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Desencontro internacional

Hermeto Pascoal

Antonio Carlos Miguel

   O público que lotou o Teatro Sesc Ginástico anteontem, para mais um show da série Encontros Internacionais, pôde se deliciar com a musicalidade de Hermeto Pascoal e do quarteto de Ron Carter, mas sem presenciar encontro algum no palco entre esses que estão entre os maiores músicos contemporâneos. Encontro — ou reencontro — de dois instrumentistas que trabalharam juntos no estúdio nos anos 70 e 80, que também não aconteceu fora do palco. Hermeto, que hoje, aos 69 anos, vive em Curitiba com sua atual mulher, a jovem percussionista e cantora paranaense Aline Morena, fez de tudo para driblar o baixista americano, de 68 anos.

   — Tenho boas lembranças de minhas experiências com Hermeto, gravei com ele em discos de Flora Purin e Airto Moreira, a última vez há cerca de 15 anos, e ele é um músico maravilhoso. Desde então, toco regularmente no Brasil, mas nunca tive o prazer de reencontrá-lo, o que finalmente vai acontecer agora — contou Ron Carter à tarde, quando fazia o teste de som com seu grupo e ainda acreditava na possibilidade de um bate-bola musical. — Não temos nada programado, em princípio Hermeto faz a abertura da noite e depois é a nossa vez, mas poderemos improvisar algo.

Hermeto se trancou no hotel e não foi ao ensaio

   Um arisco Hermeto, que chegara aquela manhã ao Rio, no entanto, não apareceu no ensaio, como havia combinado com o diretor da série, o também pianista e compositor Marcos Souza. No hotel em que estava hospedado em Copacabana, avisado que um repórter gostaria de documentar seu reencontro com o jazzman , ele disparou: “A imprensa brasileira não me dá a mínima e agora só quer saber de mim por causa desse norte-americano”. Mas, no camarim, momentos antes de subir ao palco para uma apresentação solo brilhante, que durou apenas 30 minutos, Hermeto era só diplomacia. Ao lado de Aline Morena e também de alguns músicos de seu grupo, ele elogiou o contrabaixista americano.

   — Ron Carter é um dos maiores baixistas do mundo, a gente tem muita coisa em comum e a música verdadeira não tem fronteiras de idioma — disse Hermeto, que no entanto descartou qualquer chance de um reencontro no palco. — Não tenho tempo, vou sair correndo daqui para o aeroporto, amanhã cedo tenho estúdio marcado, preciso acabar o disco que estou gravando com Aline, “Chimarrão com rapadura”, porque já temos uma turnê européia marcada.

   No palco, Hermeto esbanjou o habitual talento e foi assistido nos bastidores do teatro por Ron Carter e seus músicos — o baterista Payton Crossley, o percussionista Steven Croon e o pianista Stephen Scoop. Terminada a sua apresentação, o exuberante músico alagoano já tinha um plano de escape bem arquitetado. Não atendeu aos pedidos para posar para uma foto com Ron Carter, que assistira ao seu show da coxia esquerda, e escapuliu pela lateral direita, embarcando com Aline na van que o levaria ao aeroporto. Músico que acompanha Hermeto há duas décadas e que hoje mantém um grupo paralelo, a Itiberê Orquestra Família, o contrabaixista Itiberê Zwarg comentou depois a atitude de seu mestre:

   — Hermeto estava insatisfeito com a forma como esse show foi acertado.

   Traduzindo, como foi apurado depois, o genial e genioso inventor de sons não aceitava abrir a noite para Ron Carter, ele é que deveria ser a atração principal. O que não o impediu de apresentar o baixista calorosamente — “Ron Carter é um dos maiores músicos do mundo, espero que vocês aproveitem” — e de se desculpar pelo micro-show.

   — Foi curtinho, mas assim vocês vão ficar a fim que eu volte logo.

   Ron Carter, que chegara ao Brasil na semana passada para também participar do Festival Tudo é Jazz, em Ouro Preto — “Adorei aquela cidade, nunca tinha visto algo assim no mundo, foi como um mergulho no passado” — é um velho conhecido do público carioca. E hoje e amanhã, como faz anualmente desde o início da década passada, ele se apresenta com seu grupo no Mistura Fina — em duas sessões, às 20h e às 23h. Um dos baixistas mais requisitados no jazz, no início dos anos 60 Carter fez parte do lendário quinteto de Miles Davis. Também nessa época estreitou sua ligação com a música popular brasileira, gravando nos discos americanos de Antonio Carlos Jobim, incluindo “Stone flower”, “Tide”, “Wave” e o antológico “Urubu”. Sobre este último, conta:

   — Certo dia, Claus Orgerman me ligou para que o ajudasse a adaptar os arranjos que fizera para “Urubu”. Eu já gravara antes com Jobim e foi um prazer fazer esse trabalho, ao lado do baterista João Palma, que também teve um papel muito importante. Foi um disco especial, que em muitos momentos lembra a música clássica — rememora Carter, que começou a sua carreira como violoncelista clássico, antes de se mudar para o contrabaixo e o jazz. — Eu tinha que viver daquilo, e passei a ganhar dinheiro trabalhando em clubes noturnos.

Música “muito, muito boa”, além dos rótulos

   Hoje, com duas dezenas de discos individuais lançados e participações em centenas de outros, Ron Carter foge de rótulos quando é perguntado sobre seu estilo.

   — Eu faço música muito, muito, muito, muito boa! Sim, quatro vezes boa. Essa é a única definição que encontro.

   Conflito de egos à parte, mais um ponto em comum entre o gigante (em todos os sentidos, com seu 1,90m de altura) do contrabaixo e o multiinstrumentista. Em seu breve show, Hermeto abriu com uma torta e surpreendente “Cidade maravilhosa” num piano alterado — graças à percussão de quatro pires colocados nas cordas do instrumento — e depois passou por escaleta, sanfona de oito baixos, flauta e voltou ao piano, dessa vez limpo, para lírico tema de despedida. O público queria mais. Felizmente, tinha o quarteto de Ron Carter para saciar seu desejo de música muito, muito, muito, muito boa.

(© O Globo)

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