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Banda faz o caranguejo do mangue andar para frente

07/09/2004

Fred Zero Quatro


João Pimentel

   Uma das cabeças pensantes do movimento mangue bit juntamente com Chico Science, Fred Zero Quatro, do mundo livre s/a, foi quem redigiu os dois manifestos que ditaram as bases do furacão que apresentou ao mundo a cena de Pernambuco e renovou a auto-estima dos artistas nordestinos. No primeiro, “Caranguejos com cérebro”, fazia um paralelo entre o mangue — um dos mais ricos ecossistemas do mundo — e Recife. Clamava pela necessidade de se desentupir as veias-rios da cidade, para que esta não infartasse. O remédio veio na música que misturava maracatu, rock, hip hop; no cinema, via “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira; e em outras manifestações que removeram a lama do mangue. Um segundo manifesto, “Quanto vale uma vida”, escrito após a morte de Chico Science, questionava o que seria do movimento.

   “E agora mangueboys ?”, perguntava Zero Quatro, para depois mostrar que, assim como o tropicalismo ou Bob Marley, o mangue bit não caminha para trás como os caranguejos.

Comadre Fulozinha é um símbolo da renovação

   Depois de bandas como Eddie, Devotos do Ódio e Monbojó, a Comadre Fulozinha é outra prova que a música de Recife avança. Liderada pela percussionista Karina Buhr, ela chega ao Rio para lançar — hoje, em show com o mundo livre s/a, no Circo Voador — o CD “Tocar na banda”.

   — Na época, eu levantava essa questão e incitava as pessoas a seguirem em frente, como o próprio Chico faria. O tempo mostrou que eu estava certo. A cena de Recife se renova como a vida no mangue — filosofa Zero Quatro. — A Karina, do grupo Comadre Fulozinha, é um dos maiores exemplos disso. É uma percussionista fantástica, pronta mesmo.

   Karina, apesar de desconhecida por aqui, é uma das instrumentistas mais respeitadas de Pernambuco. Começou no teatro e, influenciada por amigos como o próprio Zero Quatro e Mestre Ambrósio, embrenhou-se no mundo de manifestações como o maracatu, os afoxés e os cavalos-marinhos. Artista intuitiva, hoje participa de projetos como a banda Punk Reggae Parque, integrada por músicos da Bonsucesso Samba Clube e do Eddie; faz a trilha do filme “Orange Itamaracá”, com Fabinho e Ortinho; prepara um disco infantil; e finaliza uma peça de sua autoria, “O chapéu de Mainá”. Antes disso passou pelo Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, atuando em “Bacantes” e “Os sertões”.

   Perguntada sobre a influência da geração de Science, ela demonstra uma personalidade forte, que encantou, entre outros, Luis Fernando Verissimo, no Mercado Cultural de Salvador, no ano passado:

   — Claro que eles me influenciaram. Mas na realidade me sinto mesmo é fazendo parte de tudo isso. Toda a cidade mudou, foi obrigada a mudar. Começou como uma grande festa, onde todo mundo se conhecia. Depois cada um tomou seu próprio caminho — diz. — Hoje vivemos um momento de reencontro.

   Fred Zero Quatro credita esse reencontro ao bom momento por que passa a música pernambucana, o melhor desde que Chico Science e a Nação Zumbi surgiram com o revolucionário “Da lama ao caos”, há dez anos. Para ele, a derrocada das grandes gravadoras e o crescimento do mercado alternativo fizeram com que os artistas passem a ser os responsáveis pelas suas obras.

   — Hoje em dia existe uma consciência de que podemos viver de música. E isso é fruto de muito esforço. O mundo livre tem 20 anos de estrada, mas metade desse tempo foi uma banda de garagem, pois o Nordeste estava à margem do eixo Rio-São Paulo — lembra.

   Ele diz que, apesar disso, ainda é necessário rever a questão da radiodifusão.

   — A receita das gravadoras caiu em 50% e elas acabaram com o investimento que faziam fora do eixo Rio-São Paulo. O resultado disso é que a maioria das rádios de Pernambuco, por exemplo, acostumadas à velha ordem do jabá (dinheiro pago pelas gravadoras para a execução de determinado artista) , está sendo vendida para igrejas evangélicas.

   O cantor explica, animado, que, na contramão da maioria, a principal emissora de Recife, a Cidade, ofereceu o horário de 13h às 14h para um programa que se tornou líder de audiência: o “Sopa da cidade”:

   — Eles perceberam que existe um mercado local forte e deram o horário para o Roger Renor, um agitador cultural. Ele faz o que sempre sonhamos: toca de Dona Selma do Coco a hardcore.

O Globo)

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