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Um filme para incluir Salvador na retomada

07/09/2004

Cena do documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado

Eduardo Simões

   Em 2001, depois de passar pelo Festival de Veneza, representando “Abril despedaçado”, filme de Walter Salles, do qual era um dos roteiristas, o cineasta baiano Sérgio Machado achou que era o momento de dar seu primeiro vôo solo na direção de um longa-metragem de ficção. Ele já tinha experiência como diretor de outro longa, o premiado documentário “Onde a terra acaba”, e assistências de direção num dos episódios de “Os pastores da noite”, da TV Globo, em “Central do Brasil” etc.

   Machado então já tinha em mente as primeiras idéias para o roteiro de “Cidade Baixa”, história de um triângulo amoroso que se passa em Salvador, no cais do porto, na parte da cidade que dá título ao filme. Rodado entre março e abril deste ano, o filme está em fase de montagem — etapa complexa, visto que as filmagens renderam 40 horas de material, captado em Super-16mm — e o diretor prevê sua chegada aos cinemas brasileiros para abril de 2005.

Personagens são dois malandros e uma “stripper”

   “Cidade Baixa” narra a história de dois malandros, Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura), amigos de infância e sócios de um barco de pesca, que dão carona a Karinna (Alice Braga). Do Espírito Santo, a moça, dançarina de strip-tease e fã de Madonna, quer ir para Salvador, durante o carnaval, onde pretende melhorar de vida. Envolvidos numa confusão no meio do caminho, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo, os três têm que sair fugidos para Salvador.

   A partir daí, Deco e Naldinho se envolvem com Karinna, que, dividida, provoca conflitos entre os dois. A disputa acirrada pelo amor de Karinna leva Deco de volta às lutas de boxe e Naldinho à criminalidade.

   — A diferença entre este triângulo amoroso e os convencionais é que ele é equilátero. Os três vértices estão igualmente apaixonados — adianta Machado, 35 anos. — Tudo o que não pode acontecer é o público ficar torcendo por um lado só.

   A criação de “Cidade Baixa” custou a Sérgio Machado um isolamento de cerca de dois meses na Ilha de Itaparica, e posteriormente uma imersão de quase quatro meses no universo do cais do porto da capital baiana. O diretor conta que fez viagens de barco, travou amizades com prostitutas e travestis, donas de bordéis, e pessoas que trabalhavam na tradicional feira de São Joaquim etc. Machado conta que usou muito do que ouviu nos diálogos de seu filme:

   — A base da dramaturgia do filme estava pronta há mais tempo, mas faltava o cotidiano — conta Machado, que aproveitou, no roteiro e no elenco do filme, alguns dos tipos que conheceu durante sua imersão. — Queria buscar ao máximo a pulsação verdadeira do lugar, ser fiel àquele universo.

   O resultado, segundo o diretor, é um viés documental.

   — O filme tem uma abordagem muito documental, rodado sem tripé, com câmera na mão e pouca luz artificial — conta o diretor, satisfeito com a forma que o filme está tomando. — Salvador ficou muito de fora da retomada. Acho que este filme, escrito, dirigido e protagonizado por baianos, vai ter uma repercussão curiosa, vai falar muito sobre Salvador.

Enredo é inspirado pela “vocação sensual da Bahia”

   A idéia inicial de Machado de situar sua trama nos anos 60, inspirado pelas fotografias de Pierre “Fatumbi” Verger, acabou sendo trocada por um cenário contemporâneo, por conselho do cineasta Eduardo Coutinho, que participou de uma das muitas leituras do roteiro que antecederam as filmagens.

   Uma nova inspiração para o imaginário — e as cores — do filme surgiu quando Machado conheceu “Laróyè”, livro de fotografias de seu conterrâneo Mário Cravo, dedicado a Exú (o título da obra é uma saudação ao orixá), e que mostra a vocação sensual da Bahia. Mesma vocação que impressionou o diretor em suas caminhadas pelas praias de Itaparica.

   — No fim da tarde, havia sempre um clima de flerte e sensualidade, vindo dos nativos, que em sua maioria são negros — lembra Machado, que percebe no filme influência da prosa baiana de João Ubaldo e Jorge Amado. — O João (Moreira Salles) disse que um mérito do filme é que é possível sentir o cheiro da Bahia.

   Para preparar o elenco principal, Machado convidou Fátima Toledo, cujo trabalho em “Cidade de Deus” havia impressionado o diretor. Ramos, Moura e Alice tiveram meses de exercícios com Fátima, antes de começarem as filmagens.

   — Achei que a sintonia entre Fátima e eles era tão grande que deixei-os livres para improvisar. Foi uma experiência visceral, intensa. Às vezes, foi até assustadora a entrega deles aos seus papéis, para quem estava de fora — recorda. — Curiosamente, percebo na montagem como as falas estão iguais às do roteiro, como se os tivéssemos induzido...

   Uma boate de strip-tease e a zona portuária compõem boa parte dos cenários da Salvador retratada em “Cidade Baixa”, filme produzido pela Videofilmes, dos irmãos Salles.

   — É um filme de planos fechados, de personagens. Não é um tratado sociológico da classe baixa de Salvador, nem um filme sobre a cidade. No entanto, ela pulsa como espírito, como desejo — diz Machado, cujo filme vai ganhar um livro, com fotografias de Christian Cravo, filho de Mário, feitas durantes as filmagens.

O Globo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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