Notícias
Arte límpida e cristalina

22/08/2005

 

CD duplo revela talento impagável das três irmãs cegas de Campina Grande

Tárik de Souza

   Junto com o filme A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner, que focaliza as três irmãs cegas cantoras de Campina Grande, na Paraíba, um CD duplo localiza o trio em seu espaço musical. E complementa a prospecção com releituras de seu repertório feitas por nomes diversos como Fausto Fawcett, Elba Ramalho, Paralamas, Lenine, Mombojó, Pato Fu, Pedro Luis e a Parede, Otto e BNegão. Artistas de rua, distantes da profissionalização, Regina Barbosa, 61 (Poroca), Maria das Neves Barbosa, 60 anos (Maroca), e Francisca Conceição Barbosa, 55 (Indaiá, ''por causa da marca de água mineral''), agregam a suas vozes crestadas cantorias, cantigas, cocos e emboladas ouvidos nas ruas e no rádio. Reprocessam a seu modo esses fragmentos do rico cancioneiro que circula nos grotões nordestinos e conseguem transformá-los em algo quase autoral. Embora utilizem apenas suas gargantas combinadas ao compasso dos ganzás ou mesmo vozes à capela, o que sai do CD duplo A pessoa é para o que nasce - Ceguinhas de Campina Grande - Releituras (TV Zero/ Luni) é arte límpida e cristalina.

   Nascidas numa família de camponeses sem terra, as três paraibanas seguiram os passos do pai alcoólatra, que as alugava como mão-de-obra temporária nas propriedades da região. Com a morte do pai, elas, que começaram cantando nas feiras e portas de igreja em troca de esmolas, passaram a sustentar até 14 parentes com sua atividade musical. Foram localizadas pela equipe da TV Zero em 1997 e a partir daí a história do filme confunde-se com a das suas vidas. No CD, a despeito de alguns diálogos reproduzidos do longa, predomina a parte musical, com sutis intervenções de Hermeto Pascoal, que sonoriza com teclados a fala das irmãs. Elas cantam cocos versados como Atirei no mar (do refrão ''atirei na moreninha/ baleei o meu amor'') ou Jurema preta (''ô, tamanqueiro/ eu quero um par/ de tamanco pra eu andar''), regravada no CD 2 com brilhantismo por Elba Ramalho, a voz de pastorinha cerzida por viola de 12 cordas.

   Sinto no meu peito essa dor é inicialmente solado por Maroca, que associa sua pungência à própria vida sentimental (''com o primeiro marido fiquei casada 11 anos, com o segundo dois, se arrumar outro vou passar só um mês'', ironiza). Depois da versão à capela, Pedro Luis e a Parede a transformam num samba folião. Poucas músicas têm autores, como Segredinho, de Manoel Batista. Na gravação realizada no festival PercPan, Gilberto Gil, que pilotava o evento ao lado de Naná Vasconcellos, não segura as lágrimas. Relida por Junio Barreto com o tilintar de uma kalimba pilotada por Lula Queiroga, o tema soa ainda mais belo. Também Tamborim, nítido samba dolente, ressurge com propriedade nas vozes eloqüentes de Teresa Cristina e Zé Renato. Já o rapper B Negão derrapa no coco Siga e venha, siga e vá, que as próprias irmãs classificam de difícil, por conta da engenhosa quebra das palavras dentro dos compassos.

   Nem tudo que aparece sem autor é música anônima. Santa beata mocinha é na verdade a valsa rancheira Beata mocinha, de Manezinho Araujo e José Renato, gravada por Luiz Gonzaga em 1952. Há outras pérolas no repertório, como Moça namoradeira, Coco do leão e Avião (com um trecho de cantiga popular citada por Edu Lobo em Cirandeiro, ''a pedra do teu anel/ brilha mais do que o sol''). Porém, a mais curiosa releitura é a do urbanóide Fausto Fawcett. Com o parceiro Laufer e o apoio vocal do onipresente Lula Queiroga, ele transpõe para o asfalto e o samba/rap, calcado no tamborim, a cantiga de adjutório Moço me dê uma esmola. Cantam Maroca, Poroca e Indaiá: ''Triste vida de quem pede com a maior necessidade/ quem pede, pede chorando/ pra dar, carece vontade/ ô, moço me dê uma esmola/ tenha de nós piedade''. Replica Fausto, num cáustico diálogo de bar, sob fuzilaria de guitarra, programação e samplers: ''Me dá um trocado?/ não vê que eu tou comendo?/ tô com fome!/ não vê que eu tou bebendo?/ paga um salgado?/ porra, eu tou conversando, sai fora!'' Miséria é miséria em qualquer lugar. Já a arte não tem preço.  

JB Online)


A Pessoa É Para O Que Nasce
   
São irmãs. São três. São cegas. Unidas por esta peripécia incomum do destino, viveram toda sua vida cantando e tocando ganzá em troca de esmolas nas cidades e feiras do nordeste do Brasil. O filme acompanha os afazeres cotidianos destas mulheres e revela suas curiosas estratégias de sobrevivência, da qual participam parentes e vizinhos. Acompanha também, numa reviravolta inesperada, o efeito do cinema na vida destas mulheres, transformando-as em celebridades. Um filme em que diretor e personagens confrontam-se com os laços que surgem entre eles, revelando a sedução e os riscos do ofício de documentarista.
 
 
Ficha Técnica

Título Original: A Pessoa É Para O Que Nasce
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 84 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 2003
Distribuição: 
Direção: Roberto Berliner
Co-Direção: Leonardo Domingues
Roteiro: Maurício Lissovsky
Produção executiva: Renato Pereira, Rodrigo Letier e Paola Vieira
Produtores associados: Jacques Cheuiche e Leonardo Domingues
Música: Hermeto Pascoal
Som: Paulo Ricardo Nunes
Fotografia: Jacques Cheuiche
Edição: Leonardo Domingues
Pós-Produção: Anna Julia Werneck e Kika Brandão
Edição de som e mixagem: Denilson Campos e Mariana Barsted
Identidade visual: Marcelo Pereira e Clarisse Siqueira
 
  Elenco

Maria Barbosa
Regina
Conceição
Gilberto Gil
 
 Pôsters
 Clique nos cartazes para vê-los ampliados em uma nova janela.
               
 
Curiosidades

- A Pessoa é Para O Que Nasce foi, inicialmente, um curta-metragem que percorreu vários festivais do Brasil e do mundo.

- Título em inglês Born To Be Blind.

- Roberto Berliner nasceu no Rio de Janeiro, em 1958. Iniciou sua carreira como diretor na década de 1980, com o registro de eventos no Circo Voador. Em 1989, realizou o documentário Angola, premiado no festival do Centre International de Création Vídeo Montbeliard Belford. Construiu sólida carreira como diretor de videoclipes, documentários e filmes publicitários. Dirigiu a série O som da rua (1997) e os curtas Afinação da interioridade (2002), A Pessoa é para o que Nasce (1998) e Andréia Andróide (1988). A pessoa é para o que nasce é o seu primeiro longa.

- Em 1997, durante as filmagens da série de TV "Som da Rua", sobre músicos anônimos, o diretor Roberto Berliner conheceu as irmãs Regina, Maria e Conceição. Como elas já não cantavam mais nas ruas, não possuíam mais os ganzás, sem os quais não se sentiam a vontade para cantar. Enquanto a produção providenciava novos instrumentos, a equipe teve oportunidade de conversar longamente com as três. A filmagem para o programa foi realizada, mas Roberto deixou o set tão impressionado com o que viu e ouviu, que decidiu que as três ceguinhas seriam o tema de seu próximo filme.
Alguns meses depois, Roberto voltou ao nordeste com o roteirista Maurício Lissovsky e uma câmera digital, para uma série entrevistas que serviriam de base para elaboração do roteiro. Com o apoio do Ministério da Cultura, este material de pesquisa serviu de base para a edição de um curta-metragem, que serviria ainda como laboratório de linguagem para uma obra de maior fôlego. O curta "A pessoa é para o que nasce" , com seis minutos de duração, foi lançado em 1998 e ganhou muitos prêmios, no Brasil e no exterior.
Partiu-se então para a produção do longa-metragem. As primeiras filmagens ocorreram ainda em 1998 e, no ano seguinte, com o apoio do Itaú Cultural e do Jan Vridjman Fund, fundação ligada ao maior festival de documentários do mundo, o IDFA, elas puderam ser intensificadas.
A repercussão da série Som da Rua, bem como do curta A Pessoa é para o que nasce, fez com que a música da três irmãs cegas de Campina Grande chegasse aos ouvidos de Nana Vasconcelos e Gilberto Gil, curadores do Percpan. Foram convidadas para participar do festival como "artistas profissionais", recebendo cachês pelas três apresentações que fizessem, em Salvador e São Paulo, em meio a diversas atrações nacionais e internacionais. Diante de tal reviravolta na vida de nossas personagens, decidiu-se interromper a edição e filmar estas apresentações. Depois de mais de um ano sem vê-las, registramos a primeira, e até hoje única turnê das "Ceguinhas de Campina Grande", como foram chamadas pela imprensa.
- As duas últimas sessões de filmagem aconteceram em 2002 e 2003, visando apreender que transformações esta efêmera celebridade teria produzido em suas vidas. Foram feitas, em sua maioria, com equipamento doméstico, pelo próprio diretor, praticamente sem qualquer assistência. Indicam assim, a nosso ver, aquilo que é a essência da atividade do documentarista: o registro, sempre arriscado, de uma expedição tripulada em direção ao outro.

- A versão em curta-metragem é de 1998, tem duração de 6 minutos. Sendo eleito o Melhor Filme - Festival do Rio 1999. O curta-metragem cuidadosamente foi transformado em longa durante três anos.

- O filme participou duas vezes do Festival do Rio, primeiro em 1999, como curta-metragem, e em 2004, na versão de longa.

- Mostra Premiere Brazil - Moma, Nova Iorque, de 23 a 29 de Junho 2004, Mostra Não Competitiva

- Filme de abertura do Festival É tudo verdade, Rio de Janeiro e São Paulo, Brasil, março 2004

- Exibição Hors-concours no IDFA- Festival, Internacional de documentário de Amsterdam, Holanda, novembro 2003.

- Selecionado no Festival Internacional do Rio na Premiere Brasil, Documentário, 2004

- Nascidas numa família de camponeses sem terra, passaram a infância perambulando pelas cidades do Nordeste do Brasil, seguindo os passos do pai alcólotra que alugava-se como mão-de-obra temporária para os proprietários de terra da região. Para complementar a renda, a mãe dedicava-se ao artesanato e elas aprenderam a cantar nas feiras e nas portas das igrejas em troca de esmolas.
Após a morte do pai, a cantoria tornou-se a principal fonte de renda de uma família numerosa, e que não parava de crescer. Houve um momento em que as ceguinhas sustentavam, com seus míseros ganhos, 14 pessoas, entre irmãos e irmãs, um deles adotado, sobrinhos, a mãe e seu novo marido.
Maria Barbosa, a mais habiliadosa e autônoma das três irmãs, foi a única que casou. E por duas vezes, ambas com deficientes visuais, tendo ficado duas vezes viúva. O primeiro marido foi Manuel Traquiline, violeiro e cantador, que passou a apresentar-se com elas nas feiras. Tiveram uma filha, Maria Dalva, que nasceu em 1989. Após o nascimento da filha, Maria foi viver com o marido em Natal, no Rio Grande do Norte. Foi o único período de suas vidas em que as irmãs estiveram separadas. Quando a filha já tinha completado cinco anos, Manuel morreu e Maria voltou para junto de suas irmãs, em Campina Grande. Lá conheceu Silvestre, o grande amor de sua vida com quem viveu dois anos, até o marido ser assassinado a facadas.
Quando a equipe da Tv Zero entrou em contato com As Três Ceguinhas pela primeira vez, em 1997, elas viviam praticamente sós, em uma pequena casa numa vila em Campina Grande, na Paraíba. A mãe delas tinha morrido há cerca de seis meses e Silvestre estava morto há menos de quatro. A filha de Maria estava em poder de umas tias distantes que se recusavam a devolver a filha para a mãe. O que aconteceu deste momento em diante está no filme.
 

AdoroCinema Brasileiro)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


 

Google
Web Nordesteweb