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A Mata Norte sai do anonimato

Áudio
» Ô Cirandeira - José Galdino
» Ciranda pesada - João Limoeiro
» Improviso - Antônio Caju e Caetano da Ingazeira
» Dei um brado - Zédeteté
» Marcha I - João Paulo e Barachinha
» Marcha em seis linhas - Antônio Roberto

Mestres da cultura popular lançam no Recife seis CDs autorais produzidos pelo rabequeiro Siba Veloso com patrocínio da Petrobras

MARCOS TOLEDO

   Há uns 15 anos, o músico Sérgio Veloso, mais conhecido como Siba, iniciou sua incursão na Mata Norte de Pernambuco para vivenciar de perto as manifestações culturais da tradição local, fonte rica de maracatu, coco e ciranda. Dessa experiência, surgiu inicialmente o grupo recifense Mestre Ambrósio, um dos mais criativos da recente cena pop do Estado, que fazia releituras da música tradicional nordestina. Em 2002, Siba foi mais além, e desenvolveu um trabalho autoral (e completamente original) acompanhado apenas de músicos daquela região. Em Fuloresta do samba há a reverência ao passado, mas a preocupação latente de preparar os herdeiros da tradição para o futuro.

   As mesmas preocupações fundamentadas no Fuloresta, estão de volta agora em um novo projeto no qual Siba atua apenas como produtor musical. A coletânea em seis discos Poetas da Mata Norte apresenta oito artistas daquela região, de coco-de-roda (Zé de Teté) e coco-de-embolada (Antônio Caju & Caetano da Ingazeira), de ciranda (José Galdino e João Limoeiro), e de maracatu (João Paulo & Barachinha e Antônio Roberto), que mostram eles mesmos seus trabalhos autorais. A coleção tem o lançamento oficial hoje e amanhã, a partir das 21h, na Praça do Arsenal (Bairro do Recife). O acesso é gratuito.

   Engana-se, contudo, quem pensa se tratar de mera repetição de manifestações curtidas há décadas por seus cantadores. O repertório é todo de músicas novas, e representa a busca de novos rumos para a arte produzida na Mata Norte.

   Guardadas as devidas proporções e salvos os respectivos contextos, o trabalho de Siba com os artistas da Mata Norte tem referência histórica com o que foi feito por jovens músicos dos anos 60 – os britânicos, em relação aos bluesmen norte-americanos, e os cariocas, em relação à velha guarda do samba e do choro. Explica-se: naquela época, o interesse de músicos como Eric Clapton e até os Rolling Stones por antigos bluesmen como Robert Johnson provocou, a princípio, uma onda de releituras de standards do gênero, despertando entre músicos, aficionados e até gravadoras igual interesse pelos veteranos em atividade, a exemplo de B.B. King, Muddy Waters e Howlin’ Wolf, que tiveram a chance de renovar e dar novos direcionamentos a seus próprios trabalhos – alguns, como o próprio B.B. King, têm seu talento até hoje reconhecido e não param de produzir.

   O mesmo ocorreu no Brasil, quando Paulinho da Viola, Elton Medeiros e seus companheiros do conjunto A Voz do Morro, entre outros, voltaram-se para o samba de raiz, provocando o respeito por sambistas já tidos como esquecidos, como Cartola, que, na década seguinte, voltaram a gravar e mostrar seus novos trabalhos.

   Passadas quatro décadas, em Pernambuco, Siba teve igual sensibilidade para perceber a importância dos músicos menos afortunados de seu Estado e desenvolveu um projeto a fim de colocá-los na vitrine local, como ponto de partida para uma divulgação mais ampla. “Há essa necessidade do pessoal de divulgar e ganhar o respeito local. São artistas que estão no auge de suas carreiras e, mesmo assim, ainda não têm o devido reconhecimento”, justifica. O produtor é mais incisivo e afirma que há um certo preconceito de achar que a cultura popular é rude e inferior. “Isso acaba gerando menos espaço e menos cachê para os artistas”, exemplifica.

   SELEÇÃO – Poetas da Mata Norte pouco tem a ver com o projeto Fuloresta do samba, de Siba – que, aliás, lança o segundo volume até o fim deste ano. “São apenas trabalhos que vêm do mesmo lugar, de pessoas que gostam de diversão, música e brincadeira”, compara o produtor. Dos oito artistas, o único que participou do Fuloresta foi o mestre de maracatu Barachinha.

   Para efetuar a seleção de quais mestres participariam da coletânea, Siba lançou mão de sua própria convivência junto aos artistas e conta que escolheu os melhores em cada ritmo. “Mas não que sejam todos os bons”, salienta. “Em maracatu tem muita gente boa e na ativa. Foi difícil escolher.” De coco e ciranda, segundo ele, foi mais fácil, pois seus representantes são as principais referências em seus respectivos gêneros, na região.

   No mapa, há representantes de vários municípios da Mata Norte pernambucana. De Buenos Aires, está José Galdino, que é repentista, mestre de maracatu e cirandeiro, de Carpina, o também cirandeiro e mestre de maracatu João Limoeiro, e de Limoeiro, o coquista Zé de Teté.

   Representando Aliança, há os emboladores Caetano da Ingazeira e Antônio Caju – que também é repentista e mestre de maracatu, e, de Nazaré da Mata, estão a dupla de maracatuzeiros João Paulo & Barachinha e o repentista Antônio Roberto, que faz sua estréia em disco.

   Vários dos poetas já haviam gravado seus próprios CDs de forma independente, mas penam com a dificuldade de divulgação. “Esse é um projeto mais profissional e com segurança”, compara João Limoeiro. José Galdino, por exemplo, com 29 anos de carreira – 21 dedicados ao maracatu e 14 à ciranda – e três discos gravados (três de viola e um de maracatu) conta que recentemente foi apresentar seu trabalho de ciranda em Vitória de Santo Antão e a produção do vento quis saber de sua viola. “Eles não conheciam ciranda”, diz o artista, espantado. Para José Galdino, muitos poetas morreram à míngua por falta de divulgação.

(© JC Online)


Compositores defendem seus direitos

Poetas da Mata Norte querem acabar com a idéia corrente de que cultura popular é de domínio público e sem autoria reconhecida

   Com a coletânea Poetas da Mata Norte, o músico e produtor Siba e todos os participantes do projeto esperam mudar toda uma cultura para eles nociva que existe em relação á cultura popular. Em primeiro lugar, a de tudo que faz parte deste universo é de domínio público. “Todo o material é autoral, não existe domínio público”, diz Siba. “Nossa maior preocupação é a de ser autor.”

   O projeto, patrocinado pela Petrobras por meio da Lei Rouanet, foi inteiramente concebido após várias discussões do produtor com os artistas envolvidos. Cada poeta fez uma seleção de seu material colocando sempre alguns temas inéditos.

   No caso dos maracatus – que fazem a estréia dos mestres em formato solo –, só há versos feitos exclusivamente para os CDs de Antônio Roberto e João Paulo & Barachinha. “O público rejeita se não for inédito”, explica Siba. Gravados no estúdio Fábrica, de dezembro de 2004 a março deste ano, todos os álbuns possuem uma faixa multimídia que mostram os bastidores do processo de registros das músicas.

   Outro objetivo dos realizadores com essa coletânea é a de chamar mais atenção para a região e sua diversidade cultural. “Esse projeto colabora para isso”, afirma Siba. “Não só para a Mata Norte ir para o mundo como o mundo chegar lá.” Já para Barachinha, o valor vai além do material, do registro, haja visto que artistas de vários municípios passaram a ter mais contato uns com os outros em função do projeto. “É muito bom para todos nós. É uma forma de nos unir”, analisa.

   Os álbuns, que saem com uma tiragem inicial de mil exemplares cada um, tem 30% deste montante destinados à comercialização. Uma parte do restante é destinada a instituições ligadas à música. A proposta também prevê que os direitos dos fonogramas ficam a cargo dos próprios autores. Isso significa que cada artista poderá prensar a quantidade de CDs que quiser, de forma independente ou por contrato com alguma gravadora.

   O SHOW – Para apresentar o resultado do trabalho ao público, hoje e amanhã, no Recife, os artistas foram divididos em dois grupos. Nesta sexta-feira, sobem ao palco da Praça do Arsenal João Paulo & Barachinha, Antônio Caju & Caetano da Ingazeira e João Limoeiro, no sábado, é a vez de José Galdino, Zé de Teté e Antônio Roberto. Várias caravanas vêm da Mata Norte para conferir o evento. Os CDs estarão à venda no local por R$ 10. Na região dos realizadores serão escolhidos quatro municípios para um lançamento posterior. (M.T.)

(© JC Online)

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