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O cearense Efrain Almeida exibe novas criaturas em mostra no Rio Cleusa Maria Já foram ex-votos, cordeiros, beija-flores de bicos enfiados nas paredes e tantos outros seres esculpidos na madeira a estilete, desde que o cearense radicado no Rio Efrain Almeida começou a trabalhar com esculturas figurativas em 1995. Nesta terceira exposição individual, que inaugura hoje, na Galeria Anna Maria Niemeyer, o artista apresenta nove trabalhos feitos especialmente para a mostra. São esculturas de quatro cachorros, da série Lázaro, de um galho de árvore, sustentando filhotes em um ninho, além de borboletas em pleno vôo sobre lâmina de cedro. O título da exposição: Éden. - O nome me veio à mente a partir da temporada recente que passei na casa dos meus pais em Boa Viagem, minha terra natal, no sertão central do Ceará. De certa forma, é o meu Éden. O meu paraíso está lá . Todos os trabalhos desta exposição foram iniciados nesse ambiente e seus motivos povoam minha memória desde a infância - conta o artista de 41 anos. As pequenas esculturas figurativas, que vêm marcando a trajetória do conceituado artista contemporâneo, têm estreita relação com o cotidiano de Efrain. Daquela região extremamente árida e sofrida, ao mesmo tempo, bela e melancólica vêm tanto as referências, quanto a matéria - sempre o cedro ou umburana, a mesma madeira que os artesãos usam para esculpir suas figuras religiosas. - Na verdade, meu pai Lot é meio parceiro do meu trabalho. Ele é carpinteiro e tem uma oficina de marcenaria. As peças são iniciadas lá e finalizadas aqui. Quando não vou ao sertão, mando os desenhos dos cortes e ele corta a madeira para mim - explica Efrain, que este ano já esteve quatro vezes no sertão. A casa dos pais é uma construção típica do sertão. Cômodos compridos, alpendre. Ali, o artista tem a sensação de que a natureza invade a casa. Volta e meia um lagarto, um pássaro, cobras, cachorros circulam entre os moradores. - A idéia dos trabalhos não é simplesmente a representação. As pessoas, normalmente, olham para o lado afetivo desses animais. Mas há também a perversão. Os cães que compõem a série Lázaro, por exemplo, estão com a língua para fora, lambendo as paredes como se fossem feridas. Esses trabalhos foram pensados a partir da imagem de São Lázaro que adquiri numa loja de artigos religiosos no centro de Fortaleza - diz. - A imagem apresenta um ancião com o corpo repleto de chagas e rodeado por cães que lambem suas feridas. Desde criança ouço histórias a respeito do poder curativo da saliva dos cães. A peça Ninho, minuciosamente esculpida, consiste em dois galhos que emergem da parede e sustentam um ninho contendo filhotes de pássaros: - Ao desenvolver essa peça estou interessado nas idéias de aconchego, fragilidade e abandono. As quatro obras que mostram borboletas em vôo foram as únicas realizadas em laminado de cedro. São uma espécie de machetaria, nas quais o sentido dos veios da madeira é o que cria as imagens como pinturas. - Devido ao fato de os trabalhos serem feitos do mesmo material, tanto o fundo quanto a figura se fundem. Dei a esses trabalhos o título Mimetismo, pensando na capacidade mimética das borboletas. As azuis, por exemplo, que se misturam com o céu ou aquelas que se fundem com troncos de árvores. De alguma maneira, os trabalhos da mostra Éden trazem a atmosfera do ambiente onde o artista viveu a infância. - É nostálgica e poética e, ao mesmo tempo, árida e perversa como a fome e a miséria - constata. Com 26 mostras individuais e ''incontáveis'' participações em coletivas, no Brasil e no exterior, e com obras em importantes acervos de museus e coleções particulares, Efrain Almeida é dono de respeitado currículo nas artes contemporâneas brasileiras. Em sua mais recente exibição no exterior, na James Harris Gallery, em Seattle, nos Estados Unidos, recebeu críticas elogiosas no Seattle Times. - O engraçado é que no Brasil todos falam das referências da arte popular em meu trabalho. Mas a crítica de lá viu de outra maneira, como um artista pop. Fui colocado ao lado de Louise Bourgeois e Jeff Koons (dois festejados artistas contemporâneos internacionais de gerações diferentes). - Na crítica do Seattle Times lembraram que os trabalhos de arte, hoje em dia, têm dimensões espetaculares. E que os meus exigem um outro tempo para serem percebidos - reproduz ele. Efrain observa também que alguns críticos brasileiros lêem a figuração apenas pela superfície. Como se os trabalhos de arte não pudessem ter várias camadas de leitura. E completa: - O nome disso é preconceito. Acho importante a diversidade. Tem-se de entender a contemporaneidade como um mundo de diversidade e não a partir de uma idéia de que um tipo de trabalho possa excluir um outro. |
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