Notícias
Os benditos

Waly Salomão Jards Macalé

Disco com composições de Jards Macalé e Waly Salomão dá um novo sentido ao estigma de malditos adquirido nos anos 60

Nelson Gobbi

   O encontro entre o compositor Jards Macalé e o poeta Waly Salomão foi forjado na têmpera quente que marcou a passagem da década de 60 para 70. A ditadura recrudescia com a promulgação do AI-5, no final de 1968, tornando indefinidos os caminhos da Tropicália, com seus artífices Caetano Veloso e Gilberto Gil exilados em Londres, a partir de 1969. A incerteza desse período deu combustível às parcerias de Macalé e Waly, coquetéis molotov sonoros contra o monolito antidemocrático. O enfrentamento com as forças políticas da época aliado à radicalização estética deu à dupla o estigma de maldita, que persistiu mesmo após a volta da democracia.

   Durante os anos seguintes, a pecha que pairava sobre os amigos mudou seu significado; ora era uma chaga que a mídia volta e meia insistia em reabrir, ora os distinguia da mesmice cultural dos mercados fonográficos e literários.

   Para celebrar as três décadas de parceria e amizade – interrompida pela morte de Salomão aos 59 anos, em maio de 2003, causada por câncer no intestino – Jards Macalé lança hoje, no Circo Voador da Lapa, o álbum Real Grandeza, com 11 composições da dupla, incluindo a canção que dá título ao disco e mais duas faixas inéditas, Olho de lince e Berceuse crioulle (leia abaixo a crítica do CD). As participações especiais registradas no CD de artistas de diferentes gerações, como Maria Bethânia, Adriana Calcanhotto, Frejat, Luiz Melodia, a banda Vulgue Tolstoi e Kassin, Domênico e Pedro Sá, dão à obra da dupla a sua verdadeira dimensão, um bendito fruto da música brasileira.

   – O estigma de maldito virou maldição. Até hoje quando falam da gente colocam maldito entre aspas; apesar de achar que só o uso das aspas já é uma concessão maravilhosa. Na época, ser maldito era uma honra, estávamos em boa companhia, ao lado de Baudelaire, Hélio Oiticica. Depois que a democracia voltou e, inacreditavelmente, se instalou uma caretice absoluta, ser maldito virou sinônimo de exclusão. Hoje, o maldito já está voltando a ser incluído, é novamente uma condecoração aos que vão de encontro ao ramerrame musical – teoriza Macalé, que receberá amanhã no palco do Circo Luiz Melodia, Calcanhotto e o Vulgue Tolstoi.

   Para o filho de Waly, o também poeta Omar Salomão, as participações dos artistas que acompanham Macalé garantem o frescor das antigas composições da dupla.

   – A atemporalidade das canções é dada pela forma como são gravadas. A vitalidade do Macalé somou-se às participações especiais, deixando o disco atual – avalia Omar, que lançou recentemente seu primeiro livro de poesias, À deriva.

   Macalé lembra que foi quando sua obra passou a despertar o interesse de artistas mais novos que a pecha de maldito começou a tornar-se mais branda.

   – O primeiro sinal de que algo estava mudando foi quando os filhos dos meus amigos vieram me procurar para trabalhar com eles. O filho do Joaquim Pedro de Andrade [Antônio de Andrade], a filha do Glauber [Paloma Rocha], entre outros, me convidaram para compor para seus trabalhos. Como os vi todos ainda crianças, me senti como se tivesse crescido junto com eles – conta Macalé (leia nesta página a troca de perguntas entre Omar e Macalé).

Macalé pergunta a Omar:

– Vai entrar para o ramo da poesia de vez?

– Não sei, vou aos pouquinhos. Vou um pouco na poesia e um pouco por outros caminhos.

– O que espera?

– Não espero nada, já estou fazendo. Escrevo porque me deu vontade, não espero nada de volta.

– Vai ou não vai?

– Acho que já fui.

 

Omar pergunta a Macalé:

– Com quem refundaria a esquerda?

– Com os Irmãos Marx.

– Mensalão ou mensalinho?

– Nem mensalão nem mensalinho. O salário mensal digno já está de bom tamanho para o brasileiro.

– E se der na veneta?

– Aí eu vou. Mato, morro e volto para curtir.

(© JB Online)


Um show que vai dos urros aos sussurros

Tárik de Souza

   Foi quase um atalho dentro do tropicalismo. Integrantes das hostes do movimento com diferentes graus de afinidade com seu ideário, o carioca Jards Anet da Silva, o Macalé, e o baiano Waly Salomão, então, licença poética, Saylormoon (Marinheiro da lua), engataram a ''morbeza romântica''. Foi uma série de parcerias no começo dos 70, uma versão da era do desbunde para aquela transversal da alma - entre o pântano e a nódoa - tão bem filmada pela geração anterior, na velha Arriflex de Lupicínio Rodrigues. Ou nas trovas baudelarianas de Nelson Cavaquinho. Este punhado de canções viajandonas, de romântica morbidez, volta pra curtir, junto com outras da época e algumas inéditas pelo co-autor remanescente, Macalé, num disco magistral, Real Grandeza (Biscoito Fino).

   No ''aggiornamento'' intervém tanto os recentes Vulgue Tostoi, Adriana Calcanhotto, Frejat, Kassin, Domênico e Pedro Sá, quanto os contemporâneos Luiz Melodia, Maria Bethânia e até o veterano coral do samba As Gatas. Tudo sob a batuta do próprio Macao e ainda do mago Cristóvão Bastos, um orquestrador que já colocou até cravo no samba de Paulinho da Viola, sem chutar a canela dos passistas.

   Logo na abertura, Waly declama seu manifesto Olho de lince, naquele seu estilo glauberiano, brandindo as palavras (''quem fala que sou esquisito, hermético/ é porque não dou sopa, estou sempre elétrico''), e o poema desata num samba pontuado no violão de Macalé, piano de Cristóvão, baixo de Jorge Helder e bateria de Jurim Moreira. No final, Ponto de luz acende um candomblé nas vozes d'As Gatas, violão do líder e mais agogô, afoxé (Ovídio) e congas (Chacal). A também inédita Berceuse crioulle articula moldura de câmara (cello de Márcio Mallard, piano e violão dos titulares supracitados) para a sensualidade épica de Bethânia: ''Deita a saia no chão/ fica nuinha em pêlo/ me mostra a lua/ e os sete estrelo''.

   Só com seu violão meticuloso e a voz destoante, Macalé dá um show em Rua Real Grandeza, dos urros aos sussurros, num oscilador de intensidades. O destemperado bolero Senhor dos sábados (''estilhaços de vidro espatifados no chão/ risquei paredes do apartamento'') contrasta com o vocal plácido do solista, que divide as gingas do extremo Anjo exterminado (''quando você passa três, quatro dias desaparecida/ eu me queimo num fogo louco de paixão''), ao vivo, com uma cálida Adriana Calcanhotto.

   O proto-reggae Negra melodia conta com o auxílio luxuoso do próprio biografado Luiz Melodia - metal vocal preciso para versos como ''Meu pisante colorido/ meu barraco lá no morro de São Carlos'', sob sutis ''uá uás'' da guitarra de Pedro Sá. Outra parceria que flui bem é a do Barão Frejat (voz, guitarras, baixo, teclados e programação) com Macalé, no clássico marginal Mal secreto (''mascaro meu medo, massacro minha dor/ já sei sofrer'').

   E há ainda uma versão íntima de Dona do castelo, mais uma estilização do suingado coco/xaxado Revendo amigos, com primorosos sopros de Dirceu Leite. E, capítulo à parte, a revisita radical a Vapor barato, cuja gravação memorável de Gal Costa nos 70 serviu de trilha à Terra em transe da era Collor, o filme Terra estrangeira, de Walter Salles. Inserida numa moldura industrialista de programações eletrônicas de Marcelo H (voz e programações), Junior Tostoi (craviola elétrica, craviola elétrica com arco, baixo, programações e edições) e Rodrigo Campello (cordas virtuais, programações, edições), o megaclássico ganhou fôlego novo num plano seqüência estonteante. Bem, muito bem, na fita Real Grandeza é pura realeza musical, daquela que nunca sai do trono.

(© JB Online)


Morbeza secreta

   A idéia de reunir as parcerias da dupla em um disco era um projeto antigo de Waly Salomão que foi levado adiante por Macalé após a morte repentina do amigo:

   - Ele vivia me dizendo que precisávamos gravar nossas composições. Ele era um vulcão, tinha essa energia empreendedora da qual eu me alimentava. O Waly sabia mostrar suas idéias; eu já não tinha tanta desenvoltura. Se dependesse de mim, eu estaria inédito até hoje.

   As diferenças de temperamento entre os dois não ficavam restritas à forma de conduzir a carreira. Macalé diz que estava mais próximo da sonoridade de Nelson Cavaquinho, enquanto Waly buscava a profundidade poética de Lupicínio Rodrigues. Dessa junção nasceu a morbeza romântica, conceito cunhado por Salomão que o parceiro até hoje não conseguiu decifrar plenamente.

   - Uma vez tentei explicar o que era essa linha de morbeza romântica sobre a qual o Waly falava. Disse que era a mistura de morbidez com beleza e depois ele me corrigiu. ''Não é nada disso!'', bradou com aquele exagero dele. Mas nunca me disse o que era a tal morbeza. Na época eu queria ''sujar'' o meu violão como o do Nelson Cavaquinho, que eu conheci quando tinha uns 20 anos, e o Waly carregava nas tintas das letras, com a densidade do Lupicínio. Acho que isso é a morbeza romântica. Se não é, passou a ser - sintetiza Macalé.

   Na mesma época da morte do amigo e parceiro, Macalé estava lançando o álbum Amor, ordem e progresso (2003), cujo título completava o dístico positivista que dá lema à bandeira brasileira - ''O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim''. A idéia do cantor e compositor era que ''o amor voltasse a ser discutido, inclusive no Congresso''. Hoje, após os escândalos que não param de surgir na capital federal, essa esperança tornou-se menos intensa.

   - Como se pode discutir isso nesse momento, com o amor completamente soterrado em Brasília? - questiona o músico, que vem acompanhando diariamente os desdobramentos das CPIs que são realizadas para desvendar escândalos como a corrupção nos Correios e o mensalão.

   O momento político do país levou Jards Macalé a compor a canção Instintos primitivos, inspirada numa frase do deputado Roberto Jefferson proferida ao ex-ministro José Dirceu. Além da nova canção, o show de amanhã terá um ''Momento CPI'', no qual o cantor e compositor busca novas leituras do atual momento da nação em clássicos de Noel Rosa (Onde está a honestidade?) e Ary Barroso (Falta um zero no meu ordenado). Mas Macalé - que participou em 2004 da gravação do hino do Fome Zero - ainda aguarda a bonança, após a tempestade política:

   - Nesse momento, o melhor é esperar que façam a faxina entre eles e ficar de olho no que sobrar de tudo isso.

(© JB Online)


CRÍTICA/MPB

Macalé trabalha contrastes com Waly

DA SUCURSAL DO RIO

   Há parcerias que não precisam de mais do que 12 músicas para se firmar como fundamentais. É o caso de Noel Rosa/ Vadico, Tom Jobim/Chico Buarque e, guardadas as diferenças, Jards Macalé/ Waly Salomão. "Real Grandeza", o novo CD de Macalé, é o registro dessa obra, feito dois anos após a morte do amigo poeta.

   Além da beleza em si das canções, elas mostram como a dupla continuou tropicalista e antropofágica pós-exílio de Gil e Caetano, pós-prisão de Salomão por porte de maconha, pós-repressão no regime militar a tudo o que fosse diferente e "marginal" -rótulo que grudou em Macalé e ofusca seu brilho de compositor.

   "Este CD não é homenagem nem tributo, mas, sim, a afirmação de uma parceria vitoriosa que se inicia em 1967, atravessa a década de 70, flerta com os 80, retorna no final dos 90, se reafirma no início do segundo milênio e desemboca em 2005", escreveu Macalé, garantindo fidelidade eterna ao rei Salomão. Há duas maravilhas inéditas no CD. Na primeira, "Olho de Lince", a voz gravada de Waly entoa versos de mais completa tradução da dupla: "Quando quero saber o que ocorre à minha volta/ Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta/ Experimento tudo nunca me iludo (...) quem fala de mim tem paixão".

   Em "Berceuse Criolle", belamente acompanhada de um trio violão-piano-cello, Maria Bethânia canta com conhecimento de causa versos que remetem à remota Bahia de "mãinha" e "painho" -Salomão nasceu em Jequié, a cantora, em Santo Amaro da Purificação.

   As regravações formam um painel de contrastes (palavra cara a Macalé) e excessos que são o sangue de Macal & Sailormoon. "Rasguei no dente seu retrato", rasga a letra de "Senhor dos Sábados", um bolero que podia ser, mas não é, bem-comportado.

   "Seu Castelo de baralho vai se desmanchar/ (...) Sobre o borralho da sarjeta", pragueja a fossa de "Dona de Castelo", com Macalé sofrendo ao lado apenas do piano de Cristóvão Bastos.

   "Negra melodia/ Que vem do sangue do coração/ I know how to dance", canta o homenageado (também "marginal") Luiz Melodia em "Negra Melodia", reggae que se embaralha com o samba, misturando Jamaica e o morro do Estácio, os sons jovens de Kassin, Pedro Sá e Domenico com as vozes das pastoras de As Gatas.

   Outras participações bem-sucedidas são as de Adriana Calcanhotto em "Anjo Exterminado" e Frejat em "Mal Secreto", um rock-colagem que Cazuza assinaria com prazer: "Corro, choro, converso e tudo o mais jogo num verso", diz o trecho que parodia "Quero que Vá Tudo pro Inferno", do outro Rei.

   Já "Vapor Barato" ganha da banda Vulgue Tostoi uma versão tediosa, cujo único mérito é conceitual: revestir das eletricidades e eletrônicas do presente um hino que era hippie e transcendeu o contexto original.

   O blues "Rua Real Grandeza", o xote "Revendo Amigos" e o ponto-de-macumba "Ponto de Luz" completam a saborosa geléia geral do CD. Só faltou da dupla, salvo peças ainda inéditas, "O Faquir da Dor", haicai autobiográfico de Salomão musicado-encampado pelo parceiro: "Ao distinto público, ouvintes de casa, vou ficar aqui/ Exposto à audição pública como o faquir da dor".

   Macalé lança o disco na próxima quarta-feira, no Circo Voador, no Rio, quando cantará músicas dedicadas ao momento do país, como a sua inédita "Instintos Primitivos", inspirada em Roberto Jefferson, "Onde Está a Honestidade?", de Noel Rosa, e "Reunião de Bacana", do grupo Exporta Samba ("Se gritar "pega ladrão'/ Não fica um, meu irmão"). (LFV)

Real Grandeza
    
Artista:
Jards Macalé
Lançamento: Biscoito Fino
Quanto: R$ 30, em média

(© Folha de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia