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20/08/2005
Menestrel baiano Elomar terá obra reunida em songbook, incluindo dez óperas que compôs, e prepara turnê pelo sertão que deve virar CD ao vivo Nelson Gobbi Segundo Elomar Figueira de Melo, a vida é um extenso filme projetado por Deus e protagonizado pelos homens, que entram e saem da trama à medida que nascem e morrem. No último domingo, sob a cúpula do Planetário da Gávea, o cantor, compositor e violeiro baiano viu seu longa-metragem pessoal repetir um velho clichê: diante de seus olhos impregnados do sertão estava uma platéia extasiada com seu canto ancestral e os ponteios de seu violão, capazes de transportar a outras eras e lugares. Atração do quinto aniversário do projeto Música nas Estrelas, do Planetário, Elomar se apresentou com uma formação camerística que incluía o filho João Omar (violão), Ocelo Mendonça (violoncelo) e Marcelo Bernardes (flauta). A experiência vai se repetir, e ampliada, numa série de concertos pelo interior do Nordeste, em janeiro de 2006. - Vou percorrer 12 cidades do sertão com uma estrutura sinfônica compacta que criei, e existe a possibilidade de essas apresentações serem gravadas em CD e DVD - adianta. A turnê virá na seqüência do lançamento de um songbook com a obra completa do menestrel, projeto que registra a importância de Elomar para a música brasileira. Mas esse reconhecimento nem sempre existiu. O compositor, que tem no Rio de Janeiro um de seus públicos mais fiéis, volta a fita da sua história e recorda sua estréia em terras cariocas: - Cheguei ao Rio espremido entre dois monolitos: o iê-iê-iê do senhor Roberto Carlos e a bossa nova. Estava num bar de Copacabana rodeado de bossa-novistas quando alguém me apresentou como um arquiteto formado pela Universidade Federal da Bahia. Vim com um violão menestrelesco, cantando num dialeto sertanês, um falar estranho, quase incompreensível. Logo nos primeiros versos as pessoas perguntavam: ''Que doutor é esse, que não sabe nem falar?''. Terminei de cantar e a mesa toda permaneceu em um silêncio sepulcral - lembra, soltando uma gargalhada rouca. Hoje tal situação seria impensável, dado o respeito e a admiração que Elomar conquistou junto à crítica e ao público com seu canto inspirado no falar do sertanejo e numa construção musical que remete à tradição trovadoresca da alta Idade Média. O cantor, definido por Vinicius de Moraes como um príncipe da caatinga, sempre encontra casa cheia em suas apresentações nos grandes centros, como São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Recife. Mas, curiosamente, não tem público cativo na capital de seu próprio estado: - Em Salvador, só uns amigos vão me ver de vez em quando. Lá existe uma indústria cultural carnavalesca, formada há uns 30 anos, voltada para o turismo. É uma cultura que se basta, focada na herança negra, na percussão. Não tenho essa formação. A parte percussiva da minha música é arrancada no bico das palhetas, nos sopros ou nos arcos. Sou do sertão profundo, da terra dos vaqueiros, gosto de estar de bota e chapéu. Sou completamente fora de moda e gosto de ser cafona assim - diverte-se. A linguagem presente em suas músicas nasceu da revolta com que via o modo como o sertanejo era humilhado por sua maneira de falar: - Ainda adolescente, quando estudava em Salvador, eu ia para as feiras ver os cantadores, os catingueiros, que eram ridicularizados por falar de maneira incorreta. E são justamente as comunidades agrárias que conservam os maiores valores da humanidade, enquanto as sociedades urbanóides estão em alto estágio de decomposição. Então decidi que, ao tratar de temas ligados à sociedade rural, dos roçadianos, sempre iria escrever na sua variação lingüística. Este dialeto foi registrado em discos considerados referências da música regional, como Elomar... das barrancas do Rio Gavião (1973), Na quadrada das águas perdidas (1979) e Consertão (1982), gravado na Sala Cecília Meireles com o pianista Arthur Moreira Lima, o violonista Heraldo do Monte e o saxofonista Paulo Moura. Elomar considera o mercado fonográfico cada vez mais cruel, fato que o desanimava a gravar novos discos - seu último álbum foi Árias sertânicas, de 1992. O que não quer dizer que neste intervalo tenha deixado de produzir: - Tenho entre 18 e 20 horas de músicas prontas na partitura, o que daria uns 20 CDs. Ficaria muito caro gravar tudo. Entre o material estão óperas que têm o sertão como tema principal: - Tenho em cima da mesa da minha casa umas dez óperas que venho escrevendo devagar, como O retirante, Faviela, Os lanceiros negros e A carta, que chegou a ser montada em Brasília no ano passado. Essa produção operística estará presente no songbook que está sendo produzido pela Casa de Cultura de Vitória da Conquista, terra natal do músico. O projeto do catálogo digital com todas as músicas gravadas e as partituras de Elomar foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural e espera a liberação do patrocínio para ser concluído. - É um projeto extenso, orçado em R$ 300 mil, e que vem sendo realizado há dois anos. Estamos à espera do sinal verde da Petrobras, mas a previsão é que seja lançado até dezembro - explica o presidente da casa de cultura, Carlos Jehovah de Brito Leite. (© JB Online) Discos serão relançados Mário de Aratanha, presidente da Kuarup, gravadora de Elomar desde 1982, tem outras boas notícias para os admiradores do cantor e compositor: - Estamos conversando sobre a gravação de um disco de tangos e serestas, que seria o primeiro do Elomar cantando músicas de outros compositores. Também há a possibilidade de gravar Árias sertânicas 2, no ano que vem, só com árias inéditas dele. Enquanto isso, vamos lançar até dezembro três de seus discos que estão fora de catálogo: Na quadrada das águas perdidas, Cartas catingueiras e o Árias sertânicas original - adianta Mário. A necessidade de Elomar de se expressar através da palavra transcende a música e chega até o cinema. Além das óperas nas quais trabalha, o cantor e compositor dá forma a seis roteiros de filmes - que, por sua vontade, jamais ganharão as telas: - Não escrevo esses roteiros com a expectativa de vê-los no cinema. Na verdade, até espero que ninguém se interesse em filmar esse material. O filme sempre decepciona quem o escreveu. Acho que o cinema deveria ser publicado em livros, para que cada pessoa construísse suas próprias cenas na cabeça. Enquanto sua obra caminha alheia à sua vontade, Elomar segue na calma de Rio Gavião, fazenda do município baiano de Vitória da Conquista onde substitui aos poucos os bodes e cabras por rezes de corte. É lá que o cantor e compositor acalenta o sonho de montar uma escola de música para crianças em Lagoa dos Patos (BA), na Chapada Diamantina, para onde pretende se mudar no futuro. Quer fazer uma orquestra com as crianças da região. - Sei que teria muitos alunos por lá. O nome da escola será Brasílio Itiberê, em homenagem a um dos compositores pioneiros do nacionalismo brasileiro, mas de quem hoje pouca gente se lembra. Estou tentando conseguir patrocínio lá fora, talvez na Alemanha ou Portugal. No Brasil é muito difícil, as pessoas não se interessam muito por isso. É mais fácil um maestro brasileiro conhecer um compositor estrangeiro como Philip Glass do que Brasílio Itiberê - lamenta. (© JB Online)
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