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Seresertão, da antropóloga cearense Peregrina Capelo, professora da UFC, acaba de ganhar o prêmio Pierre Verger de vídeo etnográfico Eleuda de Carvalho da Redação Conversa temperada com o riso claro de Peregrina Capelo e os quitutes do caseiro Antônio, uma galinha com jerimum e um baião de dois com queijo coalho, todos os ingredientes oriundos de Lavras da Mangabeira, de onde a antropóloga da UFC acaba de voltar. Antes de mostrar o vídeo premiado Seresertão, motivo da visita, Peregrina fala dos novos trabalhos, põe no chão da sala alguns objetos tirados "do lixo", um velho raspador de tacho de rapadura, a roda de ferro da antiga prensa de fazer cera de carnaúba, uma peça em madeira de carro de boi de engenho, e um tijolo da casa onde nasceu o poeta Filgueiras Lima. "Também sou arquivista, tô juntando isso porque tenho o sonho de fazer o Museu do Sertão". O que, a olhos desavisados, são quinquilharias, Peregrina enxerga signos, sinais: "Sem sair do lugar, tinha-se ali uma economia autônoma, a cera, a rapadura, a farinha, a produção toda da família estava por ali". O outro documentário que ela está preparando tem por foco a religiosidade sertaneja, e vai se chamar Chagas abertas, coração feliz . Em sua travessia pelo sertão, Peregrina vai garimpando imagens, tipos de sociabilidade, objetos, atenta aos fragmentos, aos detalhes, para desenhar uma "cartografia, da antropologia material à econômica e política. E o nosso chantilly, claro, são os sentimentos. Observamos não de forma estática, mas do movimento. É a idéia do rizoma: de quantos milhares de linhas é feito este sertão, de tantas vozes que ecoam, num movimento que vai do grotesco ao excelso?". A sublinhar a estrada, diz, a inspiradora literatura de João Guimarães Rosa, "para mostrar que o sertão tá dentro da gente e está em todo lugar". A conversa tem a participação de Henrique Dídimo e Philipi Bandeira, responsáveis pela captação de imagens de Seresertão. A edição do vídeo foi de Kiko Alves, do coletivo Alpendre, mas seguindo as indicações da pesquisadora. O documentário acaba de receber mais um prêmio. O primeiro foi o da Mostra Nacional de Vídeo Universitário, de Mato Grosso; depois veio o primeiro lugar no I Prêmio Alagoano de Fotografia e Filme Etnográfico, ambos em 2005. E, agora, na 25ª Reunião Brasileira de Antropologia, Seresertão levou o prêmio especial do júri em vídeo etnográfico do VI Concurso Pierre Verger. A imagem inicial é a de um pescador, em seu barquinho, no espelho cristalino do açude Cedro, em Quixadá. "Olha o rizoma", aponta Peregrina, para o tamarineiro centenário, imagem seguida pelo rosto que parece uma teia de ruguinhas de uma velha senhora da mesma idade da árvore. Seguem-se falas que se entrecruzam e bordam tantos sentidos, o agricultor que mora sozinho hoje em dia, o vaqueiro, o fazendeiro, a moça de Tanquinho e sua visão muito lúcida do que seja esta tal reforma agrária. Fala o vaqueiro Sérgio, todo encourado, segurando um serrotinho que foi de seu pai: "Pensa que é fácil correr atrás de bicho dentro do mato? É difícil. O homem dentro do mato faz coisas que a gente não pode nem avaloar, é uma coisa tão pegajosa, o sujeito esquece de tudo. Descobrir o segredo do sertão dá é trabalho". Seu Pedro Pelado debulha o rosário da solidão. Viúvo, teve 15 filhos, "em São Paulo tem nove. Nem em sonho eu fui lá", e isto não é um lamento. Isto talvez seja: "Comadre, Deus tem me dado uma força grande pra eu aguentar este baião. De dia, não tem com quem dê uma palavra". A moça, olhos maquilados, fala muito expressivamente, e suas mãos vão desenhando figuras no ar. Ela representa "o sertão que não se conforma em ser só do jeito que é". Pensa que a reforma agrária, do modo como está sendo feita, é apenas uma maneira de "esconder" a periferia das cidades. Coisa de se pensar... Os monólogos, juntos, formam um discurso polifônico, pontuado pelo trabalho. O vídeo, pouco mais de 28 minutos, traz ainda a alegria do Mestre Piauí com seu boizinho de chita pelas ruas de Quixeramobim e finda com a imagem inicial, do canoeiro no Cedro. O que Peregrina encontrou nestas andanças? "A fricção de um sertão contemporâneo e um sertão arcaico", responde. "E isto não foi prévio, o sertão se apresentou assim", arremata Philipi. Dídimo lembra que este é o piloto para uma série de nove documentários, mais dois no sertão, três no litoral, e outros três na cidade. Todos, pontua Peregrina, sob o signo da travessia, "física, psicológica, afetiva". Porque o sertão não tem tamanho.
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