|
|
O compositor que imortalizou sua terra natal ganha homenagem no Rio Rafael Sento Sé As lavadeiras já não enxáguam mais as roupas nas águas da Lagoa do Abaeté, Itapoã já não é mais o areal branco ponteado de coqueiros e baiana de acarajé já anda até de motorista em carro com ar-refrigerado. Mas a essência da São Salvador cantada por Dorival Caymmi, como ele mesmo disse em Adalgisa, 'tá viva ainda lá'. E emprestará toda a sua baianidade ao Paço Imperial, que recebe, em 27 de outubro, a exposição A imagem do som de Dorival Caymmi, a sexta da série idealizada por Felipe Taborda. A convite do curador, 80 artistas e designers brasileiros, entre eles Mário Cravo Júnior, Marcelo Grassman e Ernesto Neto, traduziram em imagens os versos do baiano que ajudou a construir o imaginário da Bahia que até hoje é referência para a maioria dos brasileiros. Seguindo a poética do mestre baiano, o elemento mais recorrente na exposição para traduzir Caymmi foi o mar, explica Taborda. A idéia de baianidade se confunde com a própria figura do músico de feição serena. Aclamado como o cantor das graças da Bahia, Caymmi foi um grande propagandista da sua terra e fez famosas Brasil afora a Lagoa do Abaeté, as manifestações populares e as areias de Itapoã, principalmente depois que Carmen Miranda, no filme Banana da terra, deu voz a O que é que a baiana tem? e incorporou ao visual frutas tropicais e balangandãs, moldando assim um estereótipo do Brasil. De tanto exaltar a beleza de lugares como Itapoã, Caymmi causa confusão até mesmo nos próprios baianos. - Que eu saiba, Caymmi nasceu e foi criado em Itapoã - afirma o artista plástico Ubiraci Tibiriça, que vive há 35 anos na Ladeira do Carmo, em Salvador, quase em frente ao sobrado onde o compositor de Maracangalha morou durante a infância. O sobe-e-desce de turistas na ladeira é indiferente ao casarão amarelo, no número 35. Ali, só a aposentada Aliete de Leony, 78 anos, atual proprietária do sobrado, sabe quem foi o ex-proprietário, que cresceu nas ruas em pedra do bairro de Santo Antônio, ao lado do Pelourinho. A casa é próxima ao Elevador Lacerda, local de trabalho do bisavô de Dorival, Enrico Durval Caymmi, que deixou a Itália na segunda metade do século 19. Roda Pião e Santa Clara Clareou, por exemplo, foram inspiradas nas cantigas ouvidas na infância, nos anos 1910. Os pescadores, que também marcam o cancioneiro de Caymmi, ainda estão nas praias, especialmente no bairro Rio Vermelho, onde todo dia 2 de fevereiro o mar se enche de barcos enfeitados e a orla de gente para saudar Iemanjá. - Todo mundo se veste de branco e as mulheres usam até jóias - descreve o aposentado Armando Ramos, que pesca de anzol por hobby. A música de Caymmi, observa Armando, foi muito importante para o desenvolvimento da Bahia. O pescador só guarda uma ponta de rancor porque Caymmi ''se mandou para o Rio''. Desde 1996, Caymmi não volta à terra natal. O pescador Joselito Alves, 66 anos, também se mostra contrariado com a maior visibilidade do Rio de Janeiro: - Já falam que o samba nasceu lá, daqui a pouco vão falar que inventaram a capoeira também. Neta e biógrafa de Dorival Caymmi, a jornalista Stella Caymmi, autora de O mar e o tempo (Ed. 43), explica que o reumatismo da avó Stella impede que se faça a viagem de ônibus - de avião D. Stella tem medo. Dorival, acrescenta a neta Stella, não cogitaria viajar sem a mulher. Nas areias do Rio Vermelho, um personagem que bem poderia virar música de Caymmi é Valter da Encarnação, o Manteiga, que, aos 62 anos, ainda mergulha de máscara e tarrafa, pequena rede com chumbos na ponta, para pescar pititinga, semelhante à manjubinha. O quilo do peixe sai por cerca de R$ 3. - É só fritar, colocar uma salada, uma farofa e mandar para dentro. Nem precisa mastigar - ensina o pescador, revelando uma (tipicamente baiana?) ponta de preguiça. Se os pescadores ainda saem para o mar como na Bahia cantada por Caymmi, desde a década de 90, as lavadeiras foram proibidas de lavar roupa na Lagoa do Abaeté. Para não poluir a lagoa, a prefeitura construiu uma lavanderia, de forma a preservar a atividade que complementa a renda de mulheres nos bairros mais pobres da cidade. As roupas, no entanto, ainda são estendidas nas areias - não mais tão brancas - para secar ao sol. - Antes, a roupa ficava mais limpa, porque botava para corar com ouricuri - lembra a ex-lavadeira Maria Alzira Nascimento, referindo-se à planta encontrada na beira da lagoa. As águas escuras, acrescenta, têm muitos segredos. Apesar da aparência tranqüila, os afogamentos são comuns por causa do fundo de lama. Maria Alzira e Caymmi têm outra explicação: ali é uma das moradas da mãe d'água, que atrai para o fundo da lagoa os homens por quem se apaixona. A lavadeira Solange Miranda, 40 anos, deixa sempre à vista os filhos quando a acompanham. - Eles ficam brincando com as bacias - explica Solange, seguindo os versos de A lenda do Abaeté. ''Ô pescador/ Deixa que seu filhinho/ Tome jangada/ Faça o que quisé/ Mas dá pancada se o filhinho brinca/ Perto da lagoa do Abaeté''. E Adalgisa ainda pode dizer que a Bahia 'tá viva ainda lá'. A boa preguiça baiana A preguiça, um traço tão marcante da baianidade, não é uma invenção de Dorival Caymmi, mas a aparência tranqüila do compositor e a forma como ele sempre foi retratado na mídia reforçaram a característica. Caymmi não tem dado entrevista à imprensa desde o ano passado. A neta Stella Caymmi, ressalta que, diante de um mundo estressado, essa preguiça geralmente é encarada como uma coisa boa. Esse traço, arrisca Stella, começou a ser explorado principalmente depois de Maracangalha estourar, em 1957, quando o baiano foi convidado para fazer uma propaganda de rum com o slogan: ''Eu vou para Maracangalha com Rum Merino''. - Ele aparecia deitado numa rede, com uma garrafa do rum. Desde então, sempre o colocam numa rede para fazer propaganda, material fotográfico ou programa de televisão - conta a neta. O compositor geralmente demora para compor uma música, o que também pode ter reforçado a fama. João Valentão, por exemplo, levou nove anos para ficar pronta. Há quase dez anos sem ir à Bahia, Caymmi mata a saudade da terra natal conversando com os amigos ou recorrendo à culinária baiana quando alguém traz quitutes da terra. Apesar da diabete branda, às vezes o senhor de cabelos brancos arrisca até um doce. Caymmi tem se dedicado a assistir à coleção de DVDs do amigo Chico Buarque, no qual faz uma participação. A imagem Caymmi Desde 1999, a exposição A imagem do som já homenageou grandes nomes da música como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Tom Jobim, além do pop-rock brasileiro. Agora, pela importância da obra de Dorival Caymmi para a música brasileira, Felipe Taborda decidiu reverenciar o compositor baiano. Assim como nas outras edições, será lançado um livro com imagens das obras de artistas de áreas diversas, como o cartunista Ziraldo e a estilista Alessa. A música que coube a cada artista foi sorteada e a seleção das 80 componentes da mostra contou com a ajuda de Danilo Caymmi, filho de Dorival. - A exposição traz a identidade brasileira em duas formas de expressão artística diferentes. Adorei a idéia - conta Danilo. |
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2005