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Cordel poliglota

Maria Alice Amorim/ Divulgação

J. Borges ensinará os franceses a fazer cordel. À esquerda, os livretos e, à direita, chapa para a gravação

Exposição em Marselha celebra a ponte entre as narrativas ilustradas do Nordeste e as da França medieval

Bianca Tinoco

   A data foi escolhida por motivos de agenda, explica a produtora Andrea Lago, mas não poderia ser mais sugestiva: em pleno Dia da Independência do Brasil, será aberta em Marselha, na Bibliothèque Alcazar, a exposição O universo da literatura de cordel, dentro das comemorações do Ano do Brasil na França. Até janeiro, mais de 250 folhetos de cordel – assim chamados porque são vendidos em varais nas feiras do Nordeste – serão exibidos na cidade, seguindo depois para Toulon e Paris. O mais curioso na mostra não é a autenticidade da cultura brasileira e sim o viés antropológico que perpassa a sua montagem: tradição nordestina por excelência, o cordel, quem diria, tem um pé na Europa. Mais especificamente, na littérature de colportage, que se desenvolveu da Idade Média até o século 16 em aldeias de França, Portugal, Espanha e Holanda.

   – A influência maior é das publicações portuguesas, mas sem dúvida fomos influenciados também por escritos franceses e holandeses, sobretudo em Pernambuco – diz o pernambucano José Francisco Borges, ou apenas J. Borges, considerado o gravador de cordel mais famoso nos EUA e na Europa.

   – A narrativa das aventuras de Carlos Magno se solidificou no Nordeste. Provavelmente elas originaram as figuras heróicas do vaqueiro, de cangaceiros como Lampião e de defensores da fé como Padre Cícero – identifica Andrea Lago, produtora da Vide o Verso, empresa responsável pela exposição.

   Grande parte das descobertas de uma linhagem européia do cordel é atribuída ao brasilianista Raymond Cantel (1914-1986), que visitou o país entre os anos de 50 e 70. Por meio de entrevistas feitas com cordelistas e gravadores, Cantel fez com que os próprios brasileiros valorizassem mais a literatura popular. O pesquisador é um dos homenageados da mostra que será aberta hoje, com curadoria do folclorista Roberto Benjamin e de Ria Lemaire, diretora do Fonds Raymond Cantel. J. Borges só chega a Marselha na segunda-feira.

   A exposição combina o acervo dos dois: à coleção de cordéis históricos de Cantel serão acrescidos mais de 100 folhetos e matrizes de Borges, em meio a uma cenografia inspirada no traço do gravador. Uma série de oficinas concilia o conhecimento dos homenageados, a começar por um estudo da linguagem do cordel ministrado pelo poeta Pascal Poyet. Pelo menos 30 pessoas em Marselha aprenderão a traduzir um cordel, seguindo os passos de Cantel. Depois, terão aula de xilogravura com J. Borges e farão uma capa original para a versão francesa do folheto.

   – O cordel, que antigamente ensinava aos analfabetos, agora ensina aos letrados. Até meados do século 20, ele acumulou as atribuições de divertir, informar e ensinar, mas entrou em crise nos anos 70 e 80 com o advento do jornalismo pela televisão, do cinema e do videocassete. Graças a pesquisas como a de Cantel, o cordel agora é assunto para universidades e escritores – explica J. Borges.

   Como exemplo, ele cita o dramaturgo Ariano Suassuna (de O auto da Compadecida). Os dois têm encontros freqüentes em Recife ou no ateliê de Borges, em Bezerros (PE).

   – Certa vez ele disse que conversar comigo é uma aula. Eu tomei como piada. Então ele falou: “Eu estudei tanto e não aprendi a linguagem rica que vocês têm. É do cordel que tiro minhas grandes peças” – conta o artista.

   Foi Suassuna o primeiro a reconhecer em J. Borges o maior xilogravador em atividade no Nordeste. Em reportagem do New York Times, Borges chegou a ser comparado a Pablo Picasso.

   – Quero que meu nome fique imortal, é meu sonho – revela o artista, que já expôs na França, Itália, Suíça e nos Estados Unidos. Gosto quando as pessoas me citam, gosto de ser chamado de mestre. É bom saber que a tradição é passada adiante – conta ele, que pretende ensinar seu ofício em outubro em Niterói, durante encontro na Universidade Federal Fluminense (UFF).  

(© JB Online)


O filho do cordelista-repórter

   O cordelista e gravador J. Borges não poderá ministrar a oficina de xilogravura em Toulon, na época da montagem da exposição O universo da literatura de cordel na cidade, mas foi encontrado um substituto à sua altura, pelo menos na herança genética. Filho do cordelista José Soares (1914-1981), o pernambucano Marcelo Soares é célebre no Nordeste por se anteceder aos jornais e informar a população em verso. Conhecido como o Poeta-Repórter, José Soares chegou a ser entrevistado pelo francês Raymond Cantel nos anos 70. O filho, que conheceu o pesquisador quando criança, é o autor do folheto O cordel homenageia o professor Raymond Cantel, que será entregue na saída da exposição.

   - Lembro quando Cantel conversou com meu pai no meio de uma feira, em Recife. Ele chegou, se apresentou, era um homem muito polido e interessado, com um daqueles gravadores enormes da época. Tempos depois, já em São Paulo, eu o encontrei em 1977, quando vendia meus cordéis, e tiramos uma foto. Deve estar na fundação dele em Poitiers, que quero conhecer - conta.

   Filho da terceira família de José Soares e com mais de 10 irmãos, Marcelo tomou para si a responsabilidade de propagar o ofício do cordel. Hoje é um dos gravadores mais ocupados do país, autor de títulos como O encontro da velha debaixo da cama com a perna cabeluda. Para divulgar sua obra e a do pai, criou a editora Folhetaria Cordel, com mais de 70 títulos. Seu principal bem, ele destaca, é o traço, mais arredondado que o de J. Borges.

   - Nossos traços são diferentes. O traço é a assinatura do artista. Ainda estou definindo o meu. É o trabalho de uma vida inteira - diz.

(© JB Online)


Identidade brasileira

Mostras de Manuel Eudócio e da Família Graciano resumem o que é arte popular

Elvira Vigna
www.vigna.com.br

   Falar de ''arte popular'' é um grande problema. Exige, a princípio, definir ''arte'' e definir ''popular'', e um Caderno B inteiro, de ponta a ponta, não daria conta do recado. São duas exposições, uma de Manuel Eudócio, no Museu do Folclore, no Catete; e outra da Família Graciano, na Pé de Boi, em Laranjeiras. Mas as linhas de atuação de ambas as mostras são tão emboladas que é um custo separar a identidade de cada um. Já a nossa, a brasileira, fica mais fácil depois de vê-los.

   Muito a grosso modo, pode-se dizer que há a arte popular de repetição e perpetuação e a de criação.

   Se repetição e arte, quando perto uma da outra, levantam logo a suspeição de comércio, dinheiro e outras coisas vis, isso já não acontece quando o adjetivo ''popular'' também está por perto. A arte popular tem esta função de preservação de uma cultura regional. É bom que repita. Significa que resiste. Neste aspecto, Manuel Eudócio é mais de repetição. A Família Graciano é mais de criação.

   Gostei mais da Família Graciano. E aqui vou me dividir em duas outra vez. É que tem a parte da forma, da escultura, e tem a pintura. Da tinta não usada como um enfeite, um acabamento. Em Juazeiro, onde mora a Família Graciano, não existe tela. Os bonecos e cenas, então, podem ser esculturas pintadas mas também podem ser pinturas em 3D. No Frango, de Cícero, um dos dois filhos do patriarca Manuel Graciano, isso fica bem claro. É uma pincelada solta, que compõe uma superfície com um tempo não estático, mas vibrante. Diferente da padronagem ''caprichada'' de um ''bom acabamento''.

   As formas na Família Graciano variam um pouco, embora mantenham um mesmo pathos. São oblongas, sempre, e também não estáticas, mas em um movimento e em um desequilíbrio constante. As de Manuel são mais limpas, as do neto Edinaldo menos. Riem-se todos - bichos e bonecos - de um riso nervoso, de agressividade disfarçada.

   Manuel Eudócio vai mais para a narrativa. Enquanto a Família Graciano conta a história de uma dureza, de uma força de resistência contra terrores, e não necessariamente episódios e fábulas, Manuel Eudócio vai para o que todo mundo conhece: o pau-de-arara, o casamento, a festa religiosa. Em um texto do catálogo, ele conta como começou: ''Tentei fazer e fiz. Vendi cinco bonecos na feira e achei que o negócio era bom. Ia dar resultado''. As pessoas compram aquilo em que se reconhecem.

   Há mais uma diferença, que talvez explique as outras. A Família Graciano trabalha com troncos de madeira, que vai limpando até chegar onde quer. Ou seja, é uma arte de subtração. Manuel Eudócio trabalha com o barro massapé do Rio Ipojuca, do Alto do Moura (Pernambuco). É uma arte de acréscimo.

   Quando a gente começa a trabalhar no que gosta é difícil parar. A arte de subtração ficará sempre mais limpa, mais adequada a um gosto urbano contemporâneo, do que a de acréscimo. A de acréscimo documenta sempre mais o seu referente.

   Mas entre explicitar novos terrores, repetir velhos confortos, limpar o que precisa, acrescentar o que se tem vontade - pintando, esculpindo e mais o que der - vamos indo bastante bem, obrigado.

Galeria Pé de Boi - Rua Ipiranga, 55 Laranjeiras. 2ª a 6ª, das 9h às 20h; e sáb., das 9h às 13h.

Museu do Folclore - Rua do Catete, 179, Catete. 3ª a 6ª, das 11h às 18h; sáb. e dom., das 15h às 18h.

(© JB Online)


Indo além do folclore, artesãos levam mundo fantástico para a arte popular

Suzana Velasco

   Há 20 anos, Lampião e Maria Bonita criados pelo artesão Manuel Graciano saíam pela primeira vez de Juazeiro do Norte, no Ceará, rumo ao Museu do Pontal, no Rio, onde estão até hoje. A responsável pelo negócio foi Ana Maria Chindler, que, em suas andanças em busca de arte popular, conheceu a família Graciano. Na mesma época, ela abriu a galeria Pé de Boi, que a partir de hoje comemora suas duas décadas com a exposição “O imaginário fantástico da família Graciano”.

   São 97 peças à mostra, não só de Manuel, hoje com 79 anos, como dos filhos, Francisco e Cícero, e do neto Edinaldo. Presépios e músicos do interior, clássicas imagens do folclore, estão ali. Mas o que mais chama a atenção nos trabalhos são as figuras estranhas, fantásticas. Cachorros que se abraçam, um homem cujo corpo tem a forma de um parafuso, rostos que saem da boca de um lagarto. Peixes, gatos, pássaros, jacarés e animais não identificáveis, torcidos e retorcidos.

   — As obras são impactantes, não é uma exposição de peças bonitinhas — diz Ana Maria, que comprou os trabalhos da Associação de Artesãos de Juazeiro do Norte, além da produção da família nos últimos cinco meses. — Existe muita repetição na arte popular, mas há artesãos criativos e cujos temas acabam sendo internacionais — diz ela, contando que suas peças já foram expostas em Paris e estão ainda no Museu de São Diego, no Museu do Folclore do Rio, e no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Humor em trabalhos cuja autoria pode se confundir

   Com essas figuras fantásticas, os trabalhos acabam tendo toques de humor, e o olhar descobre novos detalhes a cada mirada. Ajudando o espectador, espelhos revelam a parte de trás de algumas figuras que, na realidade, não têm frente nem costas. Mesmo Lampião e Maria Bonita, que continuam como tema recorrente, aparecem de forma inusitada. Num trabalho de Cícero, eles estão colados, um de costas para o outro, e se fundem como em outras obras da família. Uma figura não habitual do casal, herança do patriarca.

   Seu Manuel, como é chamado, tem características fortes como o traço pontilhado e, nas criações mais recentes, a pintura a óleo. Mas a galeria acentuou uma autoria de família, e as peças não foram separadas por artesão, mas por tema. Não só para não dar destaque maior a um ou a outro, mas porque, segundo Ana Maria, pode haver uma certa mistura de autoria entre pai, filhos e neto.

   — O Manuel, assim como o Mestre Vitalino, às vezes pegava as peças do filho e vendia em sua banca. Eles fazem isso na família quando estão devendo dinheiro um para o outro — conta ela, habituada a circular entre os artistas populares do interior. — É bem possível que o pai comece a esculpir uma peça para que o filho complete o trabalho. Isso é muito comum em famílias de artesãos.

(© O Globo)

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