Fenneart é vitrine para inclusão social |
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Grupos de artesãos ligados a ONGs vêem na feira uma excelente oportunidade para exibir e vender o que produzem. Em 2005, mais de 150 mil pessoas visitaram os estandes JÚLIA VERAS Especial para o JC Para boa parte da multidão que por dez dias visitará o pavilhão do Centro de Convenções, a Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenneart) é sinônimo de um típico passeio em família com ares de domingo. Quem anda pelos corredores e estandes onde estão expostos os mais variados tipos de artesanato muitas vezes nem imagina a importância da feira para os que estão expondo nos estandes. O evento é uma oportunidade de internacionalização para artesãos consagrados, mas grupos de comunidades carentes e entidades sociais que trabalham com artesanato também aproveitam a visibilidade da feira para firmar o nome e fazer bons negócios nesta sétima edição da Fenneart que desponta como um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina e inclui expositores de outros países como Argentina, Bolívia, Uruguai, Peru, Paraguai, Quênia, Indonésia, Egito, Paquistão e Turquia, além de representantes dos 27 Estados brasileiros. No ano passado, os mais de 156 mil visitantes geraram uma receita de cerca de R$ 16 milhões, entre compras e negócios. Um dos grupos que busca visibilidade e reconhecimento está expondo no estande 254 do pavilhão. Lá os bloquinhos, caixas de presentes e folhas de papel coloridas ostentam a marca Cor do Coque, que dá uma pista de seu local de origem. Os objetos reciclados são fabricados no Neimfa, uma organização não-governamental sediada no Coque, bairro que é símbolo da violência urbana do Recife. O projeto nasceu em 1998, época em que a ONG ofereceu para os jovens da comunidade diversos cursos profissionalizantes. Um deles, o de reciclagem, ensinava a transformar o lixo em artesanato. O resultado dessa empreitada foi tão positivo que o grupo resolveu transformar o curso em cooperativa. Em 2003 o grupo, então batizado de Artesãos da Cidadania, se fortaleceu e começou a receber as primeiras encomendas. A estréia na Fenneart aconteceu no mesmo ano e funcionou como uma vitrine a partir da qual o trabalho do grupo pode transpor os limites do bairro e ser visto por pessoas de toda a cidade. “Participar da feira foi importante porque a partir dela conseguimos, pela primeira vez, fazer uma grande divulgação não só de nosso trabalho como também da comunidade. Quando dizíamos que éramos do Coque as pessoas não acreditavam, pois para elas os nossos produtos não combinavam com a fama negativa do bairro”, explica Joseane Oliveira, 24 anos, orientadora da cooperativa, que hoje contabiliza 18 integrantes. No ano passado o Centro Pernambucano de Design abraçou o projeto. Ofereceu uma assessoria que agregou mais qualidade aos produtos e elaborou uma nova marca, a Cor do Coque. A escolha do novo nome não foi à toa: para os jovens, era importante fazer referência à comunidade, já que a partir do projeto, elevaram a auto-estima e tiveram certeza de que eram mais do que notícias violentas veiculadas nos meios de comunicação. “Queremos mostrar que vamos além do que a maioria das pessoas acham que podemos. Apesar de todos os problemas, o Coque também tem muito o que oferecer”, comenta Vânia Soares, 28 anos, há quatro no grupo. Mais do que simplesmente vender os produtos durante os dez dias de feira, o que eles esperam é fazer da participação uma boa propaganda, já que além das dificuldades o grupo ainda precisa vencer alguns obstáculos, como a limitação geográfica. “Os clientes não tem coragem de entrar no Coque para pegar as encomendas, nós mesmos temos que entregá-las, de ônibus”, comenta Vânia. Para a feira desse ano, o Cor do Coque espera continuar surpreendendo os compradores, não apenas por serem do bairro, mas principalmente pela qualidade dos produtos. “Estamos bem preparados. Criamos novas cores e texturas e a variedade de produtos aumentou. Apesar de na feira não conseguirmos sequer arrecadar o dinheiro investido pela ONG no estande, esperamos voltar todos os anos para a Fenneart, pois apenas a exposição de nossas obras já valoriza nosso trabalho”, explica Joseane. COMÉRCIO SOLIDÁRIO – É com o mesmo objetivo que cerca de 50 grupos de artesãos, em geral oriundos de comunidades carentes, devem expor seus produtos no estande da Ética, uma empresa limitada e sem fins lucrativos dirigida pela ONG Visão Mundial. Adepta do comércio solidário, que combate a exploração do produtor e o uso de mão-de-obra infantil, entre outras prerrogativas, a Ética ajuda a outros 35 parceiros, além dos que já participam da feira, a entrar no mercado, inclusive o internacional. Presépios, peças decorativas em madeira e em papel marchê e bonequinhas de tecido são os produtos que mais fazem sucesso no exterior, publico consumidor que é seduzido pela variedade de cores e criatividade dos artesãos locais. “Em edições anteriores conseguimos vários compradores, inclusive de outros estados. Foi a partir da feira que nossos parceiros fecharam com clientes de peso, como a loja de decorações Tok&Stok, que hoje vende mercadorias de alguns dos nossos parceiros”. Explica Fabiana Dumont, gerente da empresa. Evódia Evangelista, 49 anos, é uma das artesãs que fazem parte do grupo. Oriunda de uma família de artesãos, ela confecciona junto com a família instrumentos musicais de madeira, como berimbau, bangô e maculelê. Os produtos são exportados, via Ética, para outros países, como Holanda e Itália. “Não tenho condições de investir em propaganda, por isso é importante participar da Fenneart a partir do esquema de consignação com a Ética, para tornar meus instrumentos mais conhecidos”, comenta. Já para Graça Albuquerque, coordenadora da Associape, uma associação de artesãos também parceira da Ética, o público precisa valorizar mais o trabalho feito pelos produtores locais. Graça trabalha com miniaturas em crochê, desde de bichinhos até presépios, e exporta a maior parte de sua produção. “É inegável o destaque conseguido a partir da Feneart. Lá eu obtive alguns bons compradores, mas ainda é preciso de mais conscientização de uma parcela do público, que considera o artesanato um trabalho menor. O artesão precisa ser levado a sério”, argumenta.
Espaço gratuito para quem precisa Além de divulgar novos nomes do artesanato local e consolidar artistas de peso, a Fenneart também colabora com instituições que fazem do artesanato uma fonte de renda para projetos sociais. “Eles expõem seus produtos sem pagar o aluguel do estande no espaço Fenearte Solidária”, diz Ângela Cahu, AD Diper, Agência de Desenvolvimento Econômico. É o caso do Nacc, Núcleo de Apoio à Criança com Câncer. Em seu estande são vendidos doces, bijuterias, linhas de cama e mesa, entre outros, que são confeccionados por mães de pacientes e pelos adolescentes assistidos pela entidade. Para Arli Pedrosa, psicóloga oncologista e diretora do núcleo, a feira também é importante na captação de pessoal. “Muita gente passa a nos conhecer a partir desse espaço e acabam se tornando voluntários ou doadores”.A Fundação Altino Ventura, que cuida de pacientes em reabilitação visual, também aposta no grande número de visitantes para conseguir recursos. No ano passado, eles conseguiram apurar cerca de R$ 3 mil, que são investidos em alimentação e estadia para pacientes e acompanhantes da fundação. Para garantir uma boa saída dos produtos, especialmente camisetas, a coordenadora da captação de recursos, Lurdes Arruda, resolveu apostar em produtos mais “sofisticados”. “Geralmente as camisetas de instituições são sem graça, com uma logomarca grande, sem atrativos. Procuramos fazer um produto mais fashion, que o consumidor possa usar até mesmo para sair à noite. Esse é o mote das nossas propagandas estreladas por Pelé e Assíria, espalhadas em outdoors por toda a cidade”.
Artesãos de olho nas oportunidades Artesãos consagrados também precisam da visibilidade da Fenneart em um mercado cada vez mais global. Apontado como um dos maiores mestres artesãos do Estado, o caruarense Manoel Eudócio já representou o artesanato pernambucano em países como França e Portugal. Na Fenneart de 2005 ele conquistou o primeiro lugar do Salão das Artes com o trabalho O casamento da Dona Joana com o doutor, que lhe rendeu prêmio de R$ 5,5 mil. Esse ano Eudócio volta a expor suas obras na Área dos grandes mestres, espaço em que os principais nomes do artesanato estadual expõem suas obras. “Fico feliz com essa homenagem, pois vejo o reconhecimento do meu trabalho”, diz o mestre. O seu filho, Luís Carlos Rodrigues, trabalha com ele na confecção das peças em barro e madeira e na maioria das vezes representa o pai em feiras, como é o caso da Feneart. “Mesmo com a fama do meu pai, viver de artesanato é muito difícil. As vendas e contatos feitos por lá são importantes para nós. O prêmio em dinheiro, por exemplo, serviu como investimento em novas obras”, explica.O mestre Nicola, que trabalha com madeira e pedra, ressalta também a importância do intercâbio estabelecido na feira, já que vários expositores vindos de vários lugares do Brasil e do mundo se encontram na Fenneart . “Conversando com outros expositores consegui boas dicas de como aperfeiçoar meu trabalho. Além disso, trocamos vários contatos para resolver problemas simples, como por exemplo conseguir ferramentas especializadas para a confecção das peças. É importante dividir as experiências com artesãos para tornar a classe mais unida”, diz Nicola. |
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