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Suzana Velasco
Mesmo com mais de 35 anos de viagens,
mudanças de clima e poeira, a voz do poeta Manuel Bandeira ficou intacta.
Registrada numa fita usada num gravador de rolo, desses que hoje só se
encontram entre antigüidades, ela foi guardada pelo amigo Lauro Moreira no
seu vai-e-vem de embaixador pelo exterior. Há dois anos, quando participava
de um programa de rádio no Marrocos, Moreira consultou um técnico de som.
Para sua surpresa, a voz de Bandeira aos 81 anos estava lá, recitando, no
apartamento do embaixador em Botafogo, 27 poemas. Livro: O mundo da poesia Obra reunida de Antonio Brasileiro mostra um poeta visceral e eruptivo André Seffrin Criador, em 1967, das Edições Cordel, que deram origem às revistas Cordel (prosa), Serial e Hera (poesia), um dos líderes do Grupo Hera, poeta, pintor, professor universitário e incentivador das artes na Bahia, Antonio Brasileiro enfim publica seus Poemas reunidos (Fundação Cultural do Estado da Bahia/ funceb@funceb.ba.gov.br). Poeta visceral e eruptivo, protéico e cosmogônico, ele sabe como poucos que a criação demanda bem mais que trabalho, tempo e entrega, e que é, no limite, insondável. Sua teoria poética, por assim dizer, não se faz presente apenas nos seus poemas. Ela está no conjunto da obra, na ficção e nos ensaios críticos ou biográficos que dedicou a outros artistas, conforme ele próprio apontou a respeito de Baudelaire. Está na sua vida, nas suas indagações cotidianas, no romance Caronte (1995), nos contos-poemas de A fábula de Quíron (1998), nos belíssimos textos reunidos em A estética da sinceridade e outros ensaios (2000) ou em Da inutilidade da poesia (2002). A poesia está em tudo que a sua inteligência percorre. Como o Jorge de Lima de A mulher obscura, ele fez o seu romance ''mítico'', Caronte, narrativa alegórica que caminha ''sobre o estreito fio/ que limita o que é prosa do que é poesia''. Caronte é mito fixado à realidade do poeta, nessa procura do sentido ou do sem-sentido da vida e, para quem o sente, da arte, uma vez que os livros, apesar de dizerem tudo ou quase tudo, só ensinam a quem sabe. Sua fixação por Caronte é obsessiva: ''Na esquina da vida,/ optarmos ou não optarmos/ não faz nenhum sentido.// Há um só rio e um só barco''. De modo que ''os mitos persistirão./ Nós, não.// (Ser poeta é ser um pouco/ esta ilusão)''. Assim, sob os véus da alegoria ou em face da cambiante realidade, o poeta está em seu elemento ao observar que ''o mundo é o que jaz cá dentro/ intraduzível. Os/ amplos significados não são acessíveis'', e ao demarcar o terreno sinuoso de sua arte poética: ''A poesia não explica;/ não é dor, não é mágoa.// É o que não se apalma/ nem se divisa.// O que nos dói se eterniza/ e não é nada''. Poesia não-oratória, crivada mais de perguntas que de respostas (''sou um ponto de interrogação/ sonhando com astros''), nervosa, crispada e, à Valéry, extremamente apurada. Mundo de evocações literárias no qual cabem o desespero de Ismália, de Alphonsus de Guimaraens (''Devo escrever um poema/ ou me jogar/ da torre, como Ismália?''), possíveis ecos da primeira hora modernista (''O estilo é uma falsa fera:/ enjaulada, mantém-se tranqüila./ O domador também é um falso homem/ e o público finge acreditar que é tudo sério''.), fragmentação do discurso e, eventualmente, símbolos gráficos. Cabem a insistência do poeta (''Todos os líricos todos os líricos/ venham a mim'') e retomadas de Bandeira, Drummond, Quintana. Estes, como presenças assimiladas, consentidas, na medida em que o poeta do mundo presente que se chama Antonio Brasileiro fatalmente andará, como toda a sua linhagem, espelhado nos quadrantes da poesia de todos os tempos. Afinal, os grandes poetas vivem amistosamente. A esse respeito, em Logomaquia, um alerta: ''Não há novo em poesia/ há vozes roucas,/ memórias.// E passado não há/ passado: há lápides.// Falhas, remorsos, mantos/ há bastante mentira/ no canto''. Experiência misteriosa que manipula matéria evanescente, a poesia é, para Antonio Brasileiro, uma lição de liberdade. |
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