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Paixão sem limites

Nelson Rodrigues

Mineiros adaptam peça mais curta de Nelson Rodrigues

Rachel Almeida

   Mesmo em seus momentos mais sucintos, Nelson Rodrigues conseguia ser impactante, como comprova A serpente (1978), última e também mais curta peça escrita pelo dramaturgo, morto há 25 anos. E foi justamente a tensão constante presente nos 60 minutos da trágica história de Ligia e Guida que motivou a diretora Yara de Novaes a mergulhar, pela segunda vez, em uma obra do autor.

   - A peça tem um único ato, cheio de cortes abruptos, mas que pode ser comparado aos terceiros atos de outras peças de Nelson, tamanha a força da situação - comenta a diretora mineira radicada em São Paulo que, em 1997, levou à cena Senhora dos Afogados, tragédia em três atos escrita pelo autor em 1947.

   Em A serpente, que estréia hoje na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, a virgem Lidia acaba de se separar do marido impotente e está prestes a se suicidar quando ganha da irmã Guida uma noite de sexo com seu companheiro, Paulo. A consumação do ato provoca uma revolução na família, com situações marcadamente rodriguinas, como adultério, ciúmes e desconfianças.

   Montada pela primeira vez em 1980 com elenco que reunia Carlos Gregório, Xuxa Lopes, Sura Berditchevisky e Cláudio Marzo, A serpente aprofunda um tema presente em outras obras do dramaturgo. A história de duas irmãs ligadas ao mesmo homem foi, em maior ou menor proporção, abordada em outras peças suas, como Vestido de noiva, O beijo no asfalto e Os sete gatinhos.

   Para viver as sofridas irmãs nessa remontagem foram convocadas as atrizes e amigas Débora Falabella (Guida) e Mônica Ribeiro (Ligia), que dividem a cena com Augusto Madeira (Décio), Alexandre Cioletti (Paulo) e Cyda Morenyx (crioula), formando um elenco genuinamente mineiro, à exceção de Augusto Madeira.

   - Minha personagem ama a irmã, mas acaba transformada pelo ciúme. Nos ensaios fizemos uma série de improvisações e conversamos sobre os assuntos discutidos no texto. Como a peça é quase um terceiro ato, tentávamos imaginar o que teria acontecido antes com aqueles personagens - descreve Débora, que já trabalhou com Yara, em 2003 e 2004, na montagem de Noites brancas, espetáculo inspirado no conto homônimo do russo Dostoiévski.

   Outros integrantes da equipe de Noites brancas também estão de volta em A serpente, como a própria Mônica Ribeiro que, no espetáculo anterior, fazia o trabalho de preparação corporal dos atores e, agora, vive a perturbada Ligia.

   - É um desafio prazeroso para um ator viver um personagem de Nelson Rodrigues. A Ligia começa a história muito infeliz até que ela enxerga a possibilidade de mudança radical. A partir daí, vive uma felicidade cheia de culpa por ter se apaixonado pelo marido da irmã - analisa Mônica, acrescentando que deu à personagem a intensidade de uma paixão rodriguiana.

(© JB Online)

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