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18/08/2005
Diários escritos pelo abolicionista ganham uma edição primorosa, com
lançamento marcado para sexta-feira Na próxima sexta-feira, uma parceria entre as editoras Bem-Te-Vi e Massangana lança os dois volumes dos diários do patrono da Fundação Joaquim Nabuco. Os textos reunidos nessa edição permaneceram inéditos durante quase 100 anos, em poder dos seus descendentes. Os diários são formados por 30 agendas, páginas soltas, somando algo em torno de 3.800 folhas. Neles, é possível encontrar o Nabuco das primeiras viagens ao exterior, sua luta pela abolição dos escravos e seu ostracismo após a proclamação da República. Antes do atual trabalho de edição, pouquíssimas pessoas tiveram acesso ao seu conteúdo. Algumas das suas passagens já foram reproduzidas nas biografias que o abolicionista recebeu de Carolina Nabuco e de Luís Viana Filho. “O Joaquim Nabuco da diplomacia e da vida cotidiana”, explicou Mário Hélio, responsável pela Massangana, em resposta à pergunta “qual Joaquim Nabuco que o público irá encontrar nesses diários?” “A importância de editar esse dois volumes reside, antes de tudo, porque a Fundação que tem o seu nome deve se preocupar sempre em colocar à disposição do público toda a sua obra e, de modo especial, os seus textos inéditos. Além da importância em si dos diários, vale referir o excelente trabalho do historiador Evaldo Cabral de Mello. São as suas anotações e os seus comentários que dão a esse material o grande status de fonte segura para pesquisas de historiadores e de todos os interessados em compreender, além de Nabuco, o período que abrangem os diários - os últimos anos do século 19 e os primeiros do século 20”, explicou Mário Hélio. A idéia de trazer a público os diários surgiu da própria família Nabuco, salientou Mário Hélio – “A família é que procurou a Fundação Joaquim Nabuco para ser parceira na edição, uma vez que a instituição detém os originais dos diários e a ela caberia sempre solicitar autorização para editá-los. A família Nabuco preferiu então, como é natural, divulgar os textos por meio de sua própria editora, a Bem-te-vi, e da fundação cujo patrono é o autor dos diários. O esforço necessário para conseguir os recursos para essa edição, que é cara, foi fruto do esforço e do prestígio do presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Fernando Lyra. Foi ele quem procurou o ministro da ciência e tecnologia, na época Eduardo Campos, e obteve imediato apoio. Em seguida, conseguiu que também o Ministério das Comunicações colaborasse para viabilizar a obra.” No caso específico de Nabuco, o autor dos diários sempre concorre com o autor de inúmeras autobiografias. Em livros, o autor já narrou sua relação com o movimento abolicionista em Minha formação, a sua reconversão religiosa em Foi voulue, e seus pensamentos foram reunidos em Pensées detachées, publicado em francês, que foi também a sua última obra. Nos diários, Nabuco, salvo algumas passagens, não costuma abrir sua vida íntima para o público ou é factual - com exceção aos seus anos de ativismo abolicionista. Os diários de Nabuco são marcados pela heterogeneidade. O primeiro deles, que abarca o período de tempo entre 1873 e 1874, é exclusivamente um relato da sua primeira viagem à Europa, e o diário de 1876-1877 traz observações em relação a sua vida nos Estados Unidos e suas atividades literárias. O diário de 1889-1898 tem um caráter privado, que foca o seu casamento e o nascimento dos seus filhos e, claro, sua análise sobre a proclamação da República – que o levou a optar pelo ostracismo. O livro também conta com uma série de anexos. Foram publicados, por exemplo, alguns textos de Nabuco encontrados em seus papéis, como as notas tomadas por ele das reuniões de 1881/ 1882 da Sociedade Central Emancipadora, e o manuscrito com o título de Quadros que são recordações de minha vida, escrito em seus anos finais. Lançamento dos dois volumes de Joaquim Nabuco diários: sexta, às 18h, na Fundação Joaquim Nabuco (Av. 17 de Agosto, 2187, Casa Forte). Os dois volumes são vendidos em um estojo e custam R$ 165 (© JC Online) Leia trechos de Joaquim Nabuco Diários Volume 1 28 de janeiro Como os selvagens supõem que cada dia há um novo sol. A unidade do homem é, como a concepção da alma e do corpo, uma grande hipótese. Mas entre o teólogo, que pretende substituir esta vida pela vida futura, que quer achar o lugar do homem na idéia de Deus, e o Spencer, que quer analisar o manequim, destruir o autômato para recompô-lo, estudar quimicamente os miolos, Horácio acharia lugar para uma filosofia mais humana. Esses grandes sistemas poéticos-teológicos, de que a mitologia é o mais fecundo e o do inferno o mais triste, fazem-nos perder de vista a natureza e a vida, mas essa anatomia moral nunca terá a popularidade necessária para substituí-los. O infinito, o universo hão de ser sempre para nós terra ignota, e por isso não admira que nós os povoemos de entes ainda mais imaginários do que os que os antigos punham além de sua geografia. 29 de janeiro De todos os instintos naturais o mais forte é o da conservação. O suicídio é passageiramente uma paixão e uma doença, um peso invencível da vida, em um certo grau uma loucura. Mas sendo a vida o primeiro interesse do homem, não há disciplina maior do instinto do que a morte voluntária por um dever quando o corpo está são, nem maior coragem do que a de morrer sem se prender à vida. O duelo não é prova de coragem senão até um certo ponto. A honra é um instinto social tão forte como os naturais. Mas subir ao cadafalso com sangue frio e conservar o decoro e a medida, e a liberdade de espírito nesse momento, é o verdadeiro, o mais completo domínio que a razão e a educação podem ter sobre a natureza. (© JC Online)
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