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Sai em CD antologia de Manuel Bandeira na voz do próprio poeta

O poeta Manuel Bandeira

Suzana Velasco

   Mesmo com mais de 35 anos de viagens, mudanças de clima e poeira, a voz do poeta Manuel Bandeira ficou intacta. Registrada numa fita usada num gravador de rolo, desses que hoje só se encontram entre antigüidades, ela foi guardada pelo amigo Lauro Moreira no seu vai-e-vem de embaixador pelo exterior. Há dois anos, quando participava de um programa de rádio no Marrocos, Moreira consultou um técnico de som. Para sua surpresa, a voz de Bandeira aos 81 anos estava lá, recitando, no apartamento do embaixador em Botafogo, 27 poemas.

   — Num primeiro momento, vozes se misturaram e achei que não se podia ouvir mais nada. Mas lembrei que a fita estava gravada em mono e pedi para separar as trilhas. De repente ouvi a voz do Bandeira absolutamente clara. Fiquei maravilhado — contou Moreira, por telefone, de Bonn, na Alemanha.

Gravação foi feita em 67 na casa do embaixador

   O técnico registrou a gravação num CD e, quando voltou ao Brasil, o embaixador levou a cabo um projeto pessoal de pôr as poesias faladas à disposição do público. Ele lança hoje, às 19h, na Academia Brasileira de Letras (ABL), o CD “Manuel Bandeira: o poeta em Botafogo”. O disco ainda tem outros 24 poemas recitados por Moreira e, entre eles, oito composições curtas de Camargo Guarnieri — que musicou versos de Bandeira como “Irene no céu” — gravadas pela pianista Belkiss Carneiro de Mendonça. O CD terá uma tiragem de três mil exemplares, que serão distribuídos para instituições.

   A gravação de Bandeira foi feita informalmente. Numa visita à casa do amigo, em 1967, o poeta olhou para o gravador e lhe pediu, como numa brincadeira, para que registrasse sua voz. Abriu um livro e foi escolhendo poemas como “Louvação do Rio de Janeiro”, “O silêncio”, “Porquinho da Índia”, “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Os nomes”, “Neologismo”, “Noite morta”.

   — Ele acabou fazendo uma antologia de sua obra ali mesmo. Meses depois fui para Buenos Aires e em outubro de 68 ele morreu — conta o embaixador.

(© O Globo)


Livro: O mundo da poesia

Obra reunida de Antonio Brasileiro mostra um poeta visceral e eruptivo

André Seffrin

   Criador, em 1967, das Edições Cordel, que deram origem às revistas Cordel (prosa), Serial e Hera (poesia), um dos líderes do Grupo Hera, poeta, pintor, professor universitário e incentivador das artes na Bahia, Antonio Brasileiro enfim publica seus Poemas reunidos (Fundação Cultural do Estado da Bahia/ funceb@funceb.ba.gov.br). Poeta visceral e eruptivo, protéico e cosmogônico, ele sabe como poucos que a criação demanda bem mais que trabalho, tempo e entrega, e que é, no limite, insondável.

   Sua teoria poética, por assim dizer, não se faz presente apenas nos seus poemas. Ela está no conjunto da obra, na ficção e nos ensaios críticos ou biográficos que dedicou a outros artistas, conforme ele próprio apontou a respeito de Baudelaire. Está na sua vida, nas suas indagações cotidianas, no romance Caronte (1995), nos contos-poemas de A fábula de Quíron (1998), nos belíssimos textos reunidos em A estética da sinceridade e outros ensaios (2000) ou em Da inutilidade da poesia (2002). A poesia está em tudo que a sua inteligência percorre.

   Como o Jorge de Lima de A mulher obscura, ele fez o seu romance ''mítico'', Caronte, narrativa alegórica que caminha ''sobre o estreito fio/ que limita o que é prosa do que é poesia''. Caronte é mito fixado à realidade do poeta, nessa procura do sentido ou do sem-sentido da vida e, para quem o sente, da arte, uma vez que os livros, apesar de dizerem tudo ou quase tudo, só ensinam a quem sabe. Sua fixação por Caronte é obsessiva: ''Na esquina da vida,/ optarmos ou não optarmos/ não faz nenhum sentido.// Há um só rio e um só barco''. De modo que ''os mitos persistirão./ Nós, não.// (Ser poeta é ser um pouco/ esta ilusão)''. Assim, sob os véus da alegoria ou em face da cambiante realidade, o poeta está em seu elemento ao observar que ''o mundo é o que jaz cá dentro/ intraduzível. Os/ amplos significados não são acessíveis'', e ao demarcar o terreno sinuoso de sua arte poética: ''A poesia não explica;/ não é dor, não é mágoa.// É o que não se apalma/ nem se divisa.// O que nos dói se eterniza/ e não é nada''.

   Poesia não-oratória, crivada mais de perguntas que de respostas (''sou um ponto de interrogação/ sonhando com astros''), nervosa, crispada e, à Valéry, extremamente apurada. Mundo de evocações literárias no qual cabem o desespero de Ismália, de Alphonsus de Guimaraens (''Devo escrever um poema/ ou me jogar/ da torre, como Ismália?''), possíveis ecos da primeira hora modernista (''O estilo é uma falsa fera:/ enjaulada, mantém-se tranqüila./ O domador também é um falso homem/ e o público finge acreditar que é tudo sério''.), fragmentação do discurso e, eventualmente, símbolos gráficos. Cabem a insistência do poeta (''Todos os líricos todos os líricos/ venham a mim'') e retomadas de Bandeira, Drummond, Quintana. Estes, como presenças assimiladas, consentidas, na medida em que o poeta do mundo presente que se chama Antonio Brasileiro fatalmente andará, como toda a sua linhagem, espelhado nos quadrantes da poesia de todos os tempos.

   Afinal, os grandes poetas vivem amistosamente. A esse respeito, em Logomaquia, um alerta: ''Não há novo em poesia/ há vozes roucas,/ memórias.// E passado não há/ passado: há lápides.// Falhas, remorsos, mantos/ há bastante mentira/ no canto''. Experiência misteriosa que manipula matéria evanescente, a poesia é, para Antonio Brasileiro, uma lição de liberdade.  

(© JB Online)

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