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O fôlego de Fagner

24/09/2004

Rafael Andrade

Fagner: 'O Zeca Baleiro me trouxe um novo estímulo para compor'


Novo disco do cantor mergulha na poesia de Francisco Carvalho

Nelson Gobbi

   Mal terminou a temporada do álbum gravado com Zeca Baleiro, em 2003, e Raimundo Fagner já coloca outro disco na praça. A profusão de trabalhos, com dois CDs em pouco mais de um ano se deve, segundo o cantor cearense, à injeção de ânimo dada pelo parceiro, que o fez redescobrir o prazer de compor.

   O novo disco, Donos do Brasil (leia crítica ao lado), teve como catalisador outra parceria, com o poeta cearense Francisco Carvalho. Fagner se impressionou com a força de poesias como O bicho homem, cujos versos foram os primeiros musicados pelo cantor:

   - No final do ano passado tive contato com a poesia do Francisco, e a idéia do disco tomou forma. Eu me reuni com os parceiros antigos para buscarmos a intensidade da sua obra, a força do seu universo poético - recorda Fagner.

   Além das poesias musicadas de Francisco Carvalho, o disco traz composições do cantor com antigos parceiros, como Fausto Nilo, Capinan e Abel Silva. Há espaço ainda para uma música do cantador e repentista Sebastião Dias, Canção da floresta, um apelo ecológico que Fagner levou uma década para gravar.

   - Tenho uma fita com o Sebastião cantando essa música há uns 10 anos, mas nunca havia encontrado espaço em discos anteriores para esse tipo de mensagem. Gravei a música no meu estúdio em Fortaleza para o amigo Jorge Vianna, governador do Acre, e depois decidi colocá-la no álbum.

   A faixa-título, com música de Fagner e Nonato Luiz sobre letra de Paulinho Tapajós, propõe uma reflexão sobre outra mazela nacional, o etnocídio das populações indígenas. O arranjo do produtor Rildo Hora mescla samba e viola nordestina à canção, caracterizando uma união musical das etnias que constituem a origem da população do país.

   - Imaginei essa música com a mesma estrutura de Os sertões, que havia gravado com o Rildo em 1997. Ele é um maestro capacitado em várias áreas. Decifrou o que eu estava pensando para o disco, trazendo essa contribuição do samba e do choro carioca, sem perder o espírito musical nordestino - louva o cantor.

   Fagner também não poupa elogios a Zeca Baleiro. A faixa Dezembros, composição da dupla e Fausto Nilo, presente no CD Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, foi regravada pelo cantor cearense:

   - O Zeca me trouxe um novo estímulo para compor. Sentia falta de um parceiro novo. Não que os meus estivessem velhos, mas precisava de uma pessoa para virar a noite compondo, como eu, ele e o Fausto fizemos. Foi tão espontâneo que, quando o projeto com o Zeca terminou, já emendei em um novo disco.

   Seria o sinal de um novo álbum da dupla?

   - Temos outras composições que não botei nesse CD para fazer uma ruptura salutar entre os dois trabalhos. Ainda não pensamos em gravar juntos novamente, mas já cogitamos, no futuro, fazer um trabalho com um terceiro cantor.  

JB Online)


Uma boa aliança

Tárik de Souza

   Depois de uma fértil parceria com o maranhense Zeca Baleiro, que resultou num disco que levou o nome da dupla no ano passado, Raimundo Fagner preparava um álbum de composições com o poeta baiano tropicalista José Carlos Capinam. O projeto era esse até que Fagner colidisse com o livro Raízes da voz, do conterrâneo Francisco Carvalho, um dos freqüentadores da Casa Juvenal Galeno, em Fortaleza, reduto de poetas.

   Conhecido por ter musicado Cecília Meireles, Ferreira Gullar e Florbela Espanca, ele se afinou com a pegada imagética de Carvalho. Resultado: Donos do Brasil (Indie), o novo CD de Fagner, contém cinco parcerias dele com FC e apenas uma com Capinam, também escalado com outro compositor, o baiano Roberto Mendes (Todo o seu querer).

   Completa o novo tour autoral do solista reencontros com velhos parceiros como Fausto Nilo (Rosa da China), Brandão (Mistério de amor) e Abel Silva (Ressurreição) e uma incursão em dupla com o violonista Nonato Luiz e o compositor Paulinho Tapajós, na faixa-título.

   Donos do Brasil é uma das melhores do disco, a despeito do tema recorrente da titulariedade indígena do país (''Quando a terra era de Tupã/ quando o povo falou tupi''). Deságua num samba-enredo tratado com perícia pelo co-produtor Rildo Hora, que também divide arranjos e regência com Fagner e Jota Moraes. O formato baladão grandiloqüente dominante em algumas faixas (Mistério do amor, Ressurreição, Todo seu querer) e a reprise de Dezembros, do disco em parceria com Baleiro, diminuem o poder de fôlego do repertório. Este cresce na aliança da dupla central e eventualmente surpreende na desgarrada moda violeira Canção da floresta (Sebastião Dias), outro tema batido, a ecologia, reciclado com empatia.

   No mais, é deleitar-se com as imagens um tanto rústicas e abruptas de Francisco Carvalho musicadas por um inspirado Fagner em Cesta básica (''um tiro no ouvido/ pra não morrer de rir''), Esse touro vale ouro, Reino, Minueto da porta e principalmente no manifesto O bicho homem (''que mama no seio da reminiscência''). A MPB captura um poeta de outra praia e adensa sua espuma.

JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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