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Sem pressa de fazer e acontecer

O pernambucano de Caruaru Junio Barreto

O pernambucano Junio Barreto é a bola da vez na MPB

Omar Godoy

   Vira e mexe aparece um compositor que, de tanto batalhar nos bares da vida, acaba caindo nas graças dos medalhões da MPB. Foi assim com Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, Jorge Vercilo – só para citar exemplos recentes. Reveladas nas vozes de outros artistas, suas canções passam a ser disputadas a tapa e, graças ao empurrãozinho de padrinhos ilustres, impulsionam carreiras-solo de sucesso. Nesse cenário, a bola da vez é o pernambucano Junio Barreto, de 41 anos, radicado em São Paulo e um dos autores mais requisitados da atualidade.

   Cortejado por cantoras como Maria Bethânia, Gal Costa e Maria Rita, entre outras, Junio se destaca por conta de uma poesia econômica, inspirada no sertão e marcada por neologismos – Guimarães Rosa é influência confessa. Sua música mais conhecida, “Santana”, incluída no novo CD de Gal, dá uma amostra do estilo rústico do compositor nascido em Caruaru. “A Santa de Santana chorou sangue/ Era tinta vermelha/Era Deus e beleza/ Despego meu”, diz a letra.

   O curioso é que Junio não sabe tocar nenhum instrumento. Cria as melodias “na cabeça”, ficando para os músicos de sua banda a tarefa de desenvolver os arranjos. “Acabo me metendo em tudo. Mas fico meio constrangido em dar pitacos para os supermúsicos que tocam comigo”, revela o artista, citando, entre outros instrumentistas de renome, a percussionista Simone Soul (que também acompanha Zeca Baleiro). O pernambucano e seu conjunto de apoio acabam de encerrar uma bem-sucedida temporada de 25 semanas na casa de shows paulistana Graze a Dio!. Em agosto, setembro e outubro, apresentam-se em outro espaço nobre da cidade, o Blen Blen.

   Além de não conseguir identificar sequer um “dó” no violão, Junio leva até três meses para terminar uma letra. Preciosismo? Sim, mas também muita preguiça. Pressa é uma palavra inexistente em seu dicionário. “O (cineasta) Michelangelo Antonioni dizia: ‘Quando não sei, começo a olhar’”, cita, revelando seu gosto pela contemplação.

   De fala mansa e pausada, o artista revela um pouco de sua trajetória. Interessou-se por música ainda na infância, ouvindo estações de rádio do Brasil e do exterior por meio de antenas improvisadas. Na juventude, já vivendo em Recife, integrou a banda Uzzo, que, a exemplo de outras formações brasileiras dos anos 80, fazia rock gótico – ou dark, como era costume dizer. Estudou Física Nuclear e Computação (sem concluir nenhum dos cursos), foi sócio de uma produtora de comerciais, dono de um circo itinerante de MPB e participou, como observador, do movimento mangue-beat, na década de 90. “Conhecia e andava com tudo mundo. Chico Science, Fred Zero Quatro, Otto. Mas já compunha os sambas que faço hoje em dia”, afirma, desvinculando-se de uma estética musical mais voltada para o pop/rock.

   A mudança para São Paulo aconteceu em 1998, quando Otto gravou seu álbum de estréia. “Ele me convidou para vir para cá, pois queria colocar uma música minha no disco. Não deu certo, mas eu acabei ficando”, lembra. Ao longo de quase sete anos, o artista praticamente só compôs e fez contatos. Até que, no ano passado, conseguiu recursos (via lei de incentivo à cultura do estado de Pernambuco) para gravar o primeiro CD, auto-intitulado.

   Apesar da estréia em disco elogiada pela crítica e badalada no meio musical, Junio segue tranqüilo e modesto. Ao contrário de outros artistas que estouraram depois dos 40 anos, ele não vê sua ascensão como o “resultado de uma história de lutas”. “Nada disso. Agora é o início de tudo, o primeiro disco. Tenho que trabalhar muito ainda”, garante, sem a mínima pressa de fazer e acontecer.

(© Gazeta do Povo)

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