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22/08/2005
Nelson
Rodrigues estaria completando hoje 93 anos. Em todo o Brasil, dá-se início,
nesta semana, à encenações de peças e outras atividades em comemorações ao
ano do teatrólogo
Júnior Ratts
Especial para O POVO
Nelson
Rodrigues é, antes de tudo, o maior dramaturgo brasileiro. Com suas peças
revolucionou não só a dramaturgia da época, mas toda a forma de fazer e
perceber o teatro nacional. Ainda hoje, Nelson causa arrepios ao ser
assistido, ou lido. Ainda hoje, é um desafio encená-lo, tentar
compreendê-lo, identificar o que tal frase realmente quer dizer e o que há
de poético no suicídio, no incesto e nos demais desvarios dos seus
enlouquecidos personagens.
Mas Nelson não é só escândalo cênico,
é literatura viva. E atividade jornalística também. Aos 13 anos começou sua
carreira como repórter policial nos jornais A Manhã e
Crítica, de propriedade de seu pai, Mário Rodrigues. Foi no primeiro
que, aos 17 anos, viu seu irmão mais velho, Roberto Rodrigues, morrer, com
um tiro à queima-roupa, disparado por uma ''grãfina'' da sociedade, acusada
de adultério nas páginas do jornal A Manhã, que tinha Roberto,
como secretário de Redação. Após o assassinato, Nelson passou a viver sob
esse trinômio: jornalismo, adultério e morte. E a partir dele criaria as
maiores obras da literatura e do teatro, entre elas, as peças O Beijo
no Asfalto, Boca de Ouro, Viúva, porém honesta e o
romance Engraçadinha. Todas as obras repletas de passagens que
revelam não só as particularidades da alma e dos casamentos, mas que também
denunciam a atividade jornalista sem escrúpulos, que distorce a verdade e
destrói vidas.
Se estivesse vivo, o desvendador
maior dos medos e desejos da gente de nosso país, estaria completando hoje
93 anos. Infelizmente precisou repousar sua inventividade em dezembro de
1980, quando o olhar sempre apurado e imaginativo sobre o universo alheio
fechou-se para um mundo que ainda tinha tanto para lhe oferecer. Esse mesmo
mundo volta agora a se deixar perceber por meio do olhar de Nelson
Rodrigues. Em homenagem aos 25 anos de sua morte, por todo o país, surgem
montagens de suas peças, são lançados livros sobre ''o anjo pornográfico'',
entre outras atividades. Enfim: releituras sobre o homem que soube, à sua
maneira, ler e reler a psiquê dos subúrbios da alma e, dessa maneira, criar
uma arte extremamente particular e revolucionária.
(©
NoOlhar.com.br)
Nelson
Rodrigues de pijama
Sobre a vida de Nelson Rodrigues, o Vida
& Arte entrevistou o filho mais novo do dramaturgo, Nelsinho, que, entre
uma e outra famosa frase rodrigueana, relembrou momentos marcantes com o pai
Era uma noite carioca de 1957, quando Nelson Rodrigues morreu diante
do olhar nefasto da filha de seu irmão, Glorinha. Depois ele regressou de
sua morte temporária para receber alguns poucos aplausos pela sua primeira
(e única) experiência como ator, na peça de sua autoria Perdoa-me por
me traíres. Fim do espetáculo, Nelson retorna para casa. Antes,
porém passa na Galeria Cruzeiro (costume antigo) e compra um sanduíche para
dividir com os filhos, Joffre e Nelsinho. Os dois estão em casa, quase
dormindo, imaginando o que estará acontecendo ao pai ao interpretar as
frases, as quais tantas vezes já haviam ouvido no escritório de casa, após o
jantar, quando Nelson se colocava ao deleite da máquina de escrever. ''Eu me
lembro que a gente era muito garoto e não podia ir ao teatro, então a gente
ficava fissurado, querendo saber quantas pessoas assistiram a peça, se tinha
dado tudo certo...", conta Nelsinho, por telefone, ao Vida & Arte.
Depois de Perdoa-me...
vieram outras peças e muitos anos. Mas, na memória de Nelsinho, ainda
permanece vivo o sabor do sanduíche, prato principal da pequena cerimônia de
jantar, improvisada com a chegada do pai. E ainda: as peças sendo encenadas
no escritório do ''velho'', bem à maneira Nelson Rodrigues. ''Ele ficava
absorto. Ele gesticulava, ele levantava as mãos, fazia vozes, como se
estivesse sozinho. Ele ficava numa concentração e ia embora'', recordou.
Essa força na hora de dar vida aos manifestos da mente foi o que sempre
surpreendeu o menino tímido, ''o torpinho de vida'', como o pai preferia
chamá-lo. ''A vontade dele de escrever foi uma loucura, foi uma coisa muito
emocionante na minha vida''. E continua rememorando: ''O velho foi um dos
escritores do país que mais escreveu. Ele passou a vida escrevendo''.
Essa atividade impressionante de
escrita, porém, trouxe alguns pequenos contratempos para Nelsinho na época
da escola. ''Eu chegava no colégio e o pessoal perguntava se a minha mãe já
tinha apanhado, se ela botava vestido de baile pra lavar a roupa'', disse o
hoje jornalista e diretor teatral, referindo-se à distorcida idéia
construída na sociedade em torno de seu pai devido às crônicas de A
vida como ela é.... Histórias que nunca fizeram parte da vida de
Nelson Rodrigues e sua família, mas que apenas chegavam, por meio dos
outros, ao jornalista e eram tragicamente floreadas por ele. ''Você contava
uma história sua com a namorada e acabava virando história de A Vida...,
garante Nelsinho, que presenciou uma tragédia tipicamente rodrigueana na
própria vizinhança.
''Torpinho'' tinha então 10 anos de
idade e era aluno de uma professora de violino de 18 que, por sua vez, era
aluna de um maestro de 54, casado e com duas filhas. Eis que um dia surge um
amor entre os dois, aluna e professor, ''um daqueles amores fatais''. Foi
batata: não demorou muito e lá estava, estampado na primeira página dos
jornais, em letras garrafais: O amor da professora. Escândalo,
choro, indignação em Vila Isabel. A rua então decidiu fazer um
abaixo-assinado pra botar a fulana pra correr. Todos da rua assinaram. Até
que a tal lista chega ao senhor Nelson que, de pijama (pois era domingo),
diz diante do ceifador, ansioso pela assinatura do ''maior tarado do Rio de
Janeiro'': ''Não, não assino isso não, porque vocês estão matando essa
menina''. Dito e feito: três dias depois o casal fez um pacto de morte e
tomou veneno juntos. O caso impressionou Nelsinho, não tanto pela morte de
sua professora, mas pelo posicionamento de seu pai diante do fato. ''E aí eu
vi: Opa! Esse cara é diferente mesmo! Ele descobriu que ia acontecer isso.
Por que? Porque ele percebeu o que ninguém tinha percebido: que aquilo era
um amor verdadeiro. E esse amor verdadeiro não ia ter fim por pressões''. E
encerra a história com uma frase famosa de seu pai: ''Casal feliz é aquele
que morre no avião indo para a lua-de-mel''.
A admiração do filho estava ainda nas
ações e nos sentimentos contraditórios do homem que durante o dia enxergava,
por meio de sua mente, a vida íntima alheia e, à noite, se entregava calado
às suas óperas e suas músicas nordestinas. Esta contradição estava presente
também na distância sempre próxima entre Nelson Rodrigues e seus filhos.
''Ele não era de botar filho no colo, nada disso. Mas a gente sempre gostou
muito dele, assim mesmo na distância'', afirmou o filho que só viu seu pai
se alterar uma vez: na época em que Nelsinho começou a participar dos
movimentos estudantis e passou a discutir política com o ''anti-comunista
declarado''. ''A gente teve calorosas discussões durante anos'', relembra.
Até que ironicamente a prisão de Nelsinho durante o regime militar os uniu
como nunca. ''O velho era a visita mais disputada da cadeia. Ele chegava e
todo mundo ficava em volta dele''. Foi nesse período também que, segundo
''Torpinho'', seu pai decidiu ''fazer a segunda falseta'' com dona Elza, sua
esposa. ''Vou levar tua mãe pra morar comigo de novo'', disse Nelson para o
filho. ''Eles se separavam, mas namoravam muito. Viviam se encontrando'',
recorda, enquanto lembra também de mais uma frase do pai: ''Nada como ser
amante da própria esposa''.
Quando Nelsinho saiu da cadeia seu
pai dava vida aqueles que seriam seus últimos personagens teatrais: Lígia e
Guida, duas irmãs, que disputavam no palco o amor do mesmo homem, na peça
A Serpente, de 1980. Nelsinho estava lá, nos ensaios, junto com o
autor, que sonhava ainda em escrever sobre sua vida, numa peça em nove atos.
''Meu pai não queria parar nunca de escrever. Ainda no final ele escrevia
pra cinco, ou seis lugares''. Até o final mesmo, quando debilitado pela
medicação, precisou das mãos do filho para realizar sua última crônica
apaixonada sobre sua grande paixão: o fluminense. Era um jogo contra o time
carioca e o Vasco. Fluminense vence. Nelson enlouquece de tanta alegria.
''Quando acabou o jogo, ele foi pra máquina de escrever: 'Eu tenho que
escrever porque tenho, porque tenho', ele dizia (...) E aí tava tudo batido
errado. Aí eu falei 'Velho, vamos fazer o seguinte: eu fico na máquina. Você
vai dizendo e eu vou copiando'. E assim saiu uma crônica. Mas ele não dizia
direito, ele viajava''. Viagem que se concluiria alguns dias depois, aos
olhos do filho, tímido e revolucionário, perfeitamente contraditório: tão
Nelson como o próprio Nelson.
(©
NoOlhar.com.br)
Mundo
Rodrigueano
Os atores-alunos da oficina ministrada por
Oscar Roney apresentam hoje no SESC-Emiliano Queiroz, Flor & Naúsea
Durante o período de
seis meses, alunos da oficina teatral ''O Ator em Cena - Corpo, Voz e
Criação'' tiveram acesso ao rico universo de Nelson Rodrigues, composto por
17 peças escritas. O resultado final dessa vivência poderá ser visto hoje,
às 20h, no palco do Teatro SESC-Emiliano Queiroz (Centro). Intitulado
Flor & Náusea, o espetáculo será apresentado tendo como mote as
comemorações pelo Dia do Artista e os 25 anos de morte de Nelson Rodrigues.
Além da leitura de obras de autores
universais, os atores-alunos tiveram à mão noções de espaço cênico,
preparação corporal e vocal, processo de montagem de um espetáculo e
construção dramatúrgica. Especificamente no caso de Nelson Rodrigues, a
turma deu conta de seus contos, críticas, romances e crônicas, resultando na
elaboração de uma peça que tivesse algumas cenas marcantes bem como frases
imortais, enfim, sua personalidade.
Na montagem em questão, os
personagens caracterizam-se pelo rompimento de seus valores morais. Numa
atmosfera climática com tonalidades que passeiam pelo preto, branco e cinza,
Flor & Náusea mescla sensualidade e tragédia, sangue, paixão,
sexo e morte. Por vezes incompreendido, o dramaturgo conhecido como ''anjo
pornográfico'' deixou sua marca também por mostrar de maneira singular a
ferocidade, o escárnio e o instinto do ser humano.
Nelson Rodrigues tem sua coletânea
subdividida em três grupos: as peças psicológicas, as míticas e tragédias
cariocas. Até o final de agosto, a oficina ''O Ator em Cena'' estará com
suas inscrições reaberturas para novos alunos. Com vagas limitadas, os
interessados devem fazer sua pré-inscrição com Eliane Lobo pelo fone
3452.9090.
SERVIÇO
Flor & Náusea - Adaptação da dramaturgia de Nelson Rodrigues
pelos alunos da oficina teatral ''O Ator em Cena - Corpo, Voz e Criação'',
ministrada por Oscar Roney. Única apresentação hoje (23), às 20h, no Teatro
SESC-Emiliano Queiroz (avenida Duque de Caxias, 1701 / em frente ao DNOCS -
Centro), dentro das comemorações do Dia do Artista. Informações: 3452.9066.
Grátis.
(©
NoOlhar.com.br)
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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