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Um poema escrito com as entranhas

O poeta Ferreira Gullar: "Muitos intelectuais ficaram com o pincel na mão" (Foto: Eduardo Knapp/Folha Imagem)

O poeta maranhense Ferreira Gullar

Há 30 anos, Ferreira Gullar publicava Poema sujo, escrito no exílio, durante as ditaturas do Brasil e Argentina. Marco da literatura brasileira, ganha agora nova edição com CD

SCHNEIDER CARPEGGIANI

Sujo. Esse não é o atributo que, pelo senso-comum, deveria ser atribuído à uma obra poética. Mas foi com o título Poema sujo que o maranhense Ferreira Gullar montou uma das obras mais fortes da literatura brasileira contemporânea, em que contexto social, subversão política, excrementos e suor se misturam numa alquimia radical. A obra-prima de um autor que navegou por quase todas possibilidades da escrita completa agora 30 anos e ganha nova edição. O livro chega às livrarias a tempo de marcar a participação de Gullar na Festa Literária Internacional de Parati, em agosto, e vem acompanhado por um CD, onde o poeta narra a trajetória do seu personagem, um “bicho que fabrica e vem sonhando desde as entranhas.”

Poema sujo foi escrito sob o signo do exílio, condição que perseguiu Gullar nos anos 70, em que a ditadura militar deixou a produção intelectual do Brasil (e não só ela) num estado de sítio aparentemente sem-fim. Depois de se exilar em Moscou e Lima, o poeta chega a Buenos Aires em 1975, e durante boa parte desse ano se debruça na produção de Poema sujo, enquanto leciona português para se sustentar.

Em novembro do mesmo ano, Gullar promove uma leitura do seu novo trabalho na casa de Augusto Boal, na capital portenha, para um grupo de amigos. Entre eles, Vinícius de Moraes, que grava a sessão e traz a fita na bagagem de volta para o Rio de Janeiro, onde ela começa a circular nos meios intelectuais. Começa assim uma lenda. O livro é publicado no ano seguinte e vira um dos símbolos do desejo do brasileiro por liberdade.

Segundo o poeta, membro da Academia Brasileira e fã incondicional de Gullar, Antonio Carlos Secchin, Poema sujo é um vertiginoso depoimento de um artista prestando contas a si mesmo e a seu tempo. “No Poema sujo se concentra, em dimensão superlativa, o melhor da poesia de Gullar. Do ponto de vista formal, a inventividade metafórica num estágio torrencial, a variedade rítmica, a sábia mescla lexical entre os estilos elevado e vulgar, os cortes cinematográficos, a magia sonora das aliterações e das onomatopéias, as voluntárias inserções do ‘prosaico’ como controle do sublimemente ‘poético’”, explicou Secchin em entrevista ao JC.

“Do ponto de vista semântico, a motivação inicial do poema foi o desejo do poeta exilado de criar um texto visceral e radical a partir da reconstituição de sua infância em São Luís e que atravessasse, com a explosiva ausência de lógica” da poesia, toda a experiência de sua vida.”, continua Secchin.

Para o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, “na década de 70, quando apareceu o Poema sujo havia, em todo o País, poetas que estavam deixando a métrica por um verso livre mais urbano, mais confessional, mais satírico. O poema de Gullar fez o que geralmente fazem os grandes poemas: catalisa as tendências ocultas de sua época. Infelizmente, estamos no Brasil, e não nos Estados Unidos, onde as coisas que acontecem lá acontecem no mundo. É o caso de Allen Ginsberg, com seu poema Howl, e de T.S. Eliot, com The waste land.”

Na opinião de outro poeta pernambucano, Fábio Andrade, o texto de Gullar chama atenção por teorizar o corpo – “O Poema sujo é um marco da intromissão do corpo na linguagem poética. Corpo que significaria um mergulho na realidade mais imediata, no momento presente, no agora – pois não há presente mais intenso que o do corpo. Isso, porém, não impede que Gullar transforme essa ‘impureza’ num concerto polifônico por onde se expressam, no corpo que se faz forma e tema, o corpo social, que o poeta parece querer afirmar ser indissociável de nosso outro, aquele que pensamos ser o nosso.”

Poema sujo completa suas três décadas em meio à expectativa de Gullar lançar um novo livro, que, assim como costuma ocorrer com o resto da sua mutante obra, a reinvenção da própria poesia é a única certeza.

(© JC Online)


 


Poema sujo é experiência irrepetível

De acordo com a assessoria de imprensa da editora de Ferreira Gullar, a José Olympio, o autor não estaria num momento de “conceder entrevistas”. Com exceção de um livro infantil, há seis anos que o poeta não lança mais nada inédito. Apesar da decisão de não falar com a imprensa, um dos principais convidados da próxima edição da Festa Literária Internacional de Parati, que acontece no próximo mês, no litoral do Rio de Janeiro, aceitou conversar com a reportagem do Jornal do Commercio. Nessa entrevista, Gullar relembrou os momentos de publicação de Poema sujo, falou do seu próximo projeto literário e explicou quando ele sabe que é hora de “abandonar” um livro.

JORNAL DO COMMERCIO – Poema sujo foi escrito durante seu exílio em Buenos Aires. Para o senhor, a experiência do exílio, da distância, traria algum ingrediente diferente para a literatura?

FERREIRA GULLAR – O Poema sujo não é um poema do exílio, não é esse o seu tema mas, certamente, se não fossem aquelas circunstâncias em que me encontrava então, talvez nunca o tivesse escrito.

 

JC – O Poema sujo em diversos momentos mostra uma fixação pelo corpo humano, como se esse fosse um instrumento para se desvendar a realidade. Seria correto pensar assim?

FG – A presença do corpo é freqüente em minha poesia, desde o começo. Sem dúvida, se somos o que pensamos e sonhamos, somos também nosso corpo e é através dele que apreendemos a realidade. Em alguns poetas ele está menos presente, noutros mais, como é o meu caso.

 

JC – A primeira coisa que chama atenção nesse seu trabalho é a palavra “sujo” como título. O curioso é que, podemos dizer, no senso-comum sobre poesia, essa não é a primeira palavra que vem à cabeça. Como o senhor explica o “sujo” do título?

FG – Não refleti muito para por esse nome no poema, pois ele surgiu logo ao começar a escrevê-lo, o que é raro em mim. Sem dúvida, a palavra “sujo” situa o poema no pólo oposto a uma poesia desligada da realidade material e precária da existência. Depois, quando me perguntaram por que aquele nome, procurei entender e respondi que a palavra sujo correspondia a três condições presentes no poema: a sexualidade, a miséria brasileira e a rejeição ao formalismo.

 

JC – O Poema sujo foi uma das bandeiras por democracia nos anos 70. Para o senhor, essa é uma obra que está presa àquela época ou ela teria algum outro significado hoje em dia?

FG – O Poema Sujo não é um poema político nem um poema de circunstância. Ele trata, na verdade, da questão existencial, do resgate do vivido, da complexidade das idéias e da natureza e talvez por isso tenha sido traduzido em tantas línguas e editado em países que nada têm a ver com a situação brasileira daquela época. Agora mesmo, foi lançada em Paris a tradução para o francês. Isso parece indicar que ele fala a todas as pessoas, independente do momento e do lugar.

 

JC – Quais são suas lembranças da época de lançamento de Poema sujo? Em algum momento durante o processo de produção do poema, passou pela sua cabeça que essa seria uma obra maior sua?

FG – Quando me dispus a escrevê-lo sabia que seria um poema longo, uma espécie de soma de todo o vivido, porque me encontrava ameaçado pela ditadura argentina e temia desaparecer como outros exilados haviam desaparecido. Mas não me passou pela cabeça que estava escrevendo a obra fundamental de minha vida, como muita gente diz que é. De fato, escrevê-lo foi uma longa viagem, que durou sete meses, durante os quais sentia-me tocado pela magia da poesia. Foi uma experiência única, irrepetível certamente.

 

JC – A nova edição de Poema sujo vem acompanhada de uma gravação sua do poema. Como é para o senhor ler um texto seu, você chega a estranhar algum texto antigo seu?

FG – Não tenho qualquer problema em dizer meus poemas. Neste caso, a gravação foi feita para um documentário produzido pelo Instituto Moreira Salles, que a cedeu à Editora José Olympio.

 

JC – Numa entrevista recente, o senhor citou a frase de um amigo que dizia “Não dá para fazer revolução no Brasil, porque no Brasil todo mundo é revolucionário e progressista. Não há contra quem lutar.” O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso?

FG – O que ele quis dizer foi que, no Brasil, quase nada é sério, especialmente a questão social e política. Todo mundo se faz de bacana, de progressista, de revolucionário. Quase ninguém assume que é conservador. Essa hipocrisia está presente em quase tudo, no Brasil, até mesmo nas leis, que são as mais liberais do mundo, porque nós temos de posar de avançados e e progressistas.

 

JC – Ano passado, o senhor publicou seu primeiro livro infantil, Dr. Urubu e outras histórias, o que lhe motivou para um projeto assim?

FV – Não costumo planejar as coisas e muito menos meus poemas. Escrevi esse livro porque tinha que ir a São Paulo, de carro, todos os meses. Cinco horas e meia para ir e outras tantas, para voltar. Aproveitei esse tempo para escrever os poemas. Mas não sou um especialista em literatura infantil.

 

JC – O senhor está escrevendo mais um livro. Existe alguma abordagem específica nessa obra, algum tema em especial que lhe interessou?

FG – Não vou publicar um novo livro de poemas este ano. Como sempre, poesia, escrevo pouco e por isso demoro muito a publicar um livro novo. Faz sete anos que lancei o meu último livro de poemas, Muitas vozes, o qual foi publicado depois de 12 anos do livro anterior. Quando considerar que o novo livro está pronto, o lançarei. Ainda vai demorar um pouco.

 

JC – Qual é o momento em que o senhor decide que está na hora de publicar um livro?

FG – O livro me diz que está pronto.

 

JC – Num dos seus poemas mais famosos, o senhor escreveu que “Como dois e dois são quatro/ sei que a vida vale a pena/ embora o pão seja caro/ e a liberdade pequena”. Em que a vida valeria mais a pena para o senhor hoje?

FG – A vida é tudo o que temos. Não é fácil viver, muito menos num país como nosso, injusto, desigual e com tanta corrupção e violência. Mas, ainda assim, vale a pena viver, sem desistir de tentar mudar a vida para melhor. O sentido da vida é o outro.

(© JC Online)

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