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Salvador, segundo Marcello
Quintanilha |
Eduardo Souza Lima
Março, Barcelona. Em seu apartamento/ateliê, que fica próximo à Sagrada
Família de Gaudí, Marcello Quintanilha inquieta-se com as cobranças de seu
editor, Roberto Ribeiro, que o lembra por telefone que há um prazo para ele
terminar o livro que está fazendo sobre Salvador. O desenhista e escritor
ainda está trabalhando na prancha da Praia de Itapuã e ainda falta começar
algumas importantes, como a da Praça Castro Alves e a do Barradão, o estádio
do Vitória.
— Ele precisa entender que não é uma cidade qualquer, não posso errar —
dizia.
Quintanilha já sabia que “Salvador”, editado pela Casa 21/Esso, o quarto
volume da série Cidades Ilustradas, seria o seu trabalho mais importante. E
à medida em que recebia as imagens do desenhista, via e-mail, o editor
também percebia que teria em mãos uma obra especial:
— O Gaú (apelido de Quintanilha e, por anos, seu nome artístico)
está se superando. Nunca vi nada parecido com o que ele está fazendo! —
vibrava Ribeiro.
O livro foi lançado na semana passada em Salvador, com direito à presença do
ministro da Cultura Gilberto Gil e prefácio de um dos seus
ex-braços-direitos, o antropólogo Antônio Risério. E conseguiu superar todas
as expectativas que o cercavam.
A Salvador mítica freqüentava o imaginário do desenhista desde a infância,
mas ele não a conhecia pessoalmente. Só foi à capital baiana em 2003. Ficou
lá 15 dias, máquina fotográfica e gravador em punho, para pesquisar —
Quintanilha não se preocupou apenas em registrar a cidade visualmente, mas
também suas histórias e as formas como o soteropolitano fala e se relaciona
com ela. Quem folheia o livro tem a impressão de que ele foi feito por
alguém que lá sempre vai.
Quintanilha escreve tão bem quanto desenha
Autodidata, Quintanilha criou o seu próprio estilo de desenho, usando
grafite e aquarela, sem nanquim. A lapiseira — “E eu só uso esta. Se ela
sumir, não sei o que faço”, frisa — fere o papel em sulcos profundos.
Curiosamente, porém, ele não considera o desenho do papel o seu produto
final, ou o original.
— Depois, no computador, é que atinjo o tom de preto que eu quero. Penso
como o trabalho vai ficar quando impresso.
O desenhista Quintanilha pode, à primeira folheada, ofuscar o escritor
Quintanilha; mas histórias como a de Vânia, que não quer mais o amor de Irã;
das tonturas de Ozório; e de Dona Armandinha, que não gosta mais de cinema,
apresentam ao leitor uma Salvador viva, cheia de sons e odores, e provam que
o segundo é tão bom — ou até melhor — do que o primeiro.
Radicado na Espanha desde 2002 — ele trabalha para a editora belga Lombard,
na série de quadrinhos “Sete balas para Oxford” — o desenhista niteroiense
está completamente adaptado a Barcelona, cidade que costuma percorrer a pé —
“Nem lembro a última vez que peguei o metrô ou tomei um ônibus”. Saudades do
Brasil?
— Não. Porque, na verdade, eu nunca saí do Brasil.
(©
O Globo)
O Brasil em desenhos
Depois de “Salvador”, “Belém”. O livro do desenhista francês Jean-Claude
Denis será lançado na próxima terça-feira na capital paraense. Será o quinto
volume da série Cidades Ilustradas, da editora Casa 21. O projeto começou em
2001, com o lançamento de “Rio de Janeiro”, do francês Jano. Em dezembro de
2003 saiu “Belo Horizonte”, do espanhol Miguelanxo Prado. O carioca Cesar
Lobo foi o primeiro brasileiro a participar da coleção, com “Curitiba”,
lançado no ano passado.
Este ano, além de “Salvador” e “Belém”, a editora lança ainda “Cidades do
Ouro”, do mineiro Lélis, que vai retratar Ouro Preto, Congonhas, São João
Del Rei, Tiradentes e Diamantina. No ano que vem, o editor Roberto Ribeiro
começa a preparar o álbum de São Paulo. A idéia é convidar um desenhista
japonês ou americano para o trabalho.
Os livros da coleção também estão ganhando o mundo: “Rio de Janeiro” saiu na
França, pela prestigiada Albin Michel, antes mesmo do que no Brasil; “Belo
Horizonte” foi lançado no mesmo país este ano, rebatizado como “Nostalgies
de Belo Horizonte”, via Casterman; e Denis já negociou com a editora
Futuropolis a publicação de “Belém” na Europa.
A Casa 21 acaba também de pôr no ar o seu novo site
(www.editoracasa21.com.br) onde, além dos livros da editora, o visitante
também poderá conhecer o trabalho de outros artistas que se dedicam a
desenhar cidades e baixar para a impressão, em excelente resolução, o álbum
“Rio de Janeiro”.
— Quem gosta de livro, de colecionar, e tiver dinheiro, não vai deixar de
comprá-lo. Mas quem for duro e quiser ter os desenhos, é só baixá-lo de
graça na internet. É um modo de formar leitores — acredita o editor Roberto
Ribeiro.
Em breve, os livros da Casa 21 também poderão ser comprados no site.
Fora a coleção Cidades Ilustradas, a Casa 21 lança em breve “Sem
comentários”, coletânea de textos, desenhos e comentários de visitantes do
blog do cartunista gaúcho Allan Sieber. E, no ano que vem, o livro sobre o
carnaval carioca do italiano Lorenzo Mattotti. (E.S.L.)
(©
O Globo) |