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Muitos frutos de uma boa história

28/09/2004

Daniel Filho, diretor e Débora Falabella, protagonista, em intervalo das filmagens de A Dona da História

A Dona da História, texto que o pernambucano João Falcão fez para o teatro, estréia no cinema com otimismo, esperando atrair três milhões de espectadores

KLEBER MENDONÇA FILHO

   RIO DE JANEIRO – Entrevistas para a imprensa em hotel cinco estrelas, presença dos astros e realizadores, esquema de marketing gigantesco, 250 cópias nos cinemas. É mais um capítulo da recente história do cinema brasileiro, que lança sexta-feira, dia 1º de outubro, seu próximo cine-produto Globo Filmes, A Dona da História. O filme dirigido por Daniel Filho abriu na quinta-feira à noite o Festival do Rio, o maior da América Latina, enviando mensagem de que a produção nacional se profissionaliza e ganha tratamento industrial que, anos atrás, seria mais comum às grandes produções hollywoodianas.

   Prognósticos de bilheteria para o filme são os melhores, e pensar na casa dos três milhões de espectadores não seria chutar alto. Produzido ao custo de R$ 4,8 milhões, com mais quatro milhões projetados para a mídia do lançamento, A Dona da História é mais uma comédia romântica, filão que a produção brasileira comercial parece ter especial predileção (Pequeno Dicionário Amoroso, Amores Possíveis, A Partilha, Como Fazer um Filme de Amor). O filme conta também com elenco estelar dentro da constelação nacional: Débora Falabella, Rodrigo Santoro, Marieta Severo, Antonio Fagundes e a VJ Fernanda Lima, estreando no cinema.

   “Nas nossas sessões-teste, temos observado que o filme agrada a todos, de todas as idades, homens e mulheres”, informa festivo Daniel Filho, um dos principais nomes da Globo Filmes como produtor (Cidade de Deus, Carandiru, Cazuza). Ele revela também entusiasmado que há interesses internacionais pelo filme, “com garantia de distribuição na América Latina via Buena Vista International (que fez o mesmo tipo de distribuição com produções argentinas como Nove Rainhas) e a possibilidade de o filme ser vendido para uma refilmagem americana”. Seria A Dona da História o início de uma abertura da exportação do filme brasileiro comercial?

   Santoro, depois de aparecer de forma bastante decorativa em produções internacionais como As Panteras 2 e Simplesmente Amor, volta ao cinema brasileiro com típico papel de galã. Numa cena, faz serenata embaixo de uma janela, escala telhado e abre sorrisos em grandes closes. “A estrutura lá fora é gigantesca, oito câmeras, profissionalismo absurdo e uma sensação de que, pelo menos para os nossos padrões, há muito desperdício de dinheiro. Foram convites que surgiram naturalmente, foi bom fazê-los”, disse o ator.

   Os atores discutiram o interesse de Daniel Filho pelo “take 1”, cenas rodadas “de primeira” por trazerem um frescor e uma espontaneidade que sucessivas tentativas não permitem mais. “Muitas vezes, filmar era como fazer teatro”, disse Severo.

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Com tudo para agradar geral

   A Dona da História, adaptação de texto teatral do pernambucano João Falcão, parece medido e pesado para atrair “big business”. Débora Falabella (da novela Senhora do Destino) é Carolina, a dona da história, versão jovem da mesma personagem interpretada por Marieta Severo, mulher madura que começa a questionar as escolhas pessoais que guiaram sua vida ao longo dos últimos 30 anos.

   Casou com Luiz Cláudio, um simpático senhor grisalho (Antônio Fagundes) cuja versão 30 anos mais jovem tem o formato Rodrigo Santoro. Carolina madura contrasta com a Carolina alienada e alegre do passado, que acreditava ser a vida um filme. “Eu espero que as coisas aconteçam para mim no presente”, disse Fallabela, 25 anos, uma das maiores estrelas globais, candidata a cine-queridinha do Brasil depois de Lisbela e o Prisioneiro. Ela assume no filme papel que foi de Andréa Beltrão na peça.

   Estrutura do filme é a já conhecida “e se...?”, levando Carolina a pensar sobre todas as coisas que ela deixou de fazer para ter uma família e apartamento classe-média alta na Barra da Tijuca. Nesse sentido, filme terá apelo junto aos jovens (“o que fazer da vida?”) e junto aos mais velhos (“o que eu fiz da minha vida?”). Um dos momentos cruciais da sua vida parece ter sido vir morar numa Barra ainda virgem, no início dos anos 70. O filme parece apresentar visão mais abastada da Barra da Tijuca vista em Redentor, também da Globo Filmes.

   Narrativa tem poesia dèja-vu e uma série infindável de clichês, apresentados como novidade, boa parte deles acreditando numa poesia que une Carolina madura e Carolina jovem numa cena visualmente interessante, num banheiro embaçado. Trilha sonora assinada pelo DJ Memê é do mais puro “bom gosto”, com Jorge Ben, Elis Regina, Nara Leão, e também a estréia de Sandy cantando sozinha. Tecnicamente, o filme é competente, como divertimento, leve como um soprinho no olho, mas podendo encontrar vasto público que poderá apoiar esse tipo de coisa. (K.M.F.)

O jornalista viajou a convite da distribuidora do filme

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O glamour da Hollywood nacional

   A abertura do Festival do Rio é sempre um acontecimento que interfere na vida da cidade. Havia uma multidão à frente do Cine Odeon BR, em plena Cinelândia, na quinta-feira à noite, para ver passar os astros e estrelas do cinema nacional. Muitas vezes eles e elas são mais conhecidos do público via televisão. É um dos problemas do estágio atual do cinema no País. O diálogo com a televisão não é econômico.

   Mas o público em frente ao Odeon queria glamour e o teve em doses generosas. A sessão de A Dona da História, abrindo o Festival do Rio 2004, foi um sucesso. Luigi Barricheli e Beth Lago foram os âncoras da cerimônia. Depois de meia hora de atraso no início da cerimônia e mais 20 minutos de discursos, subiram ao palco os integrantes da equipe de A Dona da História.

   O diretor Daniel Filho chamou a doninha da história, Débora Falabella. Depois, a dona da história - Marieta Severo, que quase fez o Odeon vir abaixo, com tantos aplausos. Daniel só se esqueceu de chamar o dono da história, João Falcão, autor da peça, que estava na platéia.

   “É um filme pequeno para tanta responsabilidade”, disse Daniel Filho, apreensivo com a responsabilidade do seu filme abrir o evento. A noitada de abertura do Festival do Rio 2004 prosseguiu na tenda armada na praia de Copacabana, para onde se transferiram os convidados e os curiosos, que até de madrugada tentavam burlar a segurança para entrar naquele território de chiques e famosos.

JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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