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28/09/2004
Um novo surto de bandas independentes ganha os bares e festivais do
Recife, deixando de lado o regionalismo e apostando mais numa proposta
rock’n’roll Tem horas que só o Aurélio, ou, neste caso, o Houaiss, salva: “Alternativo – 1 que se diz, faz ou ocorre com alternância, 2 que oferece possibilidade de escolha, 3 capaz de funcionar como outra resposta, remédio, saída, 4 que se propõe em substituição ao sistema cultural, técnico ou científico estabelecido, 5 que representa uma outra opção fora das instituições costumes, valores e idéias convencionais”. O verbete ainda segue com mais duas ou três definições, mas as citadas acima são suficientes para que se entenda o que é a nova (ou novíssima) cena musical pernambucana. Nadando contra a corrente da manguebeat, que reinou absoluta nos anos 90 em Pernambuco, um grupo de bandas foi surgindo aos poucos e conquistando espaço entre o público local. Elas não se pretendem melhores nem piores que os grupos que surgiram sob a égide do mangue. Apenas diferentes. Alternativas. Hoje, são os grupos que mais têm despertado a curiosidade tanto do público como de profissionais interessados na musicalidade do Estado. E a grande mudança começa aqui. Musicalidade pernambucana contemporânea, neste caso, não significa maracatu + rock, embolada + rap. Esses grupos made in Recife querem celebrar o velho e bom rock’n’roll, como ele ecoava entre os anos 60 e 90 pelo mundo afora. Alguns chegam a soar quase conservadores, festejando a pureza de guitarras distorcidas e os timbres de teclados, efeitos e sintetizadores. Por traz de uma camada de som denso, que marca o trabalho da maioria das bandas, estão jovens de classe média que afirmam um Nordeste urbano, televisivo, cibernético, midiático e assumidamente pop. E, se “modernizar o passado é uma evolução musical”, como diria Chico Science, o passado que eles escolheram modernizar é que é diferente. O ponto de partida é outro e não tem raízes fincadas na lama. De olhos bem abertos para o resto do mundo, bandas como Mellotrons, Volver, Rádio de Outono (RdO), Superoutro, Vamoz!, Profiterolis, Parafusa e Astronautas, só para citar algumas, foram beber em fontes nascidas em Londres, Liverpool, Estocolmo, Glasgow, Toronto, Hawthorne (Califórnia), Boston, Nova Iorque, Chicago e Mercer (Pensilvânia). O resultado disso pode soar muito cosmopolita ou colonizado demais – depende das referências político-culturais de cada um. Resta saber qual o significado de conceitos como ‘cosmopolitismo’ e ‘colonialismo’, sacralizados no século passado, no mundo interativo e conectado que se vive em 2004. Frases prontas dificilmente resolverão os questionamentos sobre a
cultura que sustenta essa cena artística independente (indie) em
Pernambuco. Talvez a solução seja ouvir, sem preconceito, a música que as
bandas propõem e julgar a identidade que elas têm não com a cultura
pernambucana – termo que, neste caso, pode se tornar nebuloso demais –,
mas com os pernambucanos, com o povo nascido neste Estado que faz e ouve
este som.
(© JC Online) Novas bandas fazem
circuito off-mangue
Músicos da cena indie pernambucana assumem influências do pop-rock
internacional e deixam de lado raízes populares “Tudo o que sei é que faço rock, que é um estilo de música que escutei
minha vida toda. Nós fazemos um som que corresponde à música que integra
nossa bagagem cultural e musical. Não nos sentimos na obrigação de fazer
nada novo, mas, até por causa disso, as coisas novas têm surgido”, destaca
Zeca. Isso talvez explique os comentários positivos que os novos grupos
têm recebido de publicações respeitadas nacionalmente, como Outracoisa,
Bala (republicada no site da MTV), Dynamite, Zero e
Trama Virtual. Os textos se dividem entre a surpresa em relação ao
novo som que sopra de Pernambuco e os elogios escancarados. O que mais
surpreende os críticos, além da qualidade musical, claro, é o fato de as
bandas citadas não carregarem referências explícitas aos batuques
regionais. Sai de cena o groove percussivo e entram conjuntos harmônicos e
melódicos de guitarras, com baterias pujantes e composições menos
sincopadas. A novidade, entretanto, não é absorvida de modo unânime por todo o meio
musical do Estado. Recentemente, a Mellotrons, por exemplo, foi recusada
num concurso de bandas por “não representar bem a cultura local”. Leia-se:
não soar regional. No último Festival de Garanhuns, apenas um grupo da
novíssima cena, a Superoutro, foi escalada para um dos palcos do evento.
“A primeira vez que a Vamoz foi tocar em Salvador, as pessoas ficaram
impressionadas que pudesse haver uma banda de rock sem maracatu no Recife.
O mangue foi uma coisa boa que aconteceu em Pernambuco, mas agora as
pessoas têm curiosidade de outros sons”, ressalta Henrique Müller,
guitarrista da Vamoz. NOVA EBULIÇÃO – “A postura mangue mudou o olhar que os
pernambucanos lançam sobre si mesmos, com mais espaço para valorização da
cultura regional, mas há uma marginalização de quem não proclama o
regionalismo. Até os mecanismos de financiamento ainda estão voltados para
os grupos que misturam músicas de raiz com o pop-rock”, ressalta Gleisson
Jones, baterista da RdO. Para ele, já está na hora de perceber que o
Recife é mais que manguebeat, mas um grande caldeirão cultural em
ebulição, voltado para a diversidade. “Apesar de não termos uma sonoridade
manguebeat, seguimos algo que Chico Science sempre dizia: ‘Acredite nas
suas idéias’. Chico fazia um som que refletia a realidade dele. Nós
espelhamos a nossa”, argumenta. Como não possuem uma ‘verdade regional’ em comum, essas bandas acabam
por formar um conjunto que se destaca pela heterogeneidade de suas
propostas sonoras. “É a diversidade musical que une as bandas. Cada uma
tem um tipo diferente de som, formando a cena mais eclética do Brasil.
Pode não ser comercialmente tão boa quanto a de Porto Alegre, por exemplo,
mas sonoramente temos um conjunto mais interessante e diversificado”,
defende Bruno Souto, da Volver. “O que une todas essas bandas é o fato de
elas não estarem atreladas a nenhum estilo musical comum, entre os que
predominam no Recife, como o metal, o hardcore ou o manguebeat”, ratifica
Haymone Neto, guitarrista da Mellotrons. “Não fazemos oposição a nada, nem
a ninguém, mas, de fato, enfrentamos dificuldade por não sermos
regionalistas. Então, a gente tem que se unir para viabilizar shows,
festas, lançamentos de discos”, explica Haymone. O resultado é um conjunto de bandas trabalha sem apoio de gravadoras ou
patrocínio governamental. Mas o adjetivo indie, aqui, não funciona apenas
como um diminutivo de independente (sentido original), mas como um estilo
de criação musical que nasce deslocado do ‘mainstream’ e tem conquistado
grupos dos mundo inteiro. Esses grupos primam por uma sonoridade
propositadamente ‘estranha’, distante dos padrões convencionais das FMs.
Para o guitarrista e vocalista da Astronautas, André Frank, que já
passou por bandas de diversos estilos, inclusive mangue, a mudança de
valores é natural. “Há uma renovação na cena pernambucana, uma oxigenação.
Estamos num momento novo e muito rico para a cultura local”, define. Ele
acredita que 2004 está sendo um ano muito importante para essa virada, com
a gravação de vários CDs de grupos indies, que começam despontar em outros
Estados. Os músicos da Astronautas, por exemplo, acabam de se mudar para
São Paulo, onde fixam residência em busca de expansão nacional. (DMB
e RG) (© JC Online) Grupos correm por fora para driblar ausência de apoio
Apesar de ainda não contar com o mesmo apelo de marketing que o estouro de mídia do Manguebeat em Pernambuco, a cena ‘indie’ local começa a ganhar espaço. Além dos shows realizados por produtores ligados às bandas alternativas, como os eventos do Coquetel Molotov, outros profissionais começam a olhar para o meio. É o caso de Paulo André Pires, responsável pelo Abril pro Rock (APR), que realiza em novembro um novo projeto, voltado para bandas novas. Além do novo festival Microfonia, Paulo André confirma que está de olho nas novas bandas há algum tempo e diz que pelo menos três delas estão bem cotadas para o APR/2005. Correndo por fora das superproduções, a turma do Coquetel Molotov e integrantes das próprias bandas viabilizam espaços para mostrar a cara indie do Recife. “Os grupos novos têm em comum o fato de não contar com um esquema comercial para divulgar o trabalho. Por isto, as festas do Coquetel Molotov têm o objetivo de agregar esse pessoal, cujas propostas musicais são diferentes, mas a forma de anunciar a produção é semelhante”, pontua Jarmeson de Lima, um dos nomes por trás da marca do Molotov. Para Juliano Ribeiro, tecladista da Parafusa, a cena indie só tem crescido porque consegue agregar o empenho de produtores que compreendem e respeitam esse tipo de música. “Eles nos dão liberdade de criação. Isso estimula o nosso trabalho. Os músicos se reúnem, mostram as novidades, batalham para gravar discos de divulgação. Todo esse clima é muito positivo e produtivo”, anima-se Juliano. (© JC Online) Bares e casas de show se abrem para o indie Foi-se o tempo em que as bandas independentes do Recife sofriam com a dificuldade de arrumar um espaço legal para mostrar seu trabalho. Os grupos se revezavam em uma mesma casa que, pela falta de público, acabava fechando as portas ou mudando a política de funcionamento. Exemplos clássicos são as festas da Non Stop, que aconteciam semanalmente em casas do Bairro do Recife, o Instinto, o Vitrolaz e o Pimenta Verde. Essas casas abriam com ótimas intenções, mas a falta de público e a desestruturação das bandas terminavam levando os projetos por água abaixo. A situação vem mudando desde 2003. As bandas começaram a pensar maior, alguns de seus músicos com um espírito de produtor (como Gleisson Jones, André Frank e Marcelo Gomão) começaram a organizar festas e de repente os grupos estavam unidos produzindo eventos e conversando sobre como a cena poderia se tornar mais viável. Com o avanço da tecnologia nos softwares de gravação e o conseqüente barateamento da feitura de um álbum, os grupos começaram a produzir trabalhos bem mais profissionais que as antigas fitas demos, mesmo sem apoio de nenhuma gravadora ou incentivo governamental (daí o rótulo ‘independente’). Isso fez com que o público crescesse e os produtores da noite recifense começassem a se interessar por esse novo mercado. Semana passada, por exemplo, aconteceu o Festival Coquetel Molotov Independente, no Barramundo Social Clube (Rua 17 de Agosto, Casa Forte), casa de shows para 350 pessoas que já foi inaugurada, no início deste ano, com o objetivo de acolher bandas independentes. “Achamos que não havia uma casa especializada nisso. E não queríamos fazer um bar ‘meia boca’. Por isso investimos em qualidade e está dando certo”, afirma Rodrigo Canamo, sócio, promoter e DJ do Barramundo. “Desde a inauguração, o material de bandas chegam aos montes no nosso escritório. Já temos uma fila de espera.” O Barramundo firmou uma parceria com o Coquetel Molotov para organizar festas mensais. O festival foi o terceiro evento que eles promoveram juntos. “Trabalhar com o pessoal do Coquetel está sendo muito legal, porque eles produzem festas com bandas interessantes de Pernambuco e de outros Estados do Brasil”, disse Rodrigo. Quem também está tentando agitar a cidade mensalmente é Gleisson, baterista da RdO, com a festa Fora do Ar, que acontece na boate Ultra (Rua do Apolo, Bairro do Recife). “São sempre duas bandas por noite. O lugar é bem legal, com dois ambientes (capacidade de 700 pessoas), tentamos colocar um som bom, que não é muito freqüente nas festas da cidade. Bandas com trabalhos interessantes e preço acessível. Tentamos fazer da Fora do Ar uma opção alternativa para os recifenses”, explicou Gleisson. Além da Ultra e do Barramundo, outro lugar que virou espaço para as bandas novas é o Teatro Maurício de Nassau, localizado numa das sedes do Movimento pró-Criança. O teatro serviu de palco para o lançamento dos discos da Superoutro, Mellotrons e Rádio de Outono. Os bares da cidade também estão investindo neste novo filão. Capibar, Cohibar e Garrafus estão entre os mais ativos nesta área, mas até bares que tinham um público diferente, como o Mad Pub, que prefere as bandas de pop-rock cover, já experimentou doses de música som o rótulo “independente”. Em agosto, o Mad Pub, às quinta-feiras, convidou alguns desses grupos com trabalho próprio e autoral para tocar. E talvez o símbolo máximo de que essas bandas estão realmente ganhando mais espaço seja a inclusão delas na lista de atrações do Pátio de São Pedro em 2004. Antes reduto de artistas que geralmente fazem um trabalho com ritmos regionais e um pé na ‘raiz de Pernambuco’, o Prefeitura do Recife não tem mais medo de colocar bandas que cantam até em inglês em cima do palco. Na imprensa, o espaço também cresceu. Os primeiros passos já foram dados. Falta agora as bandas e os produtores se articularem para conseguir uma maneira de viabilizar financeiramente esta nova cena. (R.G.) (© JC Online)
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