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No fundo de um quintal em Canindé, seu Antônio Cunha, de 88 anos, faz da matéria que teria modelado Adão, cabeças deformadas de uma comicidade intrigante Pedro Rocha Especial para O POVO Ali está uma coluna acimentada com dois São Francisco incrustados - um pelo meio, outro no topo - olhando para a Igreja que lhe dá as costas, mas nada de desavença, apenas pelo motivo das imagens e a igreja estarem no alto de um morro, em Canindé, olhando a cidade. Por trás dos São Francisco, uma casa. Quando você entra, passa por uma sala que lhe dá acesso a um quintal inclinado, e quando se desce uma escadinha, encontra a verdadeira morada, com fogão, uma varandinha e no dito quintal: um forno de tijolo e barro, para o serviço de queimar um pote, uma cuscuzeira, uma imagem de São Francisco ou essas estranhas cabeças tortas de nariz grande, orelha deformada, olhos esbugalhados e boca que ora tenta gritar, ora é sorriso contido. O professor Gilmar de Carvalho, do curso da Comunicação Social da UFC, chegou ali ano passado e parou quando viu a tal coluna de alvenaria com as duas imagens de São Francisco. Entrou e foi ver quem era o homem que tinha feito aquilo, ainda não escultor, artista ou outras palavras que damos às coisas quando começamos a entendê-las. "Ele começou a dizer que havia potes, panelas, mostrou algumas dessas peças que ele fazia pra vender e também pra usar na casa dele. Disse que um dia resolveu fazer um São Francisco e botou esse São Francisco na porta da casa dele e quebraram a imagem. Então resolveu numa remontagem de São Francisco incrustá-lo na alvenaria.", conta Gilmar. Hão de dizer com propriedade que São Francisco, mesmo de barro e não de gesso, é só o que tem, tanto na Capital como interior. É verdade, sim o é, mas o de Antônio Cunha é diferente, às vezes tem dente... "São Francisco ali rapaz, eu sonhei fazendo ele, aí veio um caba aqui, chegou e disse 'rapaz eu nunca vi São Francisco de dente', mas naturalmente que ele pissuia dente."... Às vezes é só a cabeça, sem pescoço. "Enjoei de fazer os potes que é um bicho pesado. Aí peguei e fui fazendo as cabeças de São Francisco, aí eu disse agora eu vou fazer é de gente mesmo", fala Antônio quando perguntado sobre o início da feitura dessas cabeças. "Eu não posso ver nada, eu tô bem aqui, se eu vejo uma coisa aculá eu vou direitinho fazer, vou bater lá e faço tudo. Essa é um meninozinho que morava ali, era mesmo que tá vendo ele. Ele era até meio abestadinho", fala pegando uma das cabeças. Na fala, informações que às vezes se confundem, dizendo ter começado a trabalhar com o barro há quatro anos apenas, em outro momento dando a entender um tempo maior de experiência. O certo é que aprendeu a fazer louça com uma velhinha de Santa Quitéria, dona Chiquinha Gomes, de uma localidade chamada Lagoa do Mato. Fez panelas, pratos, potes, quartinhas e depois que teve um sonho com São Francisco passou a fazer santos. Também talhou ex-votos em madeira. Mas As cabeças são recentes. Gilmar se impressionou principalmente com elas. Ordinárias, deformadas. Conta que na primeira visita elas ainda tinham pescoço. Já na segunda, Gilmar reparou a falta do pescoço que servia como sustentáculo e que dava melhor visibilidade as peças. Também percebeu maior deformação. O professor aponta que a deformação do nariz principalmente vem sendo construída historicamente como um dos elementos que trazem comicidade. "Quando mais deformada a peça, melhor. E essa deformação claro que não se dá só no nariz, ela se dá também nas orelhas, nos olhos, mas a peça pra fazer rir ela terá que ser deformada", diz Gilmar. Ao segurar uma peça Antônio passa os dedos pelos contornos do nariz, olhos, boca, e revela uma grande satisfação de fazer as cabeças, numa produção que tem muito a ser desvendada, para quem o quiser, mas que tem algo de primordial, de simples, de alguém que faz algo sem saber direito o quê e como. Cunha não domina nem as técnicas de acabamento, nem do controle do forno. Várias de suas peças, principalmente as maiores, quebram ou saem queimadas. 88 anos interados. Nascido em Itatira . Vivido do sertão de Santa Quitéria até Canindé. Lavrador, homem da roça de formação humilde, da fala simples, alguém que sabe que é pouco no meio das coisas, que talvez seja mais íntimo do que temente a Deus, como quem põe a mesa para a ocasião de visita do amigo. Quando acorda às 6 horas da manhã, vem, abre a porta, faz o sinal pra igreja e pra duas imagens que ficam do lado de fora. Confere se não aconteceu nada com elas e entra pra tomar o café. Conta: "Eu tava ali na minha rede, aí a muié me chamou pra eu almoçar, aí eu disse vô já. E ela disse: 'Desata a rede'. Não vou desatar a rede não, quando eu der fé, não sei se eu tô pecando, pode ser que Nosso Senhor vai e se deita nela cansadinho..."
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