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Totonho: fazendo graça para falar de assuntos
sérios |
Cidadão Instigado e Totonho e
Os Cabra confirmam a boa fase da produção nordestina
Omar Godoy
Em 1939,
após rodar o Brasil como corneteiro do Exército, o pernambucano Luiz
Gonzaga resolveu se estabelecer no Rio de Janeiro. Lá, percebeu que
havia uma massa de migrantes ávidos para ouvir xotes, xaxados, baiões e
outros sons típicos de sua região. E foi além: encantou também os
cariocas, ampliando sua audiência por todo o “sul maravilha”. A partir
daí, o êxodo de artistas dos nove estados do Nordeste para as maiores
cidades brasileiras não parou mais.
O cearense Fernando Catatau e o
paraibano Totonho são apenas mais dois nomes na extensa lista de músicos
nordestinos que tocam suas carreiras no Sudeste. Desconhecidos do grande
público, fazem um barulho danado no underground da MPB. Catatau, 33
anos, radicado em São Paulo, é guitarrista e já acompanhou cantores e
conjuntos como Otto, Zeca Baleiro, Vanessa da Mata, Los Hermanos, Nação
Zumbi. Mas sua prioridade é o grupo Cidadão Instigado, do qual é
fundador e principal compositor. Seu segundo CD, Cidadão Instigado e o
Método Túfo de Experiências (Slag Records), acaba de chegar ao mercado
independente. A banda se apresenta na capital paranaense no sábado, como
parte da programação do evento Curitiba Rock Festival.
“Carioca” desde o fim da década de 80, Totonho, 40 anos, também está
lançando o segundo álbum, Sabotador de Satélites (Trama). Escudado por um
grupo de produtores e músicos batizado de Os Cabra, ele rompeu as fronteiras
do país e goza de um certo prestígio entre o público antenado da Europa. Já
fez três turnês pelo Velho Mundo e tem mais público por lá do que no Brasil.
O músico ainda desenvolve uma série de projetos sociais, como a rádio
comunitária Madade Satã FM, cujo objetivo é dar voz aos moradores de rua do
centro do Rio.
Em comum, além do fato de serem nordestinos, os dois artistas têm o gosto
pelo experimentalismo e a música realmente popular. Fã de Roberto Carlos e
Fernando Mendes, Catatau não se acanha ao assimilar influências do “brega”
em seu trabalho roqueiro, psicodélico e nada comercial. Mas nunca o faz de
maneira caricata: suas canções são de uma sinceridade desconcertante, quase
ingênua. “Quando comecei a compor, decidi que tentaria ser o mais verdadeiro
possível”, afirma.
Catatau chegou a São Paulo pela primeira vez em 1994, para divulgar sua
antiga banda, Companhia Blue. Sofreu muito com a mudança, mais por conta da
solidão do que pela falta de dinheiro. “Morava no bairro do Bexiga e só
conhecia o povo que freqüentava os bares da região. Foi uma época braba”,
conta. Dessa e de outras lembranças saiu boa parte dos temas do novo CD,
como comprova a faixa “Silêncio na Multidão” (“Eu vejo as pessoas que passam
por mim/ Que falam, que ralam, que gritam/ Em harmonia e solidão/ Dói no
coração ver meu povo silencioso”). “Mesmo quando crio um personagem, a letra
fala de algo pessoal”, diz o guitarrista.
Os textos de Totonho também possuem uma espontaneidade tipicamente popular.
Sua veia poética, no entanto, é mais voltada para o humor e a crítica social
debochada. “Faço graça para falar sobre coisas sérias”, garante o paraibano
da cidade de Monteiro, celeiro de repentistas. Em meio a um turbilhão de
colagens eletrônicas, ele canta versos como “A Lua tá precisando de
saneamento básico/ Medidas de impacto/ Pra não se acabar na merda” (da
canção “Saneamento Básico”). Ou “Orangotanga/ Uma fila de dobrar o
quarteirão/ Pra concurso de baranga/ A vendedora da Avon/Sente o cheiro de
quem ama” (em “Tenente Jeff”).
Semelhanças e diferenças à parte, Catatau e Totonho refletem sobre a eterna
atração dos brasileiros pelos artistas nordestinos. Considerando,
obviamente, as peculiaridades de cada estado daquela região – do contrário,
há o risco de cometer o erro de, por exemplo, classificar Rio Grande do Sul,
Santa Catarina e Paraná como um bloco cultural uniforme. “Me sinto mais
individual, mas reconheço que trabalho com muita gente legal vinda do
Nordeste”, diz o líder do Cidadão Instigado. Para ele, os nordestinos são
“carregados de emoção”, e talvez por isso o público se identifique tanto com
sua produção musical e poética.
Totonho acredita que, graças às transformações da indústria cultural, dentro
de cinco anos será possível desenvolver uma carreira sem precisar se mudar
para o Sudeste – a “caixa de ressonância” do Brasil, segundo ele. O
paraibano concorda com Catatau, destacando ainda a inquietação dos
nordestinos. “Somos muito interessados por comunicação, muito perguntadores.
Não temos papas na língua, até na hora de conhecer um artista consagrado e
não ficar constrangidos. Com isso, acabamos registrando nossa presença e
sendo percebidos”, afirma. Que o digam Zeca Baleiro, Chico César, Lenine,
Nação Zumbi, Junio Barreto, mundo livre s/a, DJ Dolores, Mombojó, Rita
Ribeiro...
* Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências, Cidadão Instigado –
GGG1/2
* Sabotador de Satélite, Totonho e os Cabra – GGG
(©
Gazeta do Povo)
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