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24/09/2004
JOSÉ TELES
O elogiado CD Brasileirinho, de Maria Bethânia, chega ao
inevitável DVD ao vivo, pelo Biscoito Fino/Quitanda. Inevitável, mas não
redundante. Além do show, que mescla poesia e música, sua marca
registrada, há participações especiais da Uakti, Miúcha, Grupo Tira
Poeira, da atriz performática Denise Stoklos e de Nana Caymmi, além de
entrevistas, making of e um depoimento de Ferreira Gullar, um dos
responsáveis pelo descobrimento da baiana, então com 18 anos, no show
Opinião, substituindo Nara Leão, em 1965. De sua casa, no Rio, Maria
Bethânia conversou com o Jornal do Commercio. MARIA BETHÂNIA – Acho esta maneira muito interessante. É difícil, por exemplo, chegar em muitos lugares do Brasil, pelas dificuldades de viajar até lá. Então com o DVD a gente pode alcançar a maioria do País. É uma ótima forma de mostrar um trabalho, desde que seja bem-feito. E ainda há espaço para outras coisas que podem acrescentar mais beleza e informação ao trabalho. JC – Neste DVD tem um depoimento bem esclarecedor de Ferreira Gullar. MB – Considero esta entrevista uma das coisas mais importantes de toda minha carreira. É o depoimento sério de um poeta, um pensador, um grande brasileiro, um batalhador. O que ele fala de Brasil neste depoimento é de suma importância. JC – Curioso nesta coisa de vídeo é que você nunca lançou shows ao vivo em VHS. Por que isso? MB – Realmente nunca lancei um vídeo. Fazia aquela coisa do clipe, que eu detestava. Acho clipe uma bobagem que não traduz o trabalho de um disco. Como uma única música poderia representar todo um repertório? O clipe, enfim, nunca me convenceu. Fiz alguns porque eram importantes para a gravadora, era o que havia de novo para divulgar o disco, fiz porque interessava a eles. Já no DVD você tem o show inteiro, você pode apreciar a coreografia, a expressão do artistas nos closes, cenário, a qualidade de som é excelente, inclusive meu técnico é Moogie Canazo, um dos melhores do mundo. JC – Você é uma artista que sempre foi elogiada pelas performances no palco, que fez vários shows antológicos, mas que foram vistos por pouca gente na época (anos 60, 70). Você já pensou em um DVD mostrando esses shows, ou traçando sua carreira a partir de trechos desses shows? Aliás, existe imagens desses shows? MB – Quem me dera ter um daqueles shows completos. Existem trechos, pouca coisa. Na época não havia essa facilidade de câmeras. Hermínio Bello de Carvalho vive me escrevendo querendo fazer novamente Rosa dos Ventos, Comigo me Desavim. Mas é complicado, o DVD ainda custa muito dinheiro pra ser feito. JC – O repertório de Brasileiro parece que pretende mostrar uma panorâmica do País, e com música de várias épocas. MB – É o meu olhar apaixonado pelo Brasil. Um olhar saudoso. O Brasil é um País lindo, tem uma gente espetacular, criativa, que sabe suportar as adversidades, tem suingue, adapta-se com genialidade aos fatos. Mas meu amor pelo Brasil não me faz alienada da realidade. Sinto toda essa correria, a perda até da emoção pela nossas grandeza e beleza. A única coisa que vejo em moda é quem compra o carro mais caro, quem tem mais isso, mais aquilo. Um papo que não entendo e que não me diz sentido. No show, as músicas dos Titãs (Miséria e Comida), traduzem bem o que estou sentindo em relação ao País. JC – Esse DVD é mais um título que entra no catálogo do seu selo, o Quitanda. Quais os próximo projetos do selo? MB – Estamos em estúdio, na primeira semana de gravação de uma
homenagem a Rosinha de Valença, com amigos, autores, pessoas que foram
mais próximas dela, Alcione, Caetano, músicos como Yamandú Costa, Turíbio
Santos. A dificuldade é que não existe discos de Rosinha em catálogo, as
fitas foram apagadas pelas gravadoras. Estamos catando as informações, mas
espero lançar o disco em dezembro.
(© JC Online)
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