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Apesar do texto 'cansado', direção de 'A serpente' consegue dar relativa contundência à peça Macksen Luiz A serpente, por sua concisão e pelas situações recorrentes na obra de Nelson Rodrigues, parece um tanto ''cansada'' - o que não é surpreendente, já que esta é a sua última peça, escrita em 1978, dois anos antes de sua morte. Algumas das maiores obsessões do autor permanecem intactas, como o relacionamento entre irmãs, tema desde Vestido de noiva. Os diálogos, curtos, incisivos, rascantes, mostram-se com a inteireza do estilo, mas com pálido vigor. O tempo dramático se revela exíguo para o desenvolvimento da ação, deixando pouco espaço para o adensamento das cenas, provocando um desfecho um tanto apressado. Mas A serpente, apesar desses aspectos declinantes, mantém os traços de um universo dramatúrgico peculiar e remete a outros textos rodriguianos, mais brilhantes, sustentando-se pela memória dessa obra. Guida, que vive com exuberante intensidade o amor por Paulo, cede, por uma noite, seu marido à irmã Lígia. A decisão vem depois da descoberta de que seu cunhado Décio, depois de anos de casamento, nunca tocou em Lígia. Esse ato desencadeia a explosão de ciúmes, a transferência de identidades e conflitos de remotas interdições, que são muito mais sugeridos do que levados a extremos dramáticos. As cenas, muitas vezes, parecem ficar a meio caminho, esboços de situações parcialmente desenvolvidas. A serpente ainda tem relativa contundência, especialmente na linguagem, que provoca reações palpáveis na platéia, como risos nervosos e expressões de espanto, o que demonstra muito da ''eficácia'' e vitalidade do texto, apesar das eventuais restrições, comparativamente a peças mais instigantes do autor. Yara de Novaes situa essa pequena tragédia familiar no imponderável do inconsciente, trazendo a realidade para o plano do vácuo da razão. No cenário de André Cortez, em que as paredes têm a espessura de um tecido, os móveis partidos ao meio apresentam a simbólica divisão dos sentimentos e a inversão da estrutura espacial criam o desfocar da perspectiva, os personagens se entrechocam num mundo de impulsos incestuosos e perversos. A diretora investe nessas motivações humanas básicas e na desconstrução do realismo. Há uma proposital descaracterização de contexto, não apenas refletido na cenografia, mas também no estilo de interpretação do elenco. A ambientação, que filtra a cena por meios que a distanciam da realidade mais reconhecível, confere ao texto aspecto mais próximo de um capítulo de folhetim, com uma forte imagem inicial (a mancha de sangue que é limpa), que se concluirá com um plano cinematográfico (um corpo que cai). A iluminação de Telma Fernandes ambienta bem essa cenografia, assim como os figurinos de André Cortez e a colaboração da trilha sonora de Morris Piccioto. A preparação corporal de Mônica Ribeiro desenha os movimentos dos atores em cortes ágeis. Cyda Morenyx encarna com menos provocação e mais sensualidade a Crioula das Ventas Triunfais. Augusto Madeira imprime a seu personagem um ar malandro, que se desvia um pouco das características do marido impotente. Alexandre Cioletti empresta um certo ar fatalista a Paulo. Mônica Ribeiro e Débora Falabella, como as duas irmãs, estabelecem contracena bastante equilibrada. A serpente - Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, Av. Vieira Souto, 176, Ipanema (2267-1647). 5ª a sáb., às 21h, e dom., às 20h. R$ 30. Estudantes e idosos pagam meia. Até 30 de outubro. |
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