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Mauro Mota, a volta do poeta

24/09/2004

O poeta Mauro Mota

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   A partir desta sexta-feira, Mauro Mota deixa de ser um poeta de ‘ranço’ oficial, daqueles que todo mundo já ouviu falar, que é admirado, mas pouco ou nada lido. Após uns bons dez anos – em que sua produção poética viveu sob as regras amargas de um tremendo ostracismo, com edições esgotadas – ele retorna às livrarias com a reunião de todos os seus poemas em Obra Poética - Mauro Mota, lançada pela Editora Ensol.

   “Mauro Mota, o poeta, é o melhor do homem, mas não é o Mauro Mota completo”, lembra o escritor Marcos Vinícios Vilaça, que hoje em dia ocupa a vaga que foi de Mota na Academia Brasileira de Letras. A declaração realça o caráter cheio de facetas que marcou o trabalho do autor. De crônicas em jornais a ensaios sociológicos (como o clássico O Cajueiro Nordestino), Mota escreveu de tudo um muito.

   “Todos os seus outros trabalhos deveriam também ganhar uma nova edição. Suas crônicas eram exemplos de achados poéticos diários nas páginas dos jornais”, completa Vilaça. Mas enquanto a prosa continua ‘engavetada’, por sebos ou bibliotecas, pelo menos a poesia conseguiu escapar do limbo.

   “O melhor do Mauro Mota é a sua maneira de retratar o cotidiano. Ele conseguia ver poesia nas coisas mais simples”, aponta Marly Mota, viúva do escritor. “Apesar dele também ter coisas complexas, acho que é esse seu traço de simplicidade que vai atrair novos leitores”, realça.

   O apelo popular da literatura de Mauro Mota já havia sido ressaltado antes por ninguém menos que João Cabral de Melo Neto. Durante uma entrevista, o autor de Cão Sem Plumas afirmou que “Mauro Mota era um poeta com mais importância e apelo popular do que Vinícius de Moraes.”

   “É uma pena que os poetas sumam da nossa memória com uma velocidade incrível”, declarou Ivan Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Letras e responsável pelo prefácio de Obra Poética - Mauro Mota. “Foi um reencontro muito prazeroso reler o trabalho deste autor para fazer o prefácio. É incrível o poder de observação da sua poesia e o seu apego ao Recife.”

JC Online)


A poesia que amava o Recife

   Mauro Mota nunca saiu da capital pernambucana e fez um serviço inestimável de apoio à vida cultural da cidade: trouxe a cultura para circular por todos os cantos

   Esta não é a primeira vez que toda a produção poética de Mauro Mota é reunida em um só livro. Obra Poética - Mauro Mota foi lançada antes com o título Poesia, em 2001, com apoio do Sindaçúcar. Mas foi uma edição de circulação restrita, que ficou fora das livrarias. Em ambas, a inédita inclusão da 11º Elegia, raridade tirada direto dos acervos do escritor.

   O trabalho dos dois livros ficou a cargo de Sônia Lessa e de Everardo Norões, responsáveis pela Editora Ensol. Para Sônia, Mauro Mota, que nunca saiu do Recife, fez um serviço inestimável de apoio à vida cultural da cidade: trouxe a cultura para circular pelo Recife.

   “Quase todos os grandes nomes culturais que passavam pelo Recife, passaram pela casa de Mauro Mota. Do francês Jean Paul Sartre a Aurélio Buarque de Holanda. Ele tinha relações com todas essas pessoas importantes. No entanto, acredito que, se ele tivesse saído do Recife, como fizeram João Cabral e Manuel Bandeira, não teria sido tão esquecido como foi”, apontou a organizadora.

   Para o acadêmico Marcos Vinícios Vilaça, é importantíssimo ressaltar a capacidade de Mauro Mota em reunir as pessoas ao seu redor. “Ele não tinha inveja nem medo do talento de ninguém. Pelo contrário, era atencioso e gostava de ajudar quem o procurava. Mauro Mota foi responsável por um caso singular na história da Academia Brasileira de Letras: ele pediu votos para o seu sucessor. Esse fato está registrado dentro da história da Academia.”

   De acordo com Sônia, é importante que Obra Poética tenha o prefácio assinado por um poeta de fama nacional, como é o caso de Ivan Junqueira. “Acho que a opinião de Ivan fará com que o nome de Mota volte a circular pelo Brasil.” E o livro sai com em co-edição com a Academia Brasileira de Letras – detalhe que pode apontar uma futura distribuição fora do Estado. “É o que queremos, mas nada está fechado.”

   No prefácio, Junqueira ressalta que a poesia de Mauro Mota está além e se distingue da geração em que ficou registrada – a Geração 45. “O que nos interessa mais de perto na poesia de Mauro Mota é uma qualidade intrínseca: a de sua pureza formal, associada ao domínio cabal que revela o autor no que toca aos seus meios de expressão e ao lirismo, dir-se-ia telúrico, de sua refinada e tensa linguagem”, escreveu Ivan.

   E completa: “Mauro Mota, de quem agora se reúne toda a poesia, não pode ser visto como um sobrevivente da geração a que pertenceu, e sim como o grande poeta que já era quando da publicação das Elegias, às quais se seguiram, confirmando-lhe as altas e indiscutíveis virtudes.”

   TRIBUTO – O lançamento de Obra Poética, que ocorre na sexta-feira, na Livraria Cultura, contará com a palestra do poeta, ensaísta e tradutor Marco Lucchesi – responsável por traduzir Umberto Eco para o português. “A participação de Lucchesi só realça o caráter universal da poesia de Mota”, acredita Sônia.

   “Que poeta fino, o Mauro Mota. Com a delicadeza e a humildade de um Bandeira. Como se fosse uma árvore, tão ele mesmo, tão enraizado, e ao mesmo tempo um escritor que poderia ter nascido em qualquer lugar de nosso planeta. E todavia, quanta paisagem do agreste e do sertão, mas transfigurada, num abraço cosmopolita, de influências muitas. E a clareza de seus versos, a serena beleza de sua expressão, em que se escondem, ou em que se mostram absolutamente sutis suas mágoas e crispações. Um sorriso leve. Uma poesia intensa, mas delicada”, afirmou Lucchesi.

   Ao lado de Lucchesi, o lançamento de Obra Poética contará com o que Sônia chama de “tributos à poesia pernambucana”. Não espere, no entanto, nenhum depoimento acadêmico ou coisa parecida. Para o evento, foram convocados médicos, políticos, profissionais liberais, gente sem ligação ‘profissional’ com a literatura. “A idéia é que cada um faça o seu tributo pessoal de como a poesia pode influenciar nas nossas vidas”, completou Sônia.

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Confira poesias de Mauro Mota

Abaixo, a íntegra da Elegia nº 1, Elegia nº 2 e Elegia nº 3

Elegia nº 1

Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas

tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes

frei diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!

Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.


Elegia nº 2

Eternizo os teus últimos instantes:
quero esquivar-te ao derradeiro arquejo;
quero que, aos meus ouvidos, ainda cantes
nossa canção de amor, quero; desejo

ter-te ao meu lado como tinha dantes.
Na fronte exausta, do outro mundo um beijo
sinto. Foi de tua alma. Bem distantes,
seus cabelos castanhos soltos vejo.

Tinha a certeza de que voltarias.
Ouviste a minha voz, e de mãos frias
chegas ansiosa! (Foi tão longa a viagem!)

Que palidez na face! Inutilmente
busco abraçar-te. Foges, que és somente
sombra, perfume, ressonância, imagem.


Elegia nº 3

De mim perto, bem perto, junto, unida,
como unca estiveste, agora estás.
Foste e ficaste - estranha despedida,
reino de sombras, de silêncio e paz.

Tua presença é eterna, eterna é a vida
que, feliz, para sempre, viverás.
Morta é a morte, levaste-a de vencida,
não nos separaremos nunca mais.

Quando chegar meu derradeiro instante,
ó noiva ausente num país distante,
nossos amigos todos ouvirão

vozes e cantos, músicas e abraços
Dos fantasmas que formos nos espaços
será o encontro sem separação.

JC Online)

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