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Com a grife Guel Arraes

24/09/2004

Selton Mello e Diogo Vilela em cena do filme “O coronel e o lobisomem”, baseado no clássico de José Cândido de Carvalho


Mauro Ventura

   Em tese, era simples. O ator Diogo Vilela deveria caminhar alguns passos ao lado de um galo. O problema é que o bicho andava um pouquinho e parava. Nos ensaios, saía-se bem, mas na hora de rodar a cena simplesmente empacava, mesmo com um suculento prato de milho à sua frente. Vilela dava tapinhas nas costas do galo para ver se ele se animava — e nada.

   No set de filmagens, multiplicavam-se as sugestões para convencer a ave a trabalhar. “Põe uma esteira rolante”, brincava um. “Que tal botar uma galinha do outro lado?”, falava outro. “Coloca um tapete embaixo e vai puxando”, dizia um terceiro. “Põe um chão de ferro e vai dando choques”, gracejava alguém. “Segura pela goela e vai levando”, palpitava outro. “Ele não deve ter feito Tablado”, ironizava um integrante da equipe.

   — Estamos tentando fazer o milagre de transformar um galo em ator — explicava o produtor-executivo Diogo Dahl.

   Quando o filme chegar às telas, no primeiro semestre de 2005, a cena não deverá durar mais do que oito segundos, mas levou duas horas para ser feita, na última quarta-feira à noite, nos estúdios Renato Aragão, no Recreio.

“Parece até o Spielberg”, elogia produtora

   Poucas horas antes, na sede da produtora Natasha, na Gávea, Paula Lavigne era só contentamento ao mostrar em primeira mão trechos dos 45 minutos de filme já montados.

   — Olha que plano maravilhoso! Parece até o Spielberg, em “A lista de Schindler” — dizia ela, enquanto no monitor de TV se viam belas imagens de um trem se afastando e o ator Selton Mello surgindo em meio à fumaça.

   Ao lado de Guel Arraes, também produtor do filme, Paula empolgava-se com o material filmado em Belo Horizonte, Tiradentes, Quissamã (RJ) e nos estúdios de Renato Aragão.

   — Olha que mulher linda! E ainda por cima é boa atriz — festejava, na hora em que Ana Paula Arósio ocupava a tela de televisão.

   Selton Mello, Guel Arraes, Paula Lavigne? Não, não é “Lisbela e o prisioneiro” parte 2. É “O coronel e o lobisomem”, baseado no clássico de José Cândido de Carvalho escrito em 1964. Desta vez, Guel passou o bastão da direção para Maurício Farias e ficou como produtor e roteirista, ao lado de João Falcão e Jorge Furtado.

   — Eu já tinha dirigido o especial na TV, em 1994 ( com Marco Nanini, Patrícia Pillar e Paulo Bétti ) — explica Guel. — Além disso, para mim seria o terceiro filme nesta linha, depois de “Auto da compadecida” e “Lisbela”. Achei que agregar novos diretores, como o Maurício, permitiria a produção de mais filmes dentro deste projeto.

   E que projeto é este que leva a grife Guel Arraes?

   — Um cinema brasileiro popular e bem-feito, comercial, mas com inquietação de linguagem — resume.

   No set, às 21h15m, o galo era finalmente liberado de seus afazeres artísticos — sem ter completado todo o trajeto previsto inicialmente, para desapontamento da equipe.

   — Meu dia começa às 7h — diz Farias, que faz sua estréia no longa-metragem, depois de dois curtas e trabalhos bem-sucedidos na televisão, como a direção do seriado “A grande família”.

Parcerias para reduzir os custos do filme

   Serão 39 dias de filmagem para fazer um filme de cem minutos. Ou seja, para rodar menos de quatro minutos gastam-se em média 12 horas diárias. Para os padrões de TV, uma eternidade. Para o cinema, alta velocidade. Afinal, Guel e Paula querem filmes de qualidade e feitura rápida, com ares de superprodução, mas custos enxutos. O filme está orçado em R$ 7 milhões, mas Paula tem feito várias parcerias para reduzir os gastos.

   — Não posso passar cinco anos captando patrocínio. Teria uma úlcera — diz Paula. — Meu primeiro orçamento de efeitos especiais era de R$ 1,5 milhão. Quase caí dura e desisti de fazer o filme.

   Ela deu uma percentagem da produção para a Digital 21 e o valor caiu para pouco mais de R$ 200 mil.

   — Também consegui economizar R$ 50 mil de tecido graças a um acordo com a indústria têxtil. Eles me deram o material, fiz os figurinos e vou devolver os vestidos prontos, que serão usados numa exposição.

   A maior parte das filmagens se desenrola em Minas Gerais. O patrocínio é apenas parte da explicação.

   — Queríamos uma paisagem meio de fábula, grandiosa, operística — diz Guel. — Afinal, o coronel ( Ponciano, vivido por Vilela ) é meio exagerado.

   A migração de diretores de TV para a tela grande tem sido cada vez mais comum, mas Guel e Farias não temem a contaminação excessiva do cinema pela TV.

   — É questão do estilo de cada um — diz Guel. — Por que meus filmes não se parecem com o de Jayme Monjardim ( “Olga” ) se nós dois somos de TV? Na verdade, os trabalhos que faço na televisão já se aproximam do cinema, pois, como tenho mais tempo e dinheiro, o conteúdo artístico tem que ser mais elaborado. E meus trabalhos no cinema se aproximam da TV, pois são filmes populares com proposta artística. Um caminha para o outro.

   Farias, que quer levar “A grande família” para o cinema, optou em “O coronel e o lobisomem” por muitos planos abertos, em vez de recorrer a toda hora aos closes.

   — Ouvi durante muitos anos que estava fazendo cinema na TV. Mas não acho que esteja agora fazendo TV no cinema, já que a narrativa do filme privilegia as ações — diz ele, num intervalo das filmagens da cena do galo. — Quase fui à loucura mesmo foi com um cavalo. Em vez de avançar com a carruagem, ele teimava em ir para trás.

O Globo)


Guel Arraes vai levar às telas ‘O bem amado’

   “O coronel e o lobisomem” conta a história do coronel Ponciano e seu amigo Nogueira, filho da empregada da fazenda. Os dois são criados juntos e disputam a mesma mulher, Esmeraldina. O filme tem doses de realismo fantástico. Ponciano, por exemplo, cisma que Nogueira é um lobisomem. No fim do mês, em Fernando de Noronha, serão rodadas as últimas cenas, que mostram uma sereia.

   Guel Arraes já tem mais um filme engatilhado — “O bem amado”, romance de Dias Gomes que mais tarde virou novela e seriado. Ele gostaria de ver Marco Nanini no papel que foi de Paulo Gracindo. Seu “Lisbela e o prisioneiro” tornou-se o terceiro maior público — atrás apenas de “Carandiru” e “Cidade de Deus” — e a segunda maior renda da retomada do cinema brasileiro.

“Público cria identidade com cinema nacional”

   Diogo Vilela acha que o filão dos filmes com a grife de Guel está longe de se esgotar.

   — O público cria identidade com o cinema nacional. E é um humor inteligente, com autocrítica. Você ri de si mesmo — diz ele, com uma barba postiça de US$ 6 mil vinda de Londres.

   Selton Mello concorda.

   — O público em geral não quer saber de tragédia. Quer sair de casa para se divertir — diz ele, que interpretou Nogueira depois da desistência de Fábio Assunção, que foi posar para um editorial de moda em Veneza. — É um personagem que todo ator adora, tem várias fases e é cheio de nuances.

O Globo)


 
 
DVD
Festa na floresta
O diretor Guel Arraes repete o sucesso de
O auto da compadecida
em deboche histórico
Luiz Chagas

   Recém-descoberto, o país-continente que futuramente seria batizado Brasil funcionava como um parque de diversões para os europeus do século XVI. Pelo menos para os mais ousados. Dotado de fauna, flora e mulheres exuberantes, povoava a imaginação dos aventureiros. Caso de Diogo Álvares Correia (Selton Mello), retratado em Caramuru – a invenção do Brasil, de Guel Arraes, um pintor de mapas que depois de fugir de Portugal naufraga por aqui. Recebido calorosamente pela tribo dos tupinambás, o desconhecido vai conquistando a simpatia de todos até conseguir casar-se com a filha do chefe, a belíssima Paraguaçu (Camila Pitanga), que, como se não bastasse, vive acompanhada pela irmã, a não menos apetecível Moema (Deborah Secco).

Depois de algum tempo, Correia – já rebatizado Caramuru – percebe que há algo errado por trás de tanta gentileza. Descobre, estarrecido, que o cacique Itaparica (Tonico Pereira), seu sogro, quer mesmo é engordá-lo para o abate. Escrito por Jorge Furtado e Guel Arraes, o filme fica a meio caminho entre o deboche e a realidade histórica. Graças ao estrondoso sucesso de O auto da compadecida, feito pela mesma dupla, o trabalho pôde ser filmado em alta definição (HDTV), o que o torna pioneiro na área. Um filme gostoso de ver. Como sempre, Mello dá um show em meio a um elenco afinado, no qual se destacam Débora Bloch e Luís Melo. E provoca inveja ao contracenar com índias tão atraentes.

Revista ISTO É)

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