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Em cena, duas faces de Gil

07/09/2004

Gilberto Gil

Equilibrando-se entre as facetas de político e artista, Gilberto Gil canta repertório sobre o pacifismo e o ativismo no show 'Eletracústico', no Canecão. E, para compensar a dificuldade de compor, aproveita para gravar disco ao vivo

João Bernardo Caldeira

   Arte e política se misturam na vida do baiano Gilberto Gil há muitas décadas, entrelaçadas desde o movimento tropicalista, quando fez versos contra a ditadura que o levariam ao exílio. Hoje, o cantor é também o ministro da Cultura e mais uma vez incorpora o discurso político à sua música. No palco do Canecão, entra em cena o artista-político, que deixa para trás o show de seu disco anterior, Kaya n'gan daya, para abraçar um arsenal musical condizente com a agenda do ministro, convidado a tocar na sede da Organização das Nações Unidas, pelo secretário-geral Kofi Annan. O velho Gil de Aquele abraço, hoje com 62 anos, se encontra com o novo, que canta Imagine, de John Lennon, como mensageiro do governo que representa uma última esperança para as esquerdas. Sua nova identidade é a de menestrel da paz mundial.

   - É um show que levanta questões da harmonia, da compreensão, do diálogo mais profundo entre as culturas. O critério básico foi esse: falar de pacifismo, ativismo, com um caráter mais internacionalista e tocando em temas importantes da história, como escravidão e liberdade - diz Gil, que vai cantar, entre outras, Refavela, Se eu quiser falar com Deus, Asa branca, Andar com fé.

   A primeira apresentação foi na sede da ONU em Nova York, há um ano, um mês depois do atentado em Bagdá que matou o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. A partir de abril, o show foi batizado de Eletracústico e passou pelo Fórum de Barcelona, Rock in Rio-Lisboa, São Paulo e cidades européias. De Roma a Santiago de Compostela, de Atenas a Estocolmo, o ministro encontrou um clima de expectativas favoráveis em relação governo Lula.

   - Existe realmente essa esperança no ar, que é uma versão atual de um clássico da esquerda: a espera por seu herói. Mas Lula está ensinando ao mundo que as esquerdas estão renovadas e precisam se renovar, que socialismo e comunismo foram substituídos por um sistema mestiço, que é a social-democracia. Não há raça pura nem na política. Os princípios humanistas têm de ser mantidos, mas dentro de uma dinâmica na qual se pode cometer um ato mais extremo de esquerda ou uma atitude radicalmente liberal - afirma.

   Nos shows que fez em São Paulo, a frase ''morra Bush'', estampada em um telão por um integrante da sua equipe, causou frisson e rendeu pedidos de explicações ao político. Gil - que não votaria no republicano se fosse americano - afirma que não sabia que a imagem seria veiculada. ''Para evitar interpretações equivocadas'', mandou retirar. O político dita o discurso do artista?

   - As pessoas são induzidas a fazer essa ligação. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que o ministro interfere no artista. Quando fui cantar na ONU era o artista quem estava sendo chamado.

   Ou não:

   - Feita a ressalva, é também admissível pensar que o ministro está instruindo a concepção do show e afins (solta uma larga risada). A vida é assim, as coisas não são isoladas. Arte é política e política é arte. Os engajamentos são múltiplos e recíprocos.

   Provocador, Gil diz que a idéia por trás do nome Eletracústico é trazer a expressão (corruptela de eletroacústico, ramo da música erudita) para o contexto popular:

- Quase toda música hoje é acústica e eletrônica ao mesmo tempo.

   A intenção era gravar o repertório do show no estúdio do produtor e diretor artístico da Warner, Tom Capone. O plano foi interrompido com a morte de Capone em um acidente de moto em Los Angeles, há uma semana.

   - Quero manter a gravação para fazer uma homenagem a ele. Vamos gravar no Canecão.

   Com uma carreira pontuada por vários discos ao vivo - foram três só nos últimos seis anos -, por que lançar mais um?

   - Porque eu gosto! Meus melhores discos são ao vivo. O Quanta gente veio ver ganhou até o Grammy. Aquilo soa verdadeiro para mim, a interação, o diálogo e as trocas com o público! E eu canto e toco melhor no palco.

JB Online)


Ancinav, ética e jabá

   Não há tempo para Gilberto Gil compor desde que virou ministro, em janeiro de 2003. Ele não abre mão, no entanto, de manter uma agenda de shows. Há quem aponte uma incompatibilidade ética entre a função pública e a de artista. Mas Gil rejeita qualquer insinuação nesse sentido:

   - Pode-se levantar hipóteses de favorecimento a mim ou do ministério a alguma firma? É para isso que existe o Conselho de Ética, ao qual submeto meus compromissos. Da minha ética cuido eu. Fora isso é especulação.

   De certa forma, a temporada do Eletracústica será um descanso da polêmica gerada com o projeto de criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav). Há uma semana, o Ministério da Cultura decidiu alterar dois dos artigos mais polêmicos do anteprojeto, que davam a entender que o governo poderia interferir no conteúdo das produções audiovisuais. Uma decisão que não soou como derrota para Gil:

   - Não passou pela nossa cabeça controlar o conteúdo. O texto era vago e dava margem mesmo a essa interpretação. Todo recuo que é para avançar é bom. E pode haver outros trechos revistos - afirma.

   O ponto mais espinhoso da lei - que tem até o início de outubro para ser analisada e enviada ao Executivo - é o que prevê a taxação de R$ 600 mil sobre os filmes que entrarem em cartaz com 200 ou mais cópias.

   - Um filme com 200 ou mais cópias tem um faturamento em torno de R$ 40 ou 50 milhões. Então R$ 600 mil representam cerca de 1% disso apenas. Esses filmes são em geral estrangeiros e competem de forma brutal com o cinema nacional. A idéia de regular é exatamente essa: dar condições competitivas a quem é mais fragilizado pelo processo aberto do livre mercado.

   O ministro diz que sabe pouco sobre o projeto de lei nº 1048/03 que criminaliza o jabá (propina paga às rádios para garantir a execução de músicas), proposto pelo cantor e compositor Lobão. O texto está sendo avaliado na Câmara pela Comissão de Educação e Cultura.

   - O jabá é uma instituição perversa, todos concordamos. A criminalização dele é que eu me pergunto como será. Onde estabelecer uma dimensão claramente criminosa?

   Lobão tem a resposta na ponta da língua:

   - Pode-se usar um instituto de pesquisa e submeter à averiguação as músicas que começam a tocar de uma hora para outra. Se os radialistas e produtores insistem em metaforizar o jabá em insumos promocionais, tudo bem, mas que o façam esclarecendo o ouvinte que se trata de uma transação comercial. Uma outra medida para evitar o jabá seria premiar as rádios que aumentassem o número de músicas em sua programação.

JB Online)
 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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