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Em "Sabotador de Satélite", paraibano trabalha com o produtor Kassin e
inova ao abraçar o modelo Creative Commons As composições de Totonho, o cabeça de Totonho e Os Cabra, são cheias de humor, mas ele não brinca quando fala o que quer com elas: "Eu pleiteio um lugar de música original no Brasil". Apesar do tom cavaleiro solitário, quase bravateiro, da afirmação, pode-se dizer que esse paraibano radicado no Rio está cumprindo seu sonho. Cativou parte da crítica e do público nacional (5.000 cópias vendidas) e europeu (9.000 cópias) com seu primeiro CD, de 2001, e radicaliza mais suas experimentações no novo "Sabotador de Satélite". Radicaliza ao fazer um disco que é, ao mesmo tempo, todo eletrônico -com programações do produtor Kassin, onipresente nos estúdios brasileiros, e seu parceiro Berna Ceppas- e todo tradicional, baseado em ritmos como o carimbó, o coco, a ciranda e a catira. "É um dos mais profundos discos de música tradicional do Brasil. Sei de onde sai cada som. Eu não fugiria de uma discussão com o [José Ramos] Tinhorão", diz ele, referindo-se ao crítico que é profundo conhecedor das tradições musicais do país e que rechaça as interferências externas. "Mas tradição é o que consegue ser aceito no seu tempo. Não vou reproduzir uma quadrilha para meia dúzia de puristas. O tempo é outro", afirma Totonho, que diz querer "experimentar para as massas". Ele também radicaliza ao lançar o que ele e a gravadora Trama garantem ser o primeiro disco brasileiro em modelo Creative Commons. Traduzindo: quem tiver o programa no computador poderá abrir os canais do CD e usá-los como bem entender, sem ter de pagar direitos autorais.
"Está tudo livre. Faz parte do pacote
de experimentos que eu pretendo fazer. Se não consigo ganhar dinheiro, pelo
menos me divirto. Acho que esse é um ato de sabotador", acredita. "Sabotador de Satélite" também é radical em relação ao anterior "Totonho e Os Cabra" porque, agora, a eletrônica está da primeira à 12ª faixa. "Eu e Kassin decidimos zerar o sample e a harmonia", diz ele, que aboliu tanto as fusões quanto os violões e pianos que servem como base harmônica de arranjos. "Eu punha primeiro a minha voz limpa. Depois entravam os beats [batidas eletrônicas], e aí eu começava a estragar", ironiza ele, referindo-se aos efeitos que criou no disco com a voz. Mas Totonho diz não querer saber de house, trance e outras correntes internacionais. "Estou atrás de uma música eletrônica brasileira", afirma. Ele quer, portanto, usar ritmos tradicionais em um aparato contemporâneo. "Eu podia fazer discos de baladas, voz e violão. Mas quero criar uma música do meu tempo. Não vou fazer o que Gil, Chico e Caetano já fizeram", diferencia-se. Totonho lançará o CD no Rio, no dia 27, em uma blitz que está chamando de "Pega ratão": cantará, entre outros lugares, na Colônia Juliano Moreira [de doentes psiquiátricos], em uma associação de catadores de papel e para as prostitutas da Vila Mimosa. Em outro dia, fará um show que não reproduzirá o disco, pois os músicos improvisarão tudo. "Não admito me copiar", garante ele, que pretende lançar mais dois CDs até o meio do próximo ano. Como diz, seu lugar é mais ao lado dos sabotados do que dos sabotadores. Totonho é coordenador, há 16 anos, da ONG Ex-Cola, que retira adolescentes das ruas e procura encaminhá-los profissionalmente. Na rádio Madame Satã, ligada à ONG, faz programas de rádio, dá aulas de informática, música e outros temas e ouve novidades de hip hop e eletrônica que não chegam à grande mídia. "A gente dá um toque nos garotos, porque não dá para saber onde fica Bancoc [na Tailândia] e não conhecer Belfort Roxo [na Baixada Fluminense]", conta ele, um pé no chão e outro na Lua, uma das protagonistas de suas composições. CRÍTICA DA SUCURSAL DO RIO As maiores qualidades e os maiores defeitos de "Sabotador de Satélite" estão no mesmo lugar: o conceito do CD. Totonho teve a idéia de unir ritmos tradicionais à eletrônica e adequou tudo (letras, arranjos) a ela. Há muitas coisas boas, mas a camisa-de-força impediu vôos mais livres. "Jaspion do Pandeiro", "Poeira Estrelar", "O Homem Pisou na Lua", "Eu Mandei Meu Amor pro Espaço", a faixa-título... Os títulos das músicas deixam claro o clima ficção-científica das composições, que vão à Lua para falar das indigências e mesmices do presente. "O homem devia evoluir/ E voltar a ser macaco", diz Totonho em "O Homem Pisou na Lua". "A lua tá precisando de saneamento básico/ Medidas de impacto/ Pra não se acabar na merda", profetiza ele em "Saneamento Básico". São boas idéias que derivam da idéia-mãe do CD. Mas a insistência na tecla incorre naquilo que Totonho mais odeia: a cópia de si mesmo, a repetição. Em uma faixa como "Rita Leea de Itamaracá", a fusão de temas chega a ser óbvia, mas o resultado é uma boa "ciranda eletrônica". Mais leve do que conceitual, ele acerta em passagens como a final de "Tenente Jeff": "Orangotanga/ Uma fila de dobrar quarteirão/ Pra concurso de baranga/ A vendedora de Avon/ Sente o cheiro de quem ama". Dá para rir, dançar e até pensar. (LFV) Sabotador de Satélite |
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