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Lázaro Ramos dá voz aos negros

O ator baiano Lázaro Ramos

Espelho, que começa hoje às 20 horas no Canal Brasil, terá seis episódios e será apresentado e dirigido pelo ator

Beatriz Coelho Silva

O programa Espelho, que o ator Lázaro Ramos estréia neste sábado, às 20 horas, no Canal Brasil, é um sonho antigo, de quando ele integrava o Bando de Teatro Olodum na Bahia. Na época, o espetáculo Cabaré da Raça fez muito sucesso por mostrar situações cotidianas de preconceito contra os negros, sem tomar uma posição explícita, mas levando todo mundo a pensar. "Este é meu jeito de falar. Encaminho o tema e cada um reflete como achar melhor", conta Lázaro, que acumula as funções de apresentador e diretor dos seis episódios. "Misturamos dramatizações do Bando com entrevistas para falar de autoestima do negro, mercado de trabalho, os problema dos jovens e o negro na mídia."

Ele entende bem do último item. Depois de fazer sucesso em filmes como O Homem que Copiava, Meu Tio Matou um Cara e Madame Satã, Lázaro estreou em novela na Rede Globo e é o primeiro protagonista negro do folhetim brasileiro, vivendo Foguinho, rapaz sem eira nem beira que sobrevive de pequenos golpes e expedientes. Um sucesso! Não por acaso, sua mulher, a atriz Taís Araújo, foi também a primeira protagonista negra de novela, em Da Cor do Pecado, na mesma Globo e com o mesmo autor, João Emanoel Carneiro. Só que, no caso dele, não estava previsto.

"Quando me convidaram, não se falou em protagonismo. Só sabia que era um personagem muito legal, que tento fazer com a maior leveza. Mas ele não é o principal dentro da trama", avisa o ator. Então, qual o segredo do sucesso, se Foguinho está longe de ser bom caráter? "Mas também não é um vilão, porque não busca o mal. Ele só quer ser aceito, amado como todos nós. E faz coisas que queremos fazer, mas não temos coragem. O público o acompanha porque quer saber no que vai resultar suas armações e também porque ele tem sempre um ar perplexo, de quem não sabe bem como e o que acontece ao seu redor."

Há também o carisma de Lázaro Ramos, que dá a seu personagem clima chapliniano, o azarado que dá a volta por cima nas situações mais adversas. E sempre duvida do acerto do que faz, não ensina a ninguém o caminho porque está descobrindo. Nisso, Foguinho se parece com o apresentador e diretor Lázaro Ramos em Espelho. Ele levanta os assuntos, mas não tenta conduzir as entrevistas que faz. "Evitei até usar fichas para a conversa fluir mais espontaneamente", diz. Mesmo quando o tom pesa, ele deixa rolar solto. "É uma forma de não dirigir o entrevistado, deixá-lo à vontade."

Isso não tira o ritmo do programa, pelo contrário. No que vai ao ar hoje, ele entrevista o presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Castro, carinhosamente chamado por ele de Ubiratan Gordo, que fala das minúcias e falácias da democracia racial brasileira. Há ainda o Bando de Teatro Olodum, e o ator Flávio Bauraqui declama poemas escritos por negros. Flávio ainda não estourou nos meios de comunicação como Lázaro, mas já mostrou seu talento em vários musicais no Rio, inclusive vivendo Cartola e Grande Otelo. Ele falará da atualíssima Eliza Lucinda ao simbolista Cruz e Souza.

Aí surge a questão. Num país mestiço como o Brasil, como definir que poeta é negro? "Lázaro escolheu os que se assumem como tal", conta Flávio, que adorou a oportunidade de dizer textos na televisão. Lázaro vai além. Primeiro, sai na rua perguntando às pessoas que encontra se elas se consideram negras. As respostas são surpreendentes. "Na verdade, todo mundo é um pouco negro, mas as pessoas de pele mais escura tem menos privilégios", define, adiantando que já sofreu com o preconceito. Hoje, famoso e bem sucedido, este tipo de agressão quase não acontece. "A não ser quando querem me ofender. Mas não me machuca mais. Ou melhor, machuca sim, mas eu já sei como responder."

São estas as questões presentes em Espelho, que terá programas novos aos sábados e reprises no domingo, às 13 horas, e às segundas, às 7 horas. No próximo, ele conversa com MV Bill, sobre o do jovem negro e favelado, com quem o rapper convive na Central Única das Favelas (Cufa) e outros trabalhos sociais que desenvolve. A atriz Ruth de Souza fala sobre a questão do negro na ficção e na publicidade dos meios de comunicação e os grupos Companhia dos Comuns e Olodum, ambos baianos, dramatizam temas. No último programa, o presidente da Biblioteca Nacional, o professor Muniz Sodré, negro e baiano como Lázaro, fala sobre a questão da autoestima.

A vontade de Lázaro é não esgotar o assunto nessa meia dúzia de edições de Espelho, apesar de ele ter condensado os temas das 23 edições previstas. Uma vez no ar, ele espera despertar novos debates. E suas ambições são grandes. "Quando buscava financiamento para o programa, alguém disse que era ideal para a tevê paga. Eu discordo. Acho que este programa é para a televisão aberta, para todo mundo ver e discutir até cansar a questão do negro no Brasil."

(SERVIÇO)Espelho. Canal Brasil/ NET/ SKY e 79 na TV A. Sáb., 20h

(© Agência Estado)


 


Lázaro Ramos se olha no "Espelho"

Silvia Costanti/Folha Imagem
O ator Lázaro Ramos apresentará "Espelho", no Canal Brasil

Ator estréia hoje no Canal Brasil direção de programa em torno da questão racial; "É a discussão da nossa identidade", diz

Como Foguinho, sensação da novela das 7, ele se confirma como estrela, atrai beijo de fã "macho" na rua e diz que "carinho não dá para rejeitar"

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

Na hora de escolher sua profissão, Lázaro Ramos não teve dúvidas de que queria ser ator. Mas temeu ser o homem certo no país errado. Afinal, "o mercado de trabalho no Brasil é restrito para a quantidade de talentos que temos. Mais restrito ainda para um ator negro".

Era 1992, e Ramos decidiu então agir como intérprete de si mesmo. "Fingi que queria fazer o curso de técnico em patologia." E fez, num colégio da capital baiana, onde nasceu, que oferecia curso livre de teatro aos alunos da formação técnica.

Na semana passada, no Rio, distante 14 anos e 1.649 quilômetros daquela decisão tomada em Salvador, Ramos protagonizou a cena que o confirma, mais do que como ator, como uma grande estrela na constelação do país. "Um cara, homem, macho, forte, chegou para mim e disse: "Tira uma foto comigo?" Na hora de tirar a foto, ele me abraçou bem forte e começou a me dar uns beijos no rosto, dizendo: "Pô, cara, eu gosto de você". Fiquei até constrangido, mas é uma reação que o personagem provoca e não dá para rejeitar, porque carinho é sempre bom."

Carente

O personagem que estendeu à audiência da TV um sucesso que Ramos já havia consolidado no teatro ("A Máquina") e no cinema (com mais de uma dezena de filmes) é Foguinho, herói à Macunaíma, para quem o ator inventou um bigode loiro, como "símbolo visual" da principal característica emocional do personagem: "Ele é carente e precisa de atenção".

Daí para as abordagens efusivas de fãs na rua foi só um passo. "Fico muito feliz por, em cada momento, ser confundido com o personagem, que é o sonho de todo ator. Em "Madame Satã", muita gente achava que eu era gay; em "O Homem que Copiava" me acharam tímido; no "Cidade Baixa" me acharam um homem viril; e, com o Foguinho, as pessoas me tratam como se eu fosse um filho que querem pôr no colo", afirma.

A partir de hoje, Ramos quer ser visto também como diretor, do programa "Espelho", em seis episódios que o Canal Brasil leva ao ar, abordando aspectos da raça negra no país.

Debates

"O diretor tem essa possibilidade a mais que o ator, de propor debates", diz Ramos. Mas o debate de "Espelhos", afirma, não diz respeito só ao seu diretor. "Esta discussão tem de ser de todo cidadão brasileiro. Negro, branco, índio, japonês. É a discussão da nossa identidade, da nossa busca pela cidadania".

Em cada programa, Ramos entremeia entrevistas com esquetes feitos pelos atores do Bando de Teatro Olodum, grupo que ele integra desde 1994. "Não me deslumbro com a minha profissão. Meu objetivo não é ser celebridade. É me comunicar com as pessoas. Se quisesse, estaria milionário, fazendo coisas que não me dissessem nada. Mas busco me manter fiel ao que o Bando de Teatro Olodum me ensinou."

Ator do Bando, Ramos foi alcançado pelo cinema na Bahia. Depois de uma ponta em "Jenipapo" (1995), de Monique Gardenberg -com quem voltou a trabalhar neste ano, no inédito "Opaió"-, ganhou um papel e um bom cachê em "Cinderela Baiana" (sim, o de Carla Perez). "Foi o que me possibilitou abandonar meu emprego, para seguir somente a carreira de ator." Veio então a montagem de "A Máquina" (João Falcão), em que Ramos dividia o palco com Wagner Moura, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão. "Vários diretores de cinema começaram a assistir a peça e a chamar a gente para testes. E a gente começou a passar nos testes", lembra. Decidido a dirigir um longa, Ramos inverterá os papéis e testará atores para um filme seu. Mas sem pressa. "Estou indo no meu tempo. Este filme virá no tempo que tiver que vir. Quando eu estiver pronto, eu o farei", diz.

ESPELHO Quando: hoje, às 20h
Onde: Canal Brasil

(© Folha de S. Paulo)

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