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18/08/2005
Mamam apresenta ao público sua mais nova aquisição: toda a obra em
xilogravura de Gilvan Samico, o maior nome nacional no gênero O artista plástico Gilvan Samico não é um nome nas artes plásticas pernambucanas. É O nome. E poucos, pouquíssimos artistas locais merecem um título como este. Por isso, apenas sete anos depois de realizar uma grande retrospectiva de seu trabalho, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) abre suas portas, novamente, com outra retrospectiva de Samico. O motivo, agora, é a aquisição, pelo museu da obra completa em xilogravuras do artista. A mostra não apresenta suas pinturas, litogravuras nem gravuras em gesso, mas todas as peças talhadas em madeira. Ou seja, a parte de sua produção que o define como um marco da arte moderna brasileira. Como Samico só realiza uma xilo por ano, o público pode ver, então, sete obras inéditas, além de alguns estudos que não fizeram parte da exposição anterior. Nessa exposição, intitulada Gilvan Samico: o outro lado do rio, o diretor do Mamam, Moacir do Anjos, quis explorar também o universo ambíguo pelo qual transita a obra de Samico, situada entre a erudição e o popular. “O artista bebe nas duas fontes, transita pelos dois universos, promovendo uma junção entre ambos. É esse caráter dual que pretendemos ressaltar. Por isso, chamamos a retrospectiva de O outro lado do rio, que é o título de uma de suas gravuras que representa bem essa condição entre-margens onde se situa Samico”, destaca Moacir. Gilvan Samico é, sem favor, o maior gravurista em atuação no Brasil e um dos melhores do mundo, atualmente. Seu trabalho se desenvolveu, dos anos 1950 para cá, a partir das técnicas que estudou com Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo, dois dos maiores gravuristas brasileiros da época. A mostra em cartaz no Mamam apresenta as criações de Samico exatamente a contar de seu ponto de partida, e prossegue até os dias de hoje. Por causa do volume de obras em cartaz, aproximadamente 100 gravuras, Moacir preferiu organizar a mostra seguindo uma linha cronológica, mas não de forma rígida. De uma maneira geral, no pavimento térreo do museu, estão as obras que representam a fase de formação do artista, incluindo gravuras que exibem de maneira explícita as influências de Goeldi a Abramo. Do primeiro, Gilvan Samico carrega a habilidade para compor obras com grandes planos negros, já que Goeldi se destacava por suas criações sombrias, cheias de cenas noturnas de traços expressionistas. Já Abramo era mestre na aplicação de tracejados sobre a madeira, para criar gravuras cheias de texturas e meio-tons. Nos anos seguintes, Samico conseguiu filtrar esses dois elementos, para aplicá-los de uma maneira bastante pessoal em sua produção plástica. Assim, no primeiro andar do Mamam, o público confere as obras realizadas nas décadas de 1960 e 1970, que marca o período da consolidação de uma linguagem própria de Samico, do seu traço personalístico. Foi durante essa fase que o artista deixou de lado as temáticas urbanas e se voltou para a criação de gravuras impregnadas pelo imaginário popular do Nordeste, pelas epopéias narradas nos folhetos de cordel e pelas marcas de narrativas bíblicas. Depois disso, o trabalho dele ainda passa por uma fase de mudanças, embora mais leve. Ela acontece no início da década de 1970, depois que Samico volta de uma temporada na Europa. Desde o seu retorno, em 1975, ele passa a produzir apenas uma xilogravura por ano, obrigando-se a um rigor técnico ainda maior e realizando sempre gravuras em grande dimensões. Essa fase marca também sua consagração unânime nas artes plásticas nacionais. Exposição Gilvan Samico: O outro lado do rio, abertura hoje, às 19h. Visitação de amanhã a 2 de outubro, de terça a domingo, das 12h às 18h, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Rua da Aurora, 265, Boa Vista. Telefone: 3423.2095 (© JC Online) A Bíblia sertaneja de Samico
Gravador tem nas passagens bíblicas uma de suas principais fontes de
trabalho e pesquisa, realizando uma síntese perfeita do popular com o
erudito O diretor do Mamam, Moacir do Anjos, conversou com os monitores da retrospectiva para evidenciar a dualidade presente na obra do artista. O elemento mais evidente é o diálogo que Samico propõe entre a arte popular e a erudição. Primeiramente, não se pode considerá-lo, nunca, um gravador popular. As obras que elabora são um primor de sofisticação, tanto do ponto de vista da qualidade técnica de impressão, quanto pelo prisma da composição refinada que elabora. Embora bebam, às vezes, nas mesmas fontes, como nas narrativas épicas de temas sertanejos ou bíblicos, Samico e os artistas populares não dispensam a esse material o mesmo tratamento, tendo o primeiro uma obra mais consistente. Dos anos 1970 para cá, o trabalho de Samico se consolida a partir da formação de uma linguagem bem própria. Sua obra tem marcas nítidas de um estilo que o torna reconhecível instantaneamente. É nessa época, por exemplo, que o tracejado de suas gravuras deixa de ser decorativo e é incorporado à narrativa da imagem, como explica Moacir do Anjos. Isso significa que ele foi depurando o trabalho, retirando adereços desnecessários e gravando apenas elementos que possam contribuir para as histórias impressas em suas criações. É ainda nesta mesma fase que entram em cena a simetria e o conteúdo predominantemente simbólico de suas gravuras. É o período também que sua produção adquire um tom misterioso, onde o pensamento intrínseco à imagem apresentada não é explicitada pelo artista, mas exige disposição do observador para desvendar suas mensagens. Gilvan Samico, aliás, diz que não percebe os conteúdos implícitos de sua obra, afirma até que, se eles existem, são inconscientes. Então, é bom que o público preste atenção à presença de animais em suas gravuras – e ao que eles representam dentro da simbologia. Lagartos, cobras, aves e peixes fazem parte do seu repertório. Entram em cena representando o bem ou mal, o homem ou a mulher, a vida ou a morte, numa obra que não só é permeada por essas dicotomias, como cria um tensão sexual quadro a quadro. Esse conjunto de elementos presentes em sua narrativa, faz de Samico um artista cuja obra tende a todo momento para uma linguagem universal. Ao lançar mão de temáticas bíblicas e de questões que movem o homem desde a antiguidade, o artista retira de suas gravuras o peso de uma obra datada. Samico não pode ser desgastado pelo tempo. “Reconheço que há doses de ancestralidade em minhas criações, é como se elas pertencessem a um momento que não é o atual. E essas dicotomias que dizem respeito à alma do homem realmente me seduzem. São uma constante no meu trabalho”, resume o artista. Embora admita que sofra influência de questões atuais, já que ninguém está imune ao seu próprio tempo, o gravurista crê que sua produção seja voltada mais para o irreal e o imaginado que para a realidade. REDESCOBRIMENTO Nos últimos dez anos, o trabalho de Gilvan Samico foi “redescoberto” pelo Brasil inteiro. Ele participou de mais de duas dezenas de importantes coletivas no País, incluindo eventos realizados pelo Itaú Cultural, Museu de Arte de São Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Pinacoteca de do Estado de São Paulo, Museu Nacional de Belas Artes, Instituto Tomie Ohtake, Sesc Pompéia e o Paço Imperial do Rio de Janeiro, além de ser selecionado para o Salão nacional de artes plásticas do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Brasil + 500 mostra do redescobrimento. No mesmo período, Samico também apresentou individuais no CCBB, no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, no Paço Imperial e na Pinacoteca de São Paulo. Pelo conjunto da sua obra, recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio Nacional de Cultura, do Ministério da Cultura. A mais recente destas mostras, apresentada na Pinacoteca de São Paulo, mostrou um conjunto que incluía estudos e obras finalizadas, oferecendo um enfoque sobre o processo de criação do artista. Na presente mostra, o Mamam também oferece alguns estudos de Samico, mas todos em xilogravura. O museu exibe ainda alguns trabalho mais experimentais, além de uma obra inédita criada para um livro de Eduardo Galeano que não chegou a ser publicado. (D.M.B.) (© JC Online)
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