Bruno Porto
São Paulo
O sucesso costuma transformar as pessoas. Tem gente que se deslumbra com a
fama e fica arrogante. Outros passam a achar tudo lindo. Com Pitty, não
aconteceu nem uma coisa nem outra. A baiana de 27 anos diz que não mudou sua
maneira de encarar o mundo depois que se tornou uma das roqueiras mais
populares do país. Passados dois anos da estréia com “Admirável chip novo”
(250 mil cópias), Pitty acaba de lançar o segundo CD, “Anacrônico”, e
continua simples, objetiva e, sobretudo, inquieta. Se a personalidade da
cantora não mudou, o mesmo não pode ser dito de sua música. “Anacrônico”
traz uma Pitty mais sombria. Em entrevista à Megazine, ela falou sobre
alienação, engajamento e a crise política.
— Não sou (tão politizada) quanto gostaria. Sinto-me em débito como cidadã
por isso.
O GLOBO: “Anacrônico” dá a impressão de que você está mais indignada. É só
impressão ou verdade?
PITTY: Talvez eu esteja, sim. Talvez eu esteja mais caótica. Faz sentido,
sim.
O que deixou você mais indignada? A situação do país, do mundo...
PITTY: É tudo junto. O discurso vem das coisas que a gente vive. Você vai
observando as coisas, coletando histórias e escrevendo.
Você se considera uma pessoa politizada?
PITTY: Não tanto quanto eu gostaria. Eu me sinto em débito como cidadã por
conta disso. O estilo de vida que levo não permite que eu seja mais ativa
nesse sentido. Para ser mais politizada eu precisaria ter mais tempo para
ler. Eu tenho uma sede de informação muito grande e nunca consigo dar vazão
a isso por causa da correria do nosso dia-a-dia. Existem prioridades. Mas
faço o melhor que posso.
Você está acompanhando a crise política? O que está achando?
PITTY: Eu estou acompanhando a crise. Leio o jornal todo dia de manhã. O meu
sentimento é um pouco de tristeza, pois eu acreditei. Sinto um pouco de
desilusão. Não consigo acreditar que as coisas chegaram a este ponto
caótico. Eu realmente acreditei.
Você votou no Lula, presume-se...
PITTY: Votei. Estou um pouco perplexa, mas não com ele. Porque eu olho para
o Lula e vejo um cara bom, tão decepcionado quanto eu. Eu acho que ele está
mal-assessorado. Eu me solidarizo com o Lula porque, numa outra esfera, eu
passo por isso também. Ele tem um monte de gente falando em nome dele. Assim
como uma banda tem um monte de gente falando por ela. Às vezes, acontecem
equívocos e o que fica queimado é o nome da banda. No caso da crise, o nome
que ficou queimado foi o do Lula, porque foi ele quem escolheu aquelas
pessoas. Eu quero esperar para ver qual vai ser o desfecho dessa história.
Espero que seja bom.
Você concorda com quem diz que a juventude é alienada?
PITTY: Eu já vi a juventude passar por muitas fases. Eu acho que ela já foi
mais política e depois ficou meio alienada. Hoje em dia eu vejo a molecada
muito preocupada com a questão das regras de convivência. Com o preconceito,
a ditadura da aparência... Não é necessariamente uma preocupação com a
política em si. Mas também é uma forma de militância. Não há uma
passividade. Não tem interesse por política partidária, mas por mudanças
existe interesse, sim, sem dúvida.
Você acha que os roqueiros brasileiros são suficientemente engajados?
PITTY: Isso depende de cada um. Não tem a ver dizer que eu acho que todos
deveriam ser engajados. Acho que tem que ser sincero. Não adianta o cara
fazer uma pose panfletária bonita e não ser real. “Agora é um momento bom
para ser panfletário. Vamos ser panfletários”. Não pode ser assim. Foi o que
aconteceu nos Estados Unidos na época dos atentados de 11 de setembro. De
repente surgiu um monte de bandas engajadas que talvez não fossem tão
sinceras assim.
(©
O Globo)
‘Não quero amarras’
Pitty, sobre uma “guerra civil não declarada”
Seus fãs estão em sintonia com as suas letras?
PITTY: Hoje tem uma galera que compreende profundamente o que eu digo. Tem
uma outra parcela de fãs que é do tipo oba-oba. É normal. Essa parcela do
oba-oba é menor e dentro dela tem muita gente que acaba se modificando. São
pessoas que depois de prestar atenção nas letras acabam criando um outro
tipo de relação, legal, verdadeira, com a minha música.
Em “De você”, você canta que “Quando o caos chegar/ nenhum muro vai te
guardar”. Você acha que o caos está próximo?
PITTY: Eu tenho momentos. Sou libriana. Tem horas em que eu acho que não tem
mais para onde ir, que isso aqui vai virar uma guerra civil declarada.
Porque não declarada já é. Se isso acontecer não vai ter muro, vidro de
carro, corda de bloco capaz de proteger as pessoas. Muita gente quer se
afastar dessa situação. Para isso compram o abadá mais caro que tiver e
pedem para botar uma corda em volta. Já em outras horas eu acho que vai dar
tudo certo, aquela sensação de “vamos lá”.
Quando acontecem esses momentos de esperança?
PITTY: Não sei. Mas eles são raros ( risos ). Geralmente eu acho
que vai dar errado. Lei de Murphy total.
Como você está lidando com o sucesso?
PITTY: Tudo o que você faz na vida tem um lado bom e outro ruim. Mesmo o
Bill Gates acorda indignado com alguma coisa de vez em quando. Com o sucesso
não é diferente. Nada disso me deslumbra, nada disso me modifica. Para mim é
só mais um processo. É claro que quando a coisa amplia você lida com coisas
novas. Por exemplo, hoje eu não lido só com a mídia especializada, que é
mais fácil. Às vezes tem programa de fofoca que quer falar com você. Aí é só
falar com eles da mesma forma que falaria com qualquer outro.
Você continua sendo patrulhada pelo “underground”?
PITTY: Ih, eu nem ouço. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Eu não me
sinto culpada de nada. Não tenho necessidade de me explicar. Estou fazendo o
que eu quero, porque eu quero. Eu acho que é uma postura burra, mesquinha,
egoísta e invejosa. Não gostou, vai chorar na cama que é lugar quente.
Planos para o futuro?
PITTY: Eu quero fazer várias coisas. Um dia eu vou ter uma banda de jazz.
Meu sonho era ser Billie Holiday ( risos ). Estou brincando. Sempre
ouvi muito jazz. Eu não quero ter amarras. Quero fazer o que me der vontade.
Se no próximo disco der vontade de só fazer blues, massa, vamos fazer só
blues.
(©
O Globo)
Som de Pitty fica
mais maduro, mas a roqueira não abre mão de sua rebeldia
Admirável em Pitty é o fato de ela ser das poucas mulheres roqueiras
que tem coragem de atolar o pé na jaca: pode não fazer rock que transcenda
determinada faixa etária, mas faz rock, e não caras e bocas
JOSÉ TELES
Admirável chip novo foi um disco certo na hora certa. A
molecada brasileira estava sem ídolos. A baiana Pitty subiu ao pódio,
aproveitando o vácuo existente (os ídolos dos anos 90 nunca souberam muito
bem lidar com o status, e perderam-se, por motivos variados, no caminho da
linha de chegada, Raimundos, Charlie Brown Jr. Skank, Pato Fu etc). Porém
Pitty era mais atitude (no sentido americano do termo) do que música. O
repertório daquele disco não tem nada memorável.
A moça enfrenta agora o texto do segundo CD. Anacrônico (lançado
semana passada) é superior ao álbum anterior, o que não significa
exatamente que seja um admirável disco novo. Déjà vu, a quinta faixa do
CD, daria um título mais apropriado do que Anacrônico. O som de
Pitty está mais maduro (bem-masterizado, com uma capa bem transada), é
pesado, sem partir para o cul-de-sac da punkadaria, nem
inserir entre um petardo e outro, balas de anis, a indefectível baladinha
(se bem que o disco tem música lenta).
O problema é que a cada música se tem a impressão de que já se viu o
filme antes. Quando ela canta, por exemplo, “Eu fui matando meus
heróis/aos poucos como se já não tivesse nenhuma lição pra aprender” (em
Memórias), faz lembrar de cara a “Meus heróis morreram de
overdose”), de Cazuza. Já em De você, Pitty investe contra os muros
altos e grades que isolam a classe média do outro mundo. Assunto já
abordado, e muito bem, por muito roqueiro, e emepebista. Como também,
abordado ad nauseam foi o sentimento de desencanto de Déjà vu
(a faixa soft do disco): “Nenhuma verdade me machuca/Nenhum motivo me
corrói/Até se eu ficar só na vontade, já não dói/nenhuma doutrina me
convence/nenhuma resposta me satisfaz/nem mesmo o tédio me surpreende
mais”.
Déjà vu, porém, é a melhor canção do disco. Aquela que exprime o
sentimento da geração de Pitty: uma geração sem heróis, de futuro incerto,
que vive atrás de grades voluntariamente, e com esta arapuca em que o PT
se meteu, certamente nutrirá cada vez menos interesse por ideologias.
Admirável em Pitty é o fato de ela ser das poucas mulheres roqueiras
que tem coragem de atolar o pé na jaca: pode não fazer rock que transcenda
determinada faixa etária, mas faz rock, e não caras e bocas, nem música de
mulher, ou seja, suaves a adocicadas canções “românticas”. Caso do peso
grunge de No escuro. Ela reúne coragem suficiente para cantar, em
Quem vai queimar: “Encaixotem os livros/desinfetem os cana as
mulheres/brutalizem os homens/despedacem os fracos/sodomizem as
crianças/escravizem os velhos/fabriquem as armas/destruam as casas/façam
render a guerra/escolham os heróis”, sua interpretação de livros sobre a
inquisição, e o papel da Igreja católica ao longo da história. Outro ponto
a seu favor, a baiana amadureceu desde o disco de estréia. Espera-se que
continue assim até o próximo. O pop/rock brasileiro está passando por uma
chatíssima fase de bom-mocismo, inteiramente fora do contexto do nada
admirável mundo velho em que vivemos.