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Os herdeiros do rei

18/08/2005

Seguidores: Maciel Melo, Alcymar Monteiro e Petrúcio Maia lançam, respectivamente, ‘Dê cá um cheiro’, ‘Meu forró é meu canto’ e ‘O poeta do forró’

Novos lançamentos consolidam a geração de músicos nordestinos que se inspira na obra de Luiz Gonzaga

Tárik de Souza

   Entre o embregamento da canção de massa e o vácuo dos fundadores da escola (Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale), todos já mortos, a música nordestina segue em processo de reciclagem. Após o desembarque dos pós-roqueiros (Alceu Valença, Fagner, Zé Ramalho, Belchior, Geraldo Azevedo, Ednardo) nos 70, dos pós-punk nos 90 (o mangue bit de Chico Science e Nação Zumbi, mundo livre S/A, o forrócore dos Raimundos, o ''retrofit'' do Cascabulho) e da tradição repaginada, por Dominguinhos, Nando Cordel e Jorge de Altinho, entre outros, a maioria dos nomes surgidos nesta entressafra fixou-se no circuito regional. Em parte por conta do fechamento da grande mídia pelo cadeado do jabá. Em outra, pelo crescimento e autonomia dos mercados locais. Artistas como o sólido cearense Alcymar Monteiro, do recém-lançado Meu forró é meu canto (Ingazeira), o consolidado pernambucano Maciel Melo (Dê cá um cheiro, Lua Music) e os veteranos Petrúcio Maia (O poeta do forró, Lua Music), cearense, e o alagoano Carlos Moura (Quebrando o coco, Batuta), circulam em órbita própria.

   Já o sanfoneiro (outro cearense) Waldonys apresenta-se como ''afilhado de Gonzagão e Dominguinhos'' e se arrisca na corda bamba do romantismo em Anjo querubim (Kuarup). O pernambucano Targino Gondim ainda não conseguiu fixar seu nome, embora sua Esperando na janela (parceria com Manuca e Raimundinho do Acordeon), na voz de Gilberto Gil na trilha do filme Eu tu eles, em 1999, tenha sido sucesso nacional. Targino faz nova tentativa em No pé de serra (Independente), com adesões de Margareth Menezes e do onipresente Dominguinhos, fiador da herança do rei do baião. Mas seu disco emperra na calmaria de sete xotes seguidos, devotados à questão amorosa. Lugar que tem amor, Quero teu sorriso, Pra não ver você chorar, todos eles têm escassas chances de reproduzir seu hit até agora solitário. Targino desatola nos baiões (Não dá mais, Sonho acordado, Por causa da fogueira), mas fica devendo.

   Ex-integrantes do longevo Trio Nordestino, iniciado em 1958, o sanfoneiro Genaro, com a mulher Walkyria (Forró nº 1, Atração) e Quininho de Valente (Forró bom demais, JSA) alçam solos contíguos. Genaro, por sinal, assina a sanfona e produção do disco de Quininho, que abre no picadinho do coco Mexe pra gente ver e mais adiante esbalda-se em Pra baixo não deixo, ambas do lendário João Silva, último e prolífico parceiro de Luiz Gonzaga. Quininho ainda brilha como autor nos requebros de Forró em Valente, Nordestino lutador, O cordel do Alicropi e Em defesa do forró, que alista os bambas do gênero (Jackson, Gonzagão), reverência recorrente entre os sucessores, como o ás da sanfona Genaro. Seu disco está entre os fronteiriços do pacote, já que acende algumas velas ao brega, como em Amantes (parceria do ex-bossa Paulo Sérgio Valle com Marcelo), onde Walkyria divide os microfones com o tremulante Elson do Forrogode.

   Mas Forró nº 1 também cintila. Como na faixa-título, de Cecéu, na releitura De onde vem o baião (Gilberto Gil), no instrumental Escadaria, onde Genaro capricha no virtuosismo, e nas quatro faixas finais - do produtivo João Silva. Também flertando com o brega no xote Poucas palavras, Waldonys deixa em segundo plano a sanfona sacolejante e se arrisca como cantor. Recria, sem grandes acréscimos, os sucessos Eternas ondas e Revelação. Neste último, apenas evidencia suas semelhanças vocais com o conterrâneo Fagner. Mas nem tudo se perde, como a boa seqüência de xotes de Lula Queiroga (Machucando sim), Chico Pessoa (Final dos tempos) e o coco de Petrúcio Maia (Anjo querubim).

(© JB Online)


Devagar e sampler

   A despeito do título, Meu forró é meu canto, Alcymar Monteiro também se permite incursões em outros territórios, como o romântico brega, no xote Tarde demais. Enfia o franco-italiano Salvatore Adamo de C'est la vie em Recordar e reviver. Injeta ainda a judaica Hava nagila e a saudação Shalom no Arraiá das Arábias, mistura politicamente incompatível nas regiões de origem. Mas ele também cita Geraldo Vandré (''quem luta faz a hora/ não espera acontecer'') na bela Aurora boreal e protesta contra o capitalismo selvagem na forrozeira A gente tem que pagar pra viver.

   Mais centrado no veio telúrico, Maciel Melo adiciona uma sextilha do poeta Manoel Filó ao xote A poeira e a estrada e um oratório à toada Um veio d'água. Navega por composições próprias de boa artesania como o pipocado Porteira de cambão e o deslizante O ciúme, plantado numa sanfoninha choradeira.

   Mas os discos mais densos do pacote são dos calejados Petrúcio Maia, auto- nomeado O poeta do forró, e Carlos Moura, que já teve até clipe no Fantástico (Cometa mambembe) e excursionou pelo Canadá. As letras rústicas bem talhadas de Petrúcio (Deus do barro, Quem afia a faca sabe pra que serve o fio, Fogo de palha) e sua voz de timbre firme o habilitam a um lugar ao som bem mais amplo sob o sol escaldante da música nordestina.

   O CD O poeta do forró, de Petrúcio, deprecia essa chance com uma produção gráfica mal cuidada, que sequer informa as faixas onde entram os convidados ilustres que avalizam sua obra. Entre outros, interferem Jorge de Altinho, Dominguinhos (quem mais?), Naná Vasconcellos, Maciel Melo, Santanna, Valdir Santos. Em Baião de nós dois, nítida evocação do sucesso Baião de dois, do patriarca Luiz Gonzaga, o conviva Dominguinhos elogia a sanfona do colega Genaro, que faz a base do disco de Petrúcio.

   Além do ritmo incluído no título, Quebrando o coco (que o filia diretamente ao papa da matéria, Jackson do Pandeiro), Carlos Moura lapida bem os xotes (Penedo, Minha sereia), alguns numa pulsão alceuvalenciana (Água de cheiro, Sabe menina). E invade a quadrilha junina (Chegou São João, Festejos e desejos), além de desviar o baião para o calço do coco (Baião aceso, Baião do coração), acantonado pela programação eletrônica do produtor Macleim. Discreta, para não interferir na essência, mas suficiente para provocar estranhamento.

   Num atestado de que apesar das notícias esparsas aqui pelo Sudeste, o leito principal da música nordestina continua fluindo. Devagar e sampler.

(© JB Online)


Sucessos e inéditas de Gonzagão

   Enquanto os sucessores, até por mera questão cronológica, digladiam-se pelo trono subseqüente ao reinado do baião, o hoje genérico (com duplo sentido, por favor) forró, Luiz Gonzaga (1912-1989) segue carreira em coletâneas retrospectivas e escavações de inéditas.

   Do primeiro bloco é Samarica parteira, uma daquelas antologias típicas do selo Revivendo, onde misturam-se, em 18 faixas, alguns sucessos (Baião de dois, A letra I) a lados B e raridades. Nestas pode-se incluir a gravação de Gonzaga do maracatu do maranhense João do Vale Sertanejo do Norte (com Ari Monteiro), de 1959. Outra preciosidade é o belo baião de João Silva (sempre ele) com Pedro Maranguape, que evoca o cantador Cego Aderaldo (Ferreira de Araújo): ''quem a vaca cara compra/ vaca cara pagará'', de 1980. O rei do baião também cantava polca (Tô sobrando); toada (Moreninha tentação, duas parcerias com Hervê Cordovil); e valsa (Amanhã eu vou, com Beduíno), todas de 1951.

   E ainda marcha frevo (Mamulengo, de Luiz Bandeira) e até a meridional rancheira O passo da rancheira, parceria com Zé Dantas. Caso à parte é a faixa-título que abre o CD. Samarica parteira é do mestre-escola Zé Dantas, mas a teatralização (e sonoplastia de boca) do enredo é arte de Gonzaga, ídolo apto a imantar multidões sideradas horas a fio nas praças do agreste.

   No segundo caso, o das escavações de inéditas, está o CD Luiz Gonzaga & Carmélia Alves (BMG/Sony). Gravado no projeto Seis e Meia do Teatro João Caetano, em março de 1977, o encontro de rei e da rainha do baião tinha saído em LP na época, numa versão enxuta com 12 músicas, nos 35 minutos do formato. Agora o show vem na íntegra, com 25 números e muitos cacos da dupla, que se diverte em cena tanto quanto o público. Como na querela brincalhona em torno do troco, no xote Dezessete e setecentos, não incluída no lançamento original. Também emerge agora Reis do baião, auto-exaltação cantada em dupla.

   Carmélia, carioca filha de cearense, revisa seus sucessos (Sabiá lá na gaiola, Cabeça inchada, Trepa no coqueiro, No Ceará não tem disso não) e o então recente de Clara Nunes, Viola de Penedo. Gonzaga emenda com temas alheios, como a lírica Fulô da maravilha (Luiz Bandeira) e parcerias (Juazeiro, Pau-de-arara, Vozes da seca, Asa branca, A volta da asa branca). Duelo de titãs. (T.S.)

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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