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27/08/2005
DA REPORTAGEM LOCAL "Estou achando divertido um filme que fala de falta d'água estrear mundialmente numa cidade completamente alagada", diz o diretor pernambucano Lírio Ferreira, que apresentará no Festival de Veneza seu "Árido Movie". O longa, que é o sucessor na filmografia de Ferreira do elogiado "Baile Perfumando" (1997), em co-direção com Paulo Caldas, compete na seção paralela Horizontes. A estréia no Brasil está prevista para março de 2006. O roteiro tem novamente a assinatura de Hilton Lacerda, que situa "Árido Movie" como "uma atualização da cinematografia que o Recife vem tentando impor, comprometida com uma nova visão narrativa, uma proposta de cinema fora dos eixos". Lírio Ferreira evita dar ao longa-metragem um selo. Mas trata-o como "um filme muito autoral". "São memórias minhas das pessoas com quem convivi, das coisas que passei", diz o cineasta pernambucano. O personagem central do filme é um jornalista que apresenta na TV a previsão do tempo. Logo na abertura, "Árido Movie" contrapõe o assassinato do pai do "homem do tempo", na fictícia cidade pernambucana de Rocha, com sua previsão de falta de chuvas na região. O retorno do jornalista ao sertão, depois de 30 anos de ausência, chamado ao enterro do pai, torna-se o condutor da trama.
"Cada um faz cinema da forma como lhe
é conveniente. O meu é de dúvida, de não entregar nada de bandeja, de deixar
o espectador preocupado quando sai do cinema", diz Ferreira. Em "Árido Movie", a escolha do elenco tenta corresponder ao estranhamento que o cineasta busca no espectador e também traduzir uma sensação que é sua. "Toda vez que vou chegando perto do sertão, eu me sinto de maneira estranha. As pessoas, o lugar, a geografia, parece que você está entrando em outra atmosfera, mágica, absurda", diz.
O ator Guilherme Weber, que despontou
na curitibana Sutil Cia. de Teatro, de Felipe Hirsch ("A Vida É Cheia de Som
e Fúria"), interpreta o protagonista. O pai de Weber é vivido por Paulo
Cesar Pereio, enquanto Matheus Nachtergaele é um de seus tios. Ferreira afirma que, com o ator "branco, louro, de olhos verdes, com 1,92 m de altura" vivendo um nordestino, o personagem alcança a sensação de ser "estrangeiro no seu próprio lugar". "Mas não improvável", ressalva, "haja visto que [o músico pernambucano] Otto nasceu a 20 km de onde a gente filmou." Otto, aliás, participa da trilha sonora de "Árido Movie", que tem também "Berna e Kassim e Pupilo, da Nação Zumbi, na parte original", cita Ferreira. A fotografia e a produção são do cineasta Murilo Salles. A atriz Giulia Gam interpreta "uma artista plástica meio videomaker, de novas apreensões, que está fazendo um documentário sobre a água no sertão de Pernambuco". Os personagens de Gam e Weber se cruzam, assim como o do velho sábio vivido por José Celso Martinez Corrêa, fundador do grupo teatral Uzyna Uzona. Ferreira diz que foi "um privilégio e uma responsabilidade" dirigi-lo. "Zé é completamente disciplinado no cinema. Ele veio com Lirinha [músico do Cordel do Fogo Encantado] no vôo e ficava ensaiando as falas, para não esquecer, porque elas eram meio loucas e grandes." (SA) (© Folha de S. Paulo)
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