Luana Piovani (“O homem que copiava”)

ROTEIRO ORIGINAL: Jorge Furtado (“O homem que copiava”)

ROTEIRO ADAPTADO: Victor Navas, Fernando Bonassi e Hector Babenco (“Carandiru”)

FOTOGRAFIA: Walter Carvalho (“Amarelo manga”)

MONTAGEM: Giba Assis Brasil (“O homem que copiava”)

MÚSICA: “Lisbela e o prisioneiro”

SOM: “Nelson Freire”

DIREÇÃO DE ARTE: “Desmundo”

FIGURINO: “Desmundo”

MAQUIAGEM: “Desmundo”

CURTAS: “A moça que dançou depois de morta” (animação); “Rua da Escadinha 162” (doc.); “Bala perdida” (ficção)

FILME ESTRANGEIRO: “As invasões bárbaras”

O Globo)


'Não participo mais'

Cláudio Assis agitou a noite de entrega do 'Oscar ' nacional

Rodrigo Fonseca

Arli Pacheco

 Da platéia, Assis gritava contra a premiação de Babenco

O pernambucano Cláudio Assis, diretor de Amarelo manga, conseguiu desequilibrar a harmonia (e pôr fim à monotonia) da cerimônia de entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - agora prêmio TAM -, anteontem, no Cine Odeon Br. Os gritos de ''Escroto! Você é um escroto!'', disparados por Assis quando Hector Babenco, diretor de Carandiru, subiu ao palco para receber a láurea de melhor diretor (empatado com Jorge Furtado, por O homem que copiava), ecoaram com mais impacto do que os resultados divulgados até então. Surpreendido, Babenco respondeu com elegância:

   - Cláudio, eu gosto muito do seu filme. Não sabia que você era uma pessoa tão indelicada - disse, sendo aclamado, ao final de um discurso emocionante, por uma platéia lotada de celebridades como Caetano Veloso, Rodrigo Santoro, Marisa Orth.

   Depois, já fora do Odeon, o cineasta argentino, naturalizado brasileiro, completou:

   - Não sou de fomentar rivalidades. Nem pra time de futebol eu torço.

   A cena não prejudicou o andamento do Grande Prêmio, que coroou O homem que copiava com seis troféus : melhor filme, direção, roteiro original, ator e atriz coadjuvantes (Pedro Cardoso, Luana Piovani) e montagem. Já a festa, planejada pelo diretor teatral Ivan Sugahara em homenagem ao aniversário de clássicos do cinema nacional - como os 40 anos de Deus e o diabo na terra do sol e os 35 de Macunaíma - não correspondeu às expectativas. O destaque foi a exibição do quarentão curta-metragem A velha a fiar, de Humberto Mauro.

   Passada a agitação, Cláudio Assis, que viu Amarelo manga ganhar apenas um dos 13 prêmios a que concorria - o de melhor fotografia, para Walter Carvalho -, não se arrepende do que fez. O cineasta garante que não foi um ataque pessoal contra Babenco.

   - O Babenco não é meu inimigo. Meu problema é com a mesmice que o cinema dele representa. A mesmice do Cacá Diegues, que se diz glauberiano e que de Glauber Rocha não tem nada. A mesmice do Caetano. Não quero isso para mim - afirmou Assis ao JB.

   Ele diz não temer ter comprado briga com o protesto.

   - Isso vai me queimar no meio? Ok! Eu já sou queimado mesmo. Sou o cara que está sempre na contramão. Só o que eu quero é ter o direito de fazer outro filme, nada mais. Não tolero falsidade - diz o diretor, que prepara, neste momento, o projeto O baixio das bestas, sobre a exploração sexual de menores no Nordeste.

   Cláudio diz que não quer mais saber de premiações.

   - Não vou mais participar de festival. Não quero me expor ao ridículo de estar numa festa que imita o Oscar do cinema americano. Faço filmes para mudar o status quo. Não vou mais compactuar com isso.

   Selton Mello ganhou o prêmio de melhor ator, por Lisbela e o prisioneiro, e Débora Falabella, o de atriz, por Dois perdidos numa noite suja. A adaptação de Victor Navas, Fernando Bonassi e Babenco para o livro Estação Carandiru levou o prêmio de roteiro adaptado. Nelson Freire, de João Moreira Salles, foi eleito o melhor longa documental e arrebatou o prêmio de melhor som. Homenageado, o ator Paulo José comoveu a platéia lendo um texto sobre Macunaíma.

JB Online)


Assis xinga Babenco em entrega de prêmio

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   Cláudio Assis, cineasta de "Amarelo Manga", teve na noite de quarta-feira seu mais marcante desempenho no papel de ovelha negra do cinema nacional.

   Quando Hector Babenco subiu no palco do Cine Odeon, no Rio, para receber o troféu de melhor diretor do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, por "Carandiru", ouviu da platéia um grito: "Imbecil!". Era Assis, que iniciou uma série de impropérios contra Babenco e o público.

   "Eu sou Cláudio Assis e você é um escroto. Eu falo o que eu quero. Vão todos tomar no cu. Eu falo, eu falo, eu falo", gritou, enquanto saía da sala.

   O coro de vaias para Assis se transformou em palmas para Babenco, que ouviu tudo de braços cruzados.

   "Cláudio, eu gosto muito do seu filme. Não sabia que você era uma pessoa tão indelicada", disse Babenco quando seu desafeto já estava no hall, iniciando um discurso em que lembrou o câncer contra o qual lutou por anos.

   "Esse filme ['Carandiru'] é de uma pessoa que se salvou através da história de seu médico [Drauzio Varella, autor do livro 'Estação Carandiru']", lembrou Babenco.

Vaias

   Curiosamente, Babenco provocara alguns apupos ao receber outro prêmio de "Carandiru", o de melhor roteiro adaptado. "Em São Paulo a gente trabalha muito e não sabe fazer festa", disse ele, pouco diplomático. Mas, depois da atitude de Assis, Babenco virou herói da festa.

   "Ele é um escroto porque foi na Argentina e falou mal do Lula. Eu tenho essa imagem. Por que então ele não fica na Argentina?", disse Assis depois da cerimônia, referindo-se ao país em que Babenco nasceu. Cercado por repórteres, fez no hall um discurso pouco claro, em que a palavra mais repetida foi "respeito".

   "Esse prêmio é uma demagogia. O cinema brasileiro é uma mesmice. Sempre foi e será. Para mim, o que importa é ser honesto, ter respeito, é olho no olho", bradou o diretor.

   Instigado por um repórter, ainda atacou outro cineasta. "Quem é Cacá Diegues? Não é nada. Ele se contradiz o tempo todo", disse. "Amarelo Manga" só ganhou um prêmio: melhor fotografia, de Walter Carvalho, que também trabalhou em "Carandiru".

Cerimônia morna

   Não fosse a performance de Assis, a cerimônia não sairia do banho-maria. O grande vencedor, "O Homem que Copiava", impressionou pelas ausências. Lázaro Ramos, que não levou o prêmio de melhor ator, teve que subir no palco seis vezes, representando Jorge Furtado (diretor, dividido com Babenco, roteiro original e longa de ficção), Luana Piovani (atriz coadjuvante), Pedro Cardoso (ator coadjuvante) e Giba Assis Brasil (montagem).

   Selton Mello ("Lisbela e o Prisioneiro") e Débora Falabella ("Dois Perdidos numa Noite Suja") foram os melhores atores. "Nelson Freire", o melhor longa de documentário. "Desmundo" ficou com os chamados prêmios técnicos: direção de arte, figurino e maquiagem.

   O homenageado da festa foi Paulo José. Trechos de vários filmes do ator foram exibidos e ele interpretou um texto seu em homenagem a Joaquim Pedro de Andrade, que o dirigiu em "O Padre e a Moça" e "Macunaíma". Ovacionado, foi a unanimidade positiva da noite, o avesso de Cláudio Assis.

Folha de S. Paulo)


Clima ruim na entrega do Prêmio TAM de Cinema

No Rio, Hector Babenco respondeu com elegância aos insultos de Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga

Beatriz Coelho Silva

   Rio - O cineasta Cláudio Assis, de Amarelo Manga, tentou mas não conseguiu atrapalhar a entrega do Grande Prêmio TAM de Cinema, produzido pela Academia Brasileira de Cinema, e que lotou ontem o Cine Odeon, na Cinelândia, centro do Rio. Ao ver Jorge Furtado e Hector Babenco anunciados como melhores diretores por O Homem Que Copiava e Carandiru, começou a chamá-los de imbecis. Lázaro Ramos, que representava Furtado, assustou-se e Babenco, ao ver que a provocação era com ele, calou-se elegantemente e esperou, alguns segundos, Assis ser retirado da sala pela segurança.        Depois, o diretor de Carandiru elogiou Amarelo Manga e fez uma comovente profissão de fé no cinema e no Brasil, aplaudido de pé pela platéia.

   O incidente não durou um minuto e não impediu a confraternização do povo do cinema. A ABC comemorava os bons resultados de 2003 – 50 filmes de longa-metragem, que ficaram com 22% dos ingressos vendidos no País. Comemorava também o patrocínio da TAM (R$ 1,6 milhão, sem recurso a leis de incentivo) que garante a realização do evento pelo menos até 2007. O Homem Que Copiava foi o grande vencedor. Levou cinco dos 17 prêmios de longas – havia recebido sete indicações. Lázaro Ramos representou toda a equipe, presa em Porto Alegre no filme de Carlos Gerbase, e saiu carregado de troféus. O azarão foi Desmundo, com três prêmios técnicos (direção de arte, maquiagem e figurino). Selton Mello (melhor ator) mostrou como se pode ser elegante falando palavrões, ao agradecer e comemorar a láurea.

   A festa tinha tapete vermelho e pipoca servida com cerveja, refrigerante e prosecco. Paulo José (o homenageado da noite) foi com as filhas Bel e Clara Kutner, Caetano Veloso chegou com Paula Lavigne (cujo filme Lisbela e o Prisioneiro levou dois prêmios) Daniel Filho veio com Márcia (comemorando o convite para abrir o Riocine, no dia 23, com A Dona da História), Nelson Pereira dos Santos, Lázaro Ramos (de dreadlook) e a bela Simone Spoladore chegaram sós. Paulo José, nervoso, cuidava do texto que leria, contando como ganhou o papel de Macunaíma, "à maneira de Oswald de Andrade (autor do romance que deu origem ao filme)".

   Cláudio Assis preferiu a batida de gengibre dos botequins próximos ao Odeon à bebida da festa. Amarelo Manga, seu primeiro longa, concorria a 13 categorias, o mesmo número que Lisbela e o Prisioneiro e uma a menos que Carandiru. Só levou um, de melhor fotografia (Walter Carvalho, que lhe agradeceu a oportunidade de fazer o filme). Fora do cinema, ainda vociferava. “Esses prêmios de m... não têm a menor importância, só para jornais, que são todos idiotas”, reclamou antes de ser colocado num táxi.

Dentro do Odeon, esquecido dele, o público se divertia com a cerimônia criada por Ivan Sugahara. A homenagem era a títulos seminais do cinema nacional que completam datas redondas em 2004: Deus e o Diabo na Terra do Sol faz 40 anos, O Desafio e Macunaíma e À Meia Noite Levarei Sua Alma fazem 35 anos e Carlota Joaquina, de Carla Camurati, completa 10 anos, como símbolo de bons ventos para a atividade. Cenas desses filmes eram exibidas em telões e seus personagens ganhavam vida para apresentar a premiação. Paulo José virou Macunaíma no palco e dedicou sua homenagem a Joaquim Pedro de Andrade. “Devo muito a ele, que dirigiu também meu primeiro filme, O Padre e a Moça”, lembrou o ator. A festa entrou pela noite, espalhando-se pelo calçadão da Cinelândia até a madrugada.

estadao.com.br)

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