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A nova música do Brasil segundo Gal

Hugo Sukman

   Gal Costa resolveu gravar um disco só de canções inéditas, coisa que não fazia há tempos. Começou a pesquisar repertório e entrou em desespero.

   — Ouvi muita muita muita coisa muito bem feita mas com as quais não me identificava. Ia me dando um desespero total. Mas pensava: “Tem que ter, eu tenho que achar” — diz Gal, já meio ressabiada por se julgar incompreendida quando, alguns anos atrás, gravando “Aquele frevo axé” (1998), ter declarado que não se identificara com as canções novas que ouviu mas ter sido vista como alguém que não acreditava na existência de boas novas canções (o que aliás ficou reforçado pelos seus discos seguintes, coisas como “Canta Tom Jobim” e “Todas as coisas e eu”, com clássicos do cancioneiro brasileiro). — Fui mal interpretada naquelas entrevistas.

   E Gal tanto procurou o novo que acabou achando. O resultado é “Hoje”, disco que não só traz canções inéditas como canções inéditas de compositores novíssimos e desconhecidos fora do circuito independente.

   — O disco não é uma provocação em relação àquela história. É para mostrar uma inquietação que tenho. Sempre quis fazer o novo e durante esse período em que cantei clássicos mostrei novidade no sentido de crescer como cantora — diz.

Repertório aponta para nova geração de compositores

   O “Hoje” de Gal é novo em tudo. Da sua nova gravadora, a independente paulista Trama, aos compositores. Gente como os baianos, radicados em São Paulo, Péri (a romântica “Voyeur”), Tito Bahiense (a jorgebeniana “Logus pé”) e Moisés Santana (a bossa nova “Os dois”); o artista plástico Nuno Ramos, surpreendendo com sambas à Nelson Cavaquinho “Pra que cantar” e “Jurei”; Moreno Veloso, afilhado de Gal (“Mas ótimo compositor, o que me orgulha” diz Gal para evitar qualquer acusação de nepotismo), com a linda valsa “Hoje” e o samba abaianado “Um passo à frente”; o pernambucano Junio Barreto, com o religioso mas sacudido samba-maracatu “Santana”; o paulista ultra-urbano Hilton Raw (gravado por Tetê Espíndola e com dois discos solo) com a densa “Nada a ver”. Repertório de desafiar quem pensa que conhece a MPB.

   — Radicalizei — reconhece Gal. — Estou tão contente de mostrar essa gente que é tão boa, tem tanto talento, mas que poucos conhecem. Hoje é muito difícil achar o novo porque esse pessoal está todo escondido. Antigamente acho que era mais fácil porque a mídia registrava tudo que acontecia nos colégios, nas faculdades, na rua, nos festivais. A minha geração teve acesso às gravadoras e à TV. Hoje as gravadoras bloqueiam e a TV tem pouco espaço.

   Tanto era assim que Gal estava na gravadora Indie Records, por onde lançou “Todas as coisas e eu”, discos de standards brasileiros, um sucesso puxado pela faixa “Nossos momentos” e pelos grandiosos arranjos de cordas. Gal queria, como contraponto, gravar um disco com novidades.

   — A Indie me pediu para fazer um volume dois do “Todas as coisas e eu”. Eu disse que só faria um disco de inéditas. Ao mesmo tempo a Trama estava me convidando para um trabalho. É uma gravadora que deixa o artista à vontade. E eles queriam isso mesmo, uma coisa nova — diz Gal.

   Antes houve o encontro com o pianista e arranjador Cesar Camargo Mariano (coincidentemente padrasto de João Marcelo Bôscoli, diretor da Trama), há uns três anos numa homenagem a Tom Jobim em Nova York.

   — Quando começamos a trabalhar eu falava muito para o Cesar sobre aquele som de trio que ele fazia para Wilson Simonal — diz Gal. — A idéia era um disco minimalista, de quinteto. E ficou com a marca do Cesar, aquela sonoridade do piano inconfundível, com harmonias ricas e ritmicamente espetacular.

Idade pode ter influenciado no conceito do disco

   A busca do novo, concorda Gal, talvez tenha a ver com os imperceptíveis 60 anos que ela completa este mês.

   — Talvez inconscientemente os 60 anos influenciem nessa minha busca pelo novo — diz Gal. — Quando mais jovem, queria ser densa, madura, porque tenho cara de menina, pareço frágil mas não sou. Sou uma mulher forte.

   A busca da densidade levou Gal ao posto de “grande cantora”, que se ela não abre propriamente mão, relativiza ao trocar os clássicos pelo novo.

   — Na verdade tenho várias facetas, várias caras. Comecei com o disco “Domingo”, que fiz com Caetano, que é a cara da bossa nova e tem a influência de João Gilberto de forma radical. Depois veio a fase do tropicalismo e todo aquele aspecto experimental. E, depois nos anos 80 uma fase mais pop. Acho que tenho uma cabeça e um coração muito abertos, e até talento para caminhar por vários estilos de música.

   Na busca pelo novo, Gal recorreu à âncora de seus dois compositores de fé, Caetano Veloso e Chico Buarque. O primeiro mandou-lhe um samba lindo e triste, “Luto”, que Gal só conseguiu gravar no segundo dia, de tanto que chorava no primeiro. Chico mandou uma melodia sinuosa que foi letrada por um José Miguel Wisnik aparentemente tentando incorporar o próprio Chico, o que resultou na canção “Embebedado”.

   — Recebi dois presentes que não podia recusar — diz Gal. — Acho que Chico e Caetano são duas cabeças, duas fontes, que toda essa nova geração bebeu e bebe muito. Tinha muito a ver botar duas essas duas grandes referências no meio de tanta coisa nova.

   Outro colaborador de Gal na busca pelo novo foi o letrista Carlos Rennó. Foi a ele que ela recorreu quando, desesperada, não achava músicas que quisesse gravar.

   — O Rennó me levou um samba lindo que fez com Elton Medeiros, que adorei mas que tinha o velho problema, não me identifiquei para cantar. Eu pedi ajuda a ele que entendeu o que eu queria e disse que conhecia um pessoal novo e que ia reunir um material. Aí ele me mostrou o Péri, as canções do Nuno Ramos e aí eu fui chegando nesses compositores — diz.

   Rennó ainda levou três canções que fez com o congolês Lokua Kanza e Gal gravou-as todas.

   — Eu me identifico muito com o trabalho do Lokua. É um africano que faz um trabalho bem aberto, internacional. E tem a mão do Cesar que traz tudo para o Brasil, mesmo “Sexo e luz”, que é a mais pop dele, tem um samba no meio que quebra.

(© O Globo)


Uma voz límpida e moderna,como sempre foi

Antonio Carlos Miguel

   Se alguém tinha dúvida, “Hoje” é infalivel. Gal Costa está cantando muito, no alto padrão da moderna canção brasileira: a voz ainda límpida usada na dose certa, em divisões extremamente musicais, nas quais saboreia cada sílaba e explora o sentido e o sentimento das letras.

   O talento da cantora sempre foi indiscutível. O que se questionava era repertório e arranjos de muito do que gravou nos anos 80 e em parte da década passada — na qual, um belo disco como “Aquele frevo axé” (1998) passou em branco pelas rádios e não foi entendido pela crítica.

   “Hoje” bota a carreira de Gal nos eixos. Cesar Camargo Mariano, responsável por produção, arranjos, piano e teclados, sabe como poucos trabalhar com cantores (nos anos 60 e 70, provara isso com Wilson Simonal e Elis Regina); e o repertório inédito é na sua maioria interessante. Sim, há alguma gordura nas 14 faixas — o disco ganharia com uma peneira estética mais rigorosa. O pop melódico, e óbvio, do africano Lokua Kanza (com letras de Carlos Rennó) pouco acrescenta — e por que gravar três canções dele?

   Mas são exceções que não atrapalham um disco com belas surpresas: os dois sambas do artista plástico Nuno Ramos, “Pra que cantar” e “Jurei” (este em parceria com Clima); as canções de Moreno Veloso, “Hoje” e “Um passo à frente” (esta com Quito Ribeiro); e, esta não surpresa vindo de quem, o samba “Luto”, de Caetano Veloso. Em pelo menos duas canções há citações à bossa nova. Moisés Santana abre “Os dois” com a frase “Eu, você, nós dois” (de “Fotografia”, de Jobim); enquanto Chico Buarque e Zé Miguel Wisnik, em “Embebedado”, remetem a outro clássico de Jobim, “Desafinado”, na frase “Eu mesmo mentindo/Devo argumentar”. E sem mentira, “Hoje” é o melhor argumento para saudar a ótima forma de Gal.

 (© O Globo)


Gal faz garimpo musical e lança álbum com inéditas

Em sua estréia na Trama, cantora grava compositores pouco conhecidos

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO]

   Depois de sete anos lançando discos com repertórios isentos de novidades, Gal Costa volta ao presente com "Hoje". O título significativo foi retirado de uma canção de Moreno Veloso, que, não fosse filho de Caetano, poderia entrar no largo rol de compositores pouco ou nada conhecidos do CD.

   "Achei que "Hoje" se adequava, porque estou fazendo 60 anos [em 26 de setembro] com um disco rejuvenescedor, instigante. Não me lembro, na história da MPB, de alguém que tenha lançado tanta gente nova para o grande público", orgulha-se a cantora.

   Gal passou os últimos anos trocando de gravadora (BMG, MZA, Abril, Indie) e sendo cobrada para lançar um disco de inéditas. Agora na Trama e morando em São Paulo -depois de sete anos em Salvador- ela diz ter ficado mais próxima dos novos autores.

   "É preciso ter disponibilidade para ir aos lugares, procurar. Os compositores estão escondidos e têm dificuldade de mostrar seu trabalho. Na minha geração era mais fácil, pois havia os festivais e a mídia estava disponível para registrar tudo o que acontecia nas ruas, nas faculdades, nas festas."

   Com a ajuda da Trama e do letrista Carlos Rennó, Gal recebeu cerca de 200 músicas inéditas ou gravadas apenas por seus autores. A qualidade que afirma ter encontrado é um mote para ela rechaçar que tenha afirmado, em 2001, que não havia bons compositores novos no Brasil.

   "Não sou louca de dizer uma frase dessa. Fui mal interpretada. O que disse é que, quando fiz "Aquele Frevo Axé" [1998], um disco que passou em branco e hoje parte da imprensa reconhece como bom e de certa forma inovador, não encontrei nada que se adequasse ao meu universo musical. Existem bons [compositores] sim", afirma.

   Alguns desses, estão em "Hoje": os baianos Moisés Santana, Péri e Tito Bahiense; o pernambucano Junio Barreto; e o paulista Hilton Raw. Há outros "novos compositores" de outras áreas, como os artistas plásticos Nuno Ramos, Eduardo Climachauska e Lenora Barros, e o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, editor de Opinião da Folha.

   "Péri, Moisés e Junio, por exemplo, gravaram discos independentes e estão ralando há bastante tempo, mas ninguém dava trela. Tive a oportunidade de ter acesso a esse material e lançá-lo", diz Gal.

   Liderando a turma, autora de três das 14 faixas, está a dupla formada pelo paulista Carlos Rennó e o músico Lokua Kanza, nome conhecido na seara world music, nascido no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo.

   "No show que vou começar a montar, ainda pretendo incluir um ou dois compositores que eu queria ter gravado, mas ficaram de fora", conta ela.

   Representando sua geração, estão, com uma inédita cada, Caetano ("Luto") e Chico Buarque ("Embebedado", com letra de José Miguel Wisnik). Eles aparecem discretos no disco, nas faixas 9 e 13, respectivamente. "A escolha das faixas foi casual", diz Gal.

   "Hoje" foi feito de uma forma pouco comum nos tempos atuais: com uma mesma banda tocando em quase todas as faixas e um mesmo arranjador, Cesar Camargo Mariano. "Cesar vive um momento bem "cool", e eu sou uma cantora essencialmente "cool"."

   O sonho inicial de Cesar, de fazer com a cantora um disco dedicado ao repertório de Chet Baker, ficou para 2006.

   Foi o pianista quem fez a ponte entre a Trama, de seu enteado João Marcello Bôscoli, e Gal. Ela nega que tenha sofrido pressões de gravadoras nos discos anteriores ("Eu estava gravando as coisas que eu queria"), mas se diz feliz em ter seguido o caminho das independentes, como fizeram os também "medalhões" Maria Bethânia e Chico Buarque.

   "Eles [da Trama] gostam de fazer o que o artista quer, trabalhar em comunhão. Isso não tem preço. É um clima muito melhor do que o anterior", comenta.

   Ela não deixa vazar nenhum temor por estar lançando um CD de compositores novos por um selo menor: "Meu público é fiel".

   "Hoje" chega "rejuvenescedor" em um momento "muito ruim" no país. "É desolador o PT ter vindo com um discurso de mudança, e acabar sendo revelado que [o partido] não era só conivente, mas fez tudo em dobro. Espero que esse processo seja um exorcismo, para limpar essa bandalheira. Estou muito entristecida."

(© Folha de S. Paulo)


CRÍTICA

Intérprete mostra fôlego e coragem

DA SUCURSAL DO RIO

   "Hoje" não é a redenção milagrosa de Gal, como cogitavam fãs descontentes e críticos contentes com o desgoverno recente de sua carreira, e muito menos um desastre. É um bom disco, cujo mérito maior é o renascimento da coragem da cantora.

   Gal Costa rejeitou o modelo embalsamador de diva, que ameaçava incorporar, e voltou às novas composições. O resultado de sua colheita é irregular, mas os bons frutos são maioria.

   Um deles é a faixa-título, canção de Moreno Veloso que tem sua força na extrema delicadeza de melodia e letra. Na mesma chave está "Nada a Ver" (Hilton Raw, Lenora e Marcos Augusto), em que a melancolia das notas longas se traduz no piano e no baixo acústicos que acompanham Gal.

   Cesar Camargo Mariano volta a brilhar no piano e no arranjo de "Pra que Cantar", um belo samba de fossa anti-Carnaval ("Me deixem fora dessa euforia de três dias") de Nuno Ramos. O artista plástico também é um dos autores de "Jurei", eficiente sambão com toques jazzísticos.

   Em "Os Dois", a melodia de Moisés Santana é ótima, um samba-canção que vira blues nas regiões graves, mas a letra traz o enjôo das duplas citações: faz jogos de palavras com músicas da bossa nova, como Caetano Veloso fizera em "Saudosismo".

   "Santana" (Junio Barreto/João Carlos), de letra intrincada, ficou com boa mistura entre acústico e eletrônico, emulando um pouco de Jorge Ben Jor. Este é referência nítida em "Logus Pé" (Tito Bahiense), um passeio surrealista pelas ruas de Salvador que ganha de Gal interpretação à anos 70.

   Em "Voyeur" (Péri), a tibieza da música é disfarçada pela agradável leveza baiana do clima criado por Gal e Cesar. Essa leveza também está na faixa de abertura, "Mar e Sol", mas a letra de Carlos Rennó para a melodia de Lokua Kanza é por demais banal.

   Os dois são parceiros na também banal "Te Adorar" e na múltipla "Sexo e Luz", que cativa pelos caminhos inusitados e crescendos, ótimos para Gal. A gravações tem vocais de Kanza, bem superiores aos que o paulista Silvera faz em outras faixas.

   A contribuição de Caetano ("Luto") é, também, uma bela canção situada no Carnaval, sofrida declaração de amor à festa. Chico Buarque, ao lado do aqui letrista José Miguel Wisnik, participa com a deliciosamente sinuosa "Embebedado".
Cantando com suavidade e novo fôlego, Gal reencontra o amanhã em "Hoje". (LFV)

Hoje
   
Artista: Gal Costa
Lançamento: Trama
Quanto: R$ 30, em média

(© Folha de S. Paulo)


Os novos nomes de Gal

Cantora comemora 60 anos com 'Hoje', disco de inéditas em que revela safra de compositores

Nelson Gobbi
 

   Rogério Montenegro/ Gazeta Mercantil

Cantora diz se sentir jovem: ‘Artista é atemporal’

 Cantora diz se sentir jovem: ‘Artista é atemporal’

   SÃO PAULO - A antes inexpugnável muralha dos 60 anos ganhou um sentido mais ameno quando ídolos da música brasileira como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque a transpuseram com invejável vitalidade. Agora chega a vez de Gal Costa, que completa seis décadas de vida no próximo dia 26. Dispensando o excesso de formalidades que poderiam trazer peso extra à data, a cantora baiana prefere comemorar com um disco de músicas inéditas, a maioria composta por nomes desconhecidos do grande público. A intérprete espera que a leveza do CD Hoje, cuja produção e arranjos levam a assinatura de César Camargo Mariano, transmita o seu espírito renovado, o retrato da artista quando jovem.

   - Não me sinto com 60 anos. Minha cabeça e meu espírito não têm essa idade. Não sou só eu; é só olhar para o Caetano, o Chico, o César Camargo, todos têm uma vitalidade impressionante. Acho que os artistas têm essa característica atemporal. Jamais me imaginei com 60 anos, e é claro que não é fácil chegar lá. Mas lançar este disco agora é um presente maravilhoso, porque reflete um grande frescor, tanto meu como do César - afirma Gal.

   O álbum reuniu novamente a cantora baiana e o pianista, produtor e arranjador, que haviam trabalhado juntos no disco Baby Gal (1983). César também ressalta a vitalidade da cantora.

   - A Gal parece uma menina de 19 anos, é uma folha verde que impregnou todo o álbum com sua jovialidade. Eu me preocupei em não descaracterizá-la, e tive em mente que ela é uma das raras cantoras brasileiras que podem correr certos riscos. Por isso quis trazer para o disco uma enxurrada de compositores novos. Assim como Elis fazia no passado, a Gal é perfeita para revelar talentos ainda desconhecidos - atesta o músico, ex-marido de Elis Regina e pai dos cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

   O CD Hoje é fruto de outro projeto de César e Gal. Após um encontro em Nova York, os dois decidiram produzir um disco dedicado a Chet Backer, trompetista americano que influenciou diretamente a bossa nova e, por conseguinte, toda a geração posterior de artistas brasileiros. César levou o projeto a João Marcelo Bôscoli, presidente da gravadora Trama, que decidiu produzir o disco-tributo e, de quebra, um álbum de inéditas da cantora.

   - A idéia inicial era fazer os dois discos juntos, mas percebemos que seria muito desgastante produzi-los simultaneamente. Então optamos por fazer o CD do Chet Baker daqui a algum tempo, depois de lançar e fazer os shows do Hoje. Acho que deverá ser relativamente mais fácil gravar o próximo CD, porque eu e o César conhecemos bem a obra do Chet. Será mais o tempo de definir o repertório e entrar no estúdio para gravar - prevê Gal Costa.

   Depois de assinar o contrato para os dois discos com a nova gravadora, a cantora começou a selecionar o repertório, repleto de jovens compositores como o pernambucano Junio Barreto, os paulistas Hilton Raw e Nuno Ramos, os baianos Moisés Santana, Péri e Tito Bahiense e o congolês Lokua Kanza, entre outros. Para encontrar os novos autores, a cantora contou com a ajuda do letrista e produtor Carlos Rennó e do pianista Otávio de Moraes.

   - Sempre lancei gente nova e há muito tempo queria fazer um disco de inéditas. Após um dos meus shows, o Rennó me mostrou três músicas dele com o Lokua, que acabaram entrando no CD. Então eu lhe pedi que me ajudasse a garimpar novos nomes para o álbum. Ele e o Otávio selecionaram alguns trabalhos, que eu e César avaliamos em função do equilíbrio geral do disco. É gratificante poder mostrar a obra de gente talentosa que ainda não tem espaço junto ao grande público - afirma Gal.

(© JB Online)


'A internet é o caminho'

   Gal Costa aproveita o fato de estar lançando novos autores para desfazer um antigo mal-entendido:

   - Há poucos anos, uma afirmação minha teve interpretação equivocada por parte da mídia. Jamais disse que não havia mais bons compositores novos, seria burrice afirmar isso. Acho apenas que, na época em que a nossa geração surgiu, era mais fácil mostrar um trabalho, os meios de comunicação iam atrás dos artistas jovens, havia os festivais. Por isso este CD é ousado. Não me lembro, na história recente da MPB, de alguém gravando tantos compositores desconhecidos.

   A cantora também foi uma das primeiras estrelas da MPB a deixar uma major e apostar no mercado independente, em 2002. Hoje, Gal não vê tanta diferença entre pertencer a uma multinacional ou a um selo pequeno.

   - Acho apenas que as grandes gravadoras estão perdidas, sem saber que caminho percorrer. Os selos menores estão interessados em investir no novo, com um tesão de trabalhar que as grandes tinham no passado. A tendência do mercado fonográfico é a internet. Os fãs vão continuar comprando o disco, mesmo que não gostem de todas as faixas. Mas uma pessoa que goste de duas músicas minhas pode comprá-las pela rede e montar um disco com outras faixas da Marina Lima, do Caetano ou do Gil, por exemplo. O avanço da tecnologia vai apontar esse caminho - avalia a intérprete.

   Como de costume, Gal escolheu uma das faixas para dar título ao álbum. A opção por Hoje, composta por Moreno Veloso, se deu pela sintonia que a cantora pretendia mostrar no novo trabalho:

   - Eu e o César tivemos a mesma idéia. A música do Moreno era a mais adequada para batizar o disco por ter um espírito atual, contemporâneo, que retratou tão bem nosso reencontro.

   Além de compositores em ascensão como Moreno, o disco também contou com a participação de dois ícones da música brasileira: Caetano Veloso, pai de Moreno, e Chico Buarque.

   - Não poderia deixar de gravar esses presentes que Caetano e Chico me deram, até porque as músicas estão completamente integradas à proposta do álbum. Eu pedi uma música ao Caetano três meses antes de começar a gravar o CD. Ele me mandou Luto por e-mail e depois veio até São Paulo, para acompanhar a gravação dela no estúdio. Já Embebedado foi diferente; era uma melodia que o Chico tinha pronta para uma trilha sonora de um filme que acabou não sendo produzido. Então ele entregou para o José Miguel Wisnik colocar a letra. Eu queria cantá-la no meu show anterior, mas acabou não ficando pronta a tempo. Felizmente ele conseguiu terminá-la para que pudesse entrar no disco e o resultado foi surpreendente, parece até que os dois a fizeram juntos. (*O repórter viajou a convite da gravadora) 

(© JB Online)

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