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Os cineastas Lírio
Ferreira e Murilo Salles |
Rodrigo Fonseca
O que seria um “bangue-bangue
existencial científico-musical”? Um faroeste estrelado por um caubói
leitor de Sartre que canta, dança e faz experiências químicas? Bom, a
definição precisa, Lírio Ferreira, criador desta exótica expressão, ainda
não encontrou. Só sabe que fez um, quando deu o corte final na montagem de
“Árido movie”. Hoje o cineasta pernambucano de 40 anos, aclamado há quase
uma década por “Baile perfumado”, de 1996 (co-dirigido por Paulo Caldas),
exibe seu aguardadíssimo longa na mostra (competitiva) Horizontes do 62
Festival de Veneza. Talvez a partir daí Ferreira decifre o que quer dizer
esse protótipo de gênero que cunhou costurando referências ao
spaghetti western dos anos 70, à videoarte e à chamada “música de
zona”, entre outros ritmos, de Márcio Greyck a Otto.
— Cinema é uma ciência. Por
isso eu passei a chamar assim um filme sobre falta d’água que estréia logo
numa cidade de gôndolas como Veneza. É um paradoxo. Aliás, o filme está
cheio deles, já que ao mesmo tempo que é muito brasileiro, nordestino,
poderia ser passado em outro lugar do mundo — sugere Ferreira, despertando
protestos do colega Murilo Salles, que franze a testa preocupado.
— Ô, Lírio. Não sei se eu concordo
muito contigo, não. Nunca vi um cara da tua geração com raízes mais
brasileiras do que você — questiona o diretor de “Nunca fomos tão
felizes”, que, aos 54 anos, ajudou Ferreira a parir “Árido movie”.
Considerado um dos maiores
fotógrafos do cinema nacional — tem “Dona Flor e seus dois maridos” (1976)
e “Eu te amo” (1981) no currículo — Salles topou produzir e fotografar
este “Era uma vez no Nordeste”. Após um jejum de duas décadas sem clicar,
ele assina a direção de fotografia da cruzada de vingança e
auto-descoberta de Jonas (Guilherme Weber). Apresentador do tempo de um
telejornal em São Paulo, Jonas embarca para o sertão, de volta ao vilarejo
onde nasceu, ao saber do assassinato de seu pai, Lázaro (Paulo César
Pereio), pelas mãos do índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcelos).
— Depois de 20 anos, eu não tenho
nada para provar como fotógrafo. Mas Lírio me apresentou um desafio quando
me convidou. Mostrar como um diretor poderia ajudar o outro — explica
Salles, com um entusiasmo quase juvenil, às vezes exagerado. — Esse filme
vai ser uma giletada na cara do Brasil, já que não dá concessões à
realidade do Nordeste. Tem uma postura mitológica e uma narrativa épica
que acho que eu não vejo desde “Deus e o diabo na terra do sol”.
— Menos, Murilo! Vamos deixar o
espectador dizer isso — retruca Ferreira, tentando manter a sobriedade
agora, para perder a linha em Veneza, diante da reação da platéia. —
Veneza sempre teve um interesse em novas tendências. E o que
apresentaremos lá é um olhar sobre a atualidade com uma fotografia perdida
no tempo, meio anos 70.
Índios, videoartistas e adoradores de H2O
Pouco depois de sua excursão
veneziana, Ferreira e Salles exibem “Árido movie” hors concours
na Première Brasil do Festival do Rio 2005 (cuja largada será dada no
próximo dia 22). E, desde já, é uma das principais promessas de salas de
exibição lotadas na maratona cinéfila carioca.
— Chamo “Árido movie” de
bangue-bangue porque há nele um pouco do Sergio Leone. E foi no Festival
do Rio do ano passado que eu vi “Era uma vez no Oeste”, a obra-prima dele,
em tela grande pela primeira vez — diz Ferreira, que no filme revisita um
pouco de suas memórias de menino, além de clássicos do cinema.
Além do épico proustiano de Leone,
Ferreira diz ter flertado com filmes que falem de água (ou da escassez
dela). Passeou por “Vidas secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos,
“Solaris” (1972), de Andrei Tarkovsky, e até “Chinatown” (1974), de Roman
Polanski, para retratar o Vale do Rocha, cenário para a revanche de Jonas.
— Sempre visitei o sertão
pernambucano com meu pai, desde menino. Mas nunca me acostumei com aquela
atmosfera. Acabava me sentindo um estrangeiro na minha própria terra.
Precisava fazer um filme para me reencontrar com os lugares por onde
passei. Um filme sobre falta d’água e excesso de informação — diz o
cineasta, explicando porque encheu o filme com alusões ao cinema e às
artes plásticas.
No roteiro escrito por Hilton
Lacerda, Eduardo Nunes, Sérgio Oliveira e Ferreira, o Vale do Rocha é uma
desolada e perigosa fatia da geografia nordestina. É para lá que o
apresentador do tempo vai acompanhado de três ex-colegas de faculdade,
Bob, Verinha e Falcão (vividos por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo
Falcão), que lá descobrirão o lucrativo negócio do finado pai de Jonas:
uma plantação de maconha. Fora isso, os personagens vão encontrar também
uma comunidade indígena recheada de tipos exóticos como o borracheiro Zé
Elétrico (José Dumont) e a femme fatale cabocla Wedja (Suyane
Moreira), pivô do assassinato de Lázaro. Há ainda uma videomaker
, Soldade (Giulia Gam), que prepara um documentário sobre a carência de
água e há uma seita religiosa comandada por um aspirante a Antonio
Conselheiro, Meu Velho (o polêmico diretor teatral José Celso Martinez
Corrêa), que prega a purificação da alma a partir de um belo banho de H2O
gelada.
— O filme do Lírio é o mergulho
existencial de um homem em suas raízes. O resto é resto, mas determina
diretamente tudo que esse cara vai fazer. Talvez por isso, “Árido movie”
seja uma experiência conceitual — define Salles, que filmará o livro
“Máquina de pinball”, de Clarah Averbruck.
Documentário sobre Cartola fica para 2006
Para deturpar todos os clichês na
denotação da aridez nordestina, ele não teve pudor de manipular os planos
que fotografou.
— A vida toda eu quis fazer um
filme no sertão. Sou filho de um mineiro com uma paraibana de João Pessoa.
O filme sobre Minas eu fiz há 25 anos, com “Cabaret mineiro”. Agora é a
vez do sertão, onde busquei uma fotografia seca, mas sem medo de trabalhar
minhas imagens. Aliás, todo o visual do filme é manipulado, do primeiro ao
último fotograma. “Árido movie” não poderia ser um filme normal. Ele tinha
que ser estranho, pois é um filme sobre a estranheza brasileira.
Descontraído, Ferreira sabe que a
expectativa da crítica sobre “Árido movie” é enorme. Até porque ela ajudou
a celebrizar “Baile perfumado” como um divisor de águas no cinema da
retomada. Vencedor do Candango de melhor filme no Festival de Brasília de
1996, o longa deve ser lançado em DVD em 2006, para comemorar seu
aniversário de uma década.
— Fora o valor que tem na minha
vida, “Baile” é um filme que tem vários significados para o cinema
brasileiro, principalmente o pernambucano, que, depois de 20 anos sem ter
um filme de longa-metragem, voltou à ativa. Seria ingênuo se achasse que
tudo o que eu fizesse depois dele não seria muito cobrado. Mas estou
relaxado. Cada filme é um filme — crê o cineasta, sem negar que algo mudou
de dez anos para cá. — Eu vejo em “Árido movie” um passo além em relação a
“Baile perfumado”, pois eu saí do luxuriante para a secura extrema. E tudo
porque o sentimento de inquietude se manteve em mim.
Data de estréia “Árido movie” não
tem. Mas mesmo batalhando por um lugar ao sol, Ferreira já tem um longa
novo recém-tirado do forno: “Cartola”, um documentário sobre Angenor de
Oliveira (1908-1980), que acaba de ser montado por Mair Tavares. Mas sobre
ele, Ferreira ainda segura a língua.
— Será apenas um “velho” filme
sobre um mestre — diz ele, mais curioso para saber se seu “bangue-bangue
existencial científico-musical” cola entre os italianos.
(©
O Globo) |