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Folclore mal aproveitado

'A farsa do bumba-meu-boi' ignora profundidade da manifestação popular

Carlos Augusto Nazareth

   A farsa do bumba-meu-boi está sendo apresentada no Teatro Sesi pelo grupo De 4 no Ato. Em As danças dramáticas do Brasil, Mário de Andrade destaca o bumba-meu-boi como a mais exemplar, complexa e original de todas as nossas danças dramáticas. Entretanto, na conclusão de seu estudo, o autor vaticina um triste destino para estas danças: ''Da maneira como as coisas vão indo, a sentença é de morte''. Mas a vitalidade contemporânea da brincadeira do boi contradiz, felizmente, o oráculo.

   Embora esta pessimista previsão do escritor paulista não tenha se consumado, serve de alerta permanente para que cuidemos da cultura popular brasileira, sob pena de realmente contribuirmos para a morte destas manifestações.

   O bumba-meu-boi é uma manifestação popular carregada de significados que permite uma profunda leitura da índole do povo brasileiro e, mais que isso, do próprio ser humano. No entanto, o texto e a direção de João Balbino reduzem esta manifestação ao tênue fio narrativo condutor da fábula. Na montagem, abandona-se o dramático, o operístico, o popular, aquilo que a manifestação tem de mais rico e importante e que a mantém viva.

   O foco, nesta encenação, é a trama. O espetáculo se reduz a contar do desejo de Catirina, grávida que quer comer a língua do boi do patrão e faz com que Mateus mate o boi, que depois é ressuscitado. Nada permite as claras ilações do trato popular com a questão da morte e da ressurreição. Não há nenhum indício que nos permita perceber a relação com a realidade agrária, que, afinal, motiva esta manifestação. O ''drama'', que se estabelece exatamente através da dança e da música, é aqui canhestro e insuficiente, não traduzindo sua grandeza.

   A música, de suma importância, é precariamente conduzida, não só na parte instrumental, como nas melodias de Luciano Cintra e Gilvan Balbino. E nas coreografias, assinadas por Maria Quitéria, também responsável pela insuficiente preparação vocal dos atores.

   O cenário, assinado por Gilvan Balbino e Pâmela Vicenta, se resume a objetos de cena, já que o palco está totalmente nu, dominando apenas um grande boi, bem construído, feito por Pâmela Vicenta, autora dos figurinos. Estes fogem completamente da estética, riqueza e colorido do boi, surgindo como simples roupas básicas, feitas de tecido rústico.

   O elenco se reveza nos diversos papéis. Com presença cênica sem força, Gilvan Balbino tem dificuldade de fazer com que seus personagens cheguem ao público, o que acontece, mais acentuadamente ainda com Pâmela Vicenta. Felipe Néri tem boa presença cênica, mas, sem direção, exagera em suas composições, tornando-as desnecessariamente caricatas.

   Falta uma pesquisa mais acurada para entender o significado maior desta manifestação e permitir que isso se revele na construção do espetáculo. Este é um problema recorrente nas adaptações que abandonam a essência para se centrar na fábula, o que também vem ocorrendo com os tradicionais contos infantis.

   De 4 no Ato é um grupo jovem. Pode perfeitamente repensar a forma como aborda os textos e os temas que escolhe para levar ao palco.

A farsa do bumba-meu-boi. Com o grupo De 4 no Ato. Teatro Sesi (Av. Graça Aranha, 1, Centro). Sábado e domigo, 17h. R$ 10 e R$ 5.

(© JB Online)

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