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O enciclopedista da cultura brasileira

Agência Estado
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Câmara Cascudo: esforço para desvendar as raízes étnicas do Brasil

Há exatos 20 anos, morria o pesquisador Luís da Câmara Cascudo. Filho único de uma família tradicional do Rio Grande do Norte, ele surpreendeu amigos e familiares quando negou-se a enveredar por uma esperada carreira política. Ao invés disso, Cascudo preferiu se dedicar a uma carreira intelectual que rendeu a publicação de quase 170 livros e uma vasta documentação de saberes e práticas da cultura brasileira. Com contribuições reconhecidas para o folclore, a antropologia, a sociologia, a história social - dentre outras áreas -, a obra do intelectual potiguar mantém um grande círculo de admiradores e reafirma sua importância diante de críticas que a dizem ultrapassada. Nesta edição, o Caderno 3 passa a limpo a contribuição de Cascudo para compreender a cultura brasileira

Dellano Rios

Quando o assunto é Brasil, a enxurrada de clichês é das maiores. É “tupiniquim” pra cá, “país continental” pra lá, passando pela falácia da “união das três raças” e outras besteiras do gênero. Esquivando-se dos reducionismos e das generalizações, o antropólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo dedicou a maior parte de sua vida a compreender as minúcias e pluralidades deste país que, apesar de ser - de fato - de dimensões continentais, permanece pouco conhecido.

Antropólogo, etnógrafo, folclorista, literato e mais uma série de definições que encontraram espaço nas cerca de 150 obras produzidas. Câmara Cascudo transitou por diversas áreas. Sua obra abrangeu de ensaios sobre culinária a levantamentos sobre a diversidade dos insetos encontrados no Brasil; da coleta de histórias e contos populares a observações do cotidiano de jangadeiros e vaqueiros.

Fascinado pela terra onde nasceu - e onde viria a morrer - o Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo foi quem melhor definiu a curiosidade e inquietação que movimentou sua obra. “Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade”, escreveu no jornal potiguar “A Província”, em 1973, numa edição comemorativa que registrou a passagem de seus setenta anos de idade e cinqüenta de atividade literária.

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1898 e faleceu na mesma cidade, em 1986. Filho único do casal Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Anna da Câmara Cascudo, ele nasceu em uma das famílias mais tradicionais do Estado. Desde cedo, Cascudo mostrou inclinações para as atividades intelectuais. Contrariando as expectativas, não seguiu os passos políticos da família (o que não o impediu de ser membro destacado e chefe regional da Ação Integralista Brasileira - AIB, partido político de inspiração fascista).

A trajetória intelectual impressiona: publicou seu primeiro livro com apenas 23 anos, “Alma Patrícia” (1921), um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores e poetas, norte-rio-grandenses ou radicados no Estado; em 1922, aprendeu a língua inglesa, para acompanhar os viajantes pela África e Ásia; e seguiu produzindo obras originais e traduções, como a do clássico livro “Travels in Brazil”, do viajante inglês Henry Koster. Rebatizado por Cascudo como “Viagens ao Nordeste do Brasil”, a obra é uma das mais valiosas para o conhecimento e interpretação do Brasil do início do século XIX.

Na década de 1920, Câmara Cascudo passou pela Faculdade de Medicina da Bahia (curso que deixou incompleto) e pela Faculdade de Direito do Recife, curso que concluiu em 1928. Neste mesmo ano, o escritor também concluiu o curso de Etnografia, na Faculdade de Filosofia, do Rio Grande do Norte, onde encontraria sua estrada acadêmica de fé.

Chegou a ser professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito do Recife, e de Etnologia Geral, na Faculdade de Filosofia, em Natal. Entretanto, ganhou fama em todo o país pelos estudos que desenvolveu nos mais variados assuntos.

(© Diário do Nordeste)


 


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Com Mário de Andrade, amizade e convivência intelectual de igual para igual
 

ESPECIAL

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Nos 20 anos da morte de Luís da Câmara Cascudo, o pesquisador Gilmar de Carvalho - uma das principais referências nos estudos das culturas tradicionais nordestinas - revisita a vasta obra do antropólogo. No artigo, Carvalho fala da atualidade das contribuições de Cascudo para os estudos das tradições brasileiras e o diálogo travado com o outro expoente do mapeamento de nossa cultura, o modernista Mário de Andrade

Gilmar de Carvalho*
especial para o Caderno 3

Vinte anos depois, pode-se avaliar a crescente importância de Cascudo.

Do alto de seu saber enciclopédico, o potiguar antecipou-se ao recusar sair de sua Natal para fazer o Sul e ganhar fama como muitos conterrâneos velhos de guerra.

Ficou mesmo aqui, enfrentando preconceitos que ainda perduram. Não era a fama que ele perseguia, mas um projeto de uma vida inteira.

Sua produção está aí para mostrar sua disciplina e sua competência.

 
 
 
 
 

Difícil abarcar Cascudo em um único texto, tão polifônico ele foi.

Tido como folclorista, numa tentativa de depreciá-lo, ele foi muito além. Pode-se pensar no etnólogo de olhar atento, no antropólogo a seu modo, dialogando com os grandes do seu tempo, de igual para igual e sem cair na produção maneirista que se acha acadêmica porque elege gurus e segue modismos.

Cascudo foi muito além da nota de rodapé e da citação ornamental.

Foi fundo.

Pode-se dizer que começou “errado”, com sua volumosa “História de Natal”.

Mas corrigiu o rumo, por sugestão de Mário de Andrade.

Se tinha tudo aquilo a seu lado, se tinha tanta sensibilidade para compreender a “voz rouca” das ruas e o cheiro do povo, por que não fazê-lo?

A relação entre Mário e Cascudo merece uma reflexão mais funda.

Eram iguais, intelectuais do mesmo nível, com a mesma competência e a mesma determinação de virar esse país pelo avesso, buscar raízes e mergulhar nas tradições que outros achavam índice de atraso, da construção de estereótipos estado-novistas ou de uma ideologia nacionalista.

Eles estão aí.

Mário fez a longa viagem país adentro. Parecida com a viagem de Prestes, com estratégias diferentes e o mesmo objetivo de conhecer o Brasil profundo.

Cascudo ficou fazendo voltas em torno do coração selvagem do sertão.

Pouco cosmopolita? Pois sim...

E o que dizer de pesquisas que cruzavam o Atlântico, quando não havia internet.

Hoje, tudo parece tão fácil. Não era.

Cascudo hospedou Mário. A correspondência entre os dois é leitura obrigatória para quem quer compreender uma parte importante da história das idéias no Brasil.

“Viagem pelo Sertão”, de 1934, mostra um Cascudo que começava a abrir um leque de possibilidades de recolhas, anotações e reflexões sobre coisas aparentemente pequenas ou banais. Sua grandeza vem daí.

Quem se aventuraria a pensar sobre a rede de dormir, a cachaça, nossos gestos, a jangada, a carnaúba. Eram temas prosaicos demais para merecerem o rótulo de acadêmicos.

Ele estava pouco preocupado com a chancela “uspiana”.

Queria dar conta de seu recado. E o fez como ninguém.

Somos todos devedores de suas anotações cuidadosas, de sua sensibilidade ao estabelecer nexos, propor vínculos e deixar uma “obra”, na acepção mais completa do termo. Cascudo não foi autor genial de um livro só. Vale pelo conjunto da obra, que nos dá uma idéia (vaga) da disciplina monástica, da montagem de um grande quebra-cabeça intelectual. Devemos a ele este puzzle, esta colcha de retalhos, onde cada peça dialoga com a próxima e assim por diante.

Rigoroso, cientificava-se de tudo o que escrevia. Não tinha a leviandade da proposição não fundamentada. Seu texto é claro. Sua argumentação é lógica. Tudo se encaixa e faz sentido.

Claro que não somos obrigados a concordar com tudo o que ele disse ou fez.

Ele nunca deve ter pretendido ser essa unanimidade.

Pode-se discordar de sua avaliação precipitada de que o beato José Lourenço, do Caldeirão, era um “negro lascivo”. Esse era o discurso policial adotado pela ditadura varguista.

Como “bom” integralista, Cascudo tinha sua camisa de “galinha verde”, mas não foi tão longe como Gustavo Barroso, com seu anti-semitismo militante.

Aliás, ficou fácil alinhar estudos da tradição com uma visão conservadora.

Grande parte dos estudiosos era de “direita”, quando ainda existia a possibilidade da utopia e da visão do mundo generosa e renovada (claro que não falo de Stalin ou do realismo socialista).

Mas é importante se falar nisso, sem que configure “patrulhamento ideológico”, como se defendem alguns.

Hoje, quando o foco se ajusta, quando são valiosos documentos como os de Cascudo e Mário; o Itaú Cultural faz seu mapeamento; o grupo Caxuêra! grava discos e DVDs; a Bahia lança seu “Singular e Plural”; o entorno de Brasília é redescoberto por Roberto Correia; a revista RAIZ renova o repertório da grande imprensa e o Brasil não se envergonha (tanto) de sua periferia ou de seus grotões.

Por trás disso tudo está Cascudo, trancafiado em seu escritório, minucioso e abrangente, cantando sua “aldeia” e falando deste mundo vasto mundo.

Quando se fala tanto em “globalização” (que outros preferem “mundialização”, em termos de cultura) é hora de agradecer à contribuição de Cascudo, chamar a atenção para o que ele fez e nos deixou para fazer.

Mais do que um necrológio, pelos seus vinte anos de morte, seria a vez de partir do que ele fez para superá-lo, com outros referenciais teóricos (a Semiótica da Cultura, por exemplo), afinados com a quebra dos paradigmas, a contemporaneidade e um rigor que não prescinde da emoção.

Ele também se antecipou à idéia da hibridação, negou a cultura “autêntica, genuína e de raiz” e compreendeu os trânsitos, a dinâmica e o processo que nos faz mais ricos e humanos.

Cascudo é tudo isso e esse prazer do texto, essa aventura da descoberta, esse anseio de devorar cada página como se fosse a única, a última ou um “farte” comido no final de uma tarde sobralense, cuja receita, árabe, veio nas caravelas de Cabral e aqui ganhou o auxílio luxuoso da “farinha de pau” da tradição indígena e as mãos das mucamas nessa mistura fina que se chama, apesar de tudo, Brasil.

* O autor é pesquisador e professor do curso de Comunicação Social da UFC.

(© Diário do Nordeste)


 
 
 

UM PROVINCIANO INCURÁVEL

Literatura para ficar na memória

 

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Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) certa vez se definiu como “um provinciano incurável”. O fascínio pela terra onde nasceu e morreu, o Rio Grande do Norte, não abandonou o estudioso, mesmo após ter travado contatos com outras culturas - algumas longínquas, encravadas no continente africano. O erudito manteve o respeito e a curiosidade pelos costumes, gestos e arte de personagens anônimos: vaqueiros, jangadeiros, rendeiras, violeiros, cantadores, cozinheiras. Mas foram sobretudo as histórias que essas pessoas contavam que tanto encantaram Câmara Cascudo. Direta ou indiretamente, as narrativas foram os ingredientes que possibilitaram a escrita de obras clássicas, como “Antologia do Folclore Brasileiro”, “Lendas brasileiras” e “Literatura oral no Brasil”. Da introdução deste último, retiramos o texto que você lê abaixo. Com uma entonação lírica, Câmara Cascudo percorre os caminhos da memória e fala da literatura oral e do meio onde ela foi (e continua sendo) produ

 
 
 
 
 

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Luís da Câmara Cascudo
(1898-1986)

Todos os anos vividos no alto sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba foram cursos naturais de Literatura Oral. Tive a revelação de meu scholarship quando estudei na cidade a outra literatura, livros, livros, livros, escolas, diagramas, influências, mestres, críticas, resumos. A vida nas povoações e fazendas era setecentista nas duas primeiras décadas do século XX. A organização do trabalho, o horário das refeições, as roupas de casa, o vocabulário comum, os temperos e os condutos alimentares, as bebidas, as festas, a criação de gado dominadora, as superstições, assombros, rezas-fortes estavam numa distância de duzentos anos para o plano atual. Os plantios de algodão multiplicar-se-iam mais tarde, derrubando os raros capões, as oiticicas, juazeiros verdes, sombras das malhadas, arranchos de comboios esperando o pender do sol na queda da viração da tarde. O fazendeiro só faltava mandar

 
 
 
 
 

nas estrelas e nos xéxeus, longes umas e alvoroçados outros para respeitar o brado autoritário. O gado era, 99%, gado crioulo, local e nativo, entendendo a monodia do aboio, gostando de negaciar a “bassôra” à mão firme dos derrubadores nas tardes de vaquejada. A instituição do compadrio era uma potência, determinando o vínculo obrigacional sagrado entre o compadre rico e o compadre pobre, mandando o primeiro armar os acostados e ir assaltar a cadeia da vila para arrancar das grades o segundo e tornando este, pela simples enunciação do título, um servo jubiloso, vitalício e gratuito, do primeiro.

Os livros eram raros nas fazendas. Raríssimo o livro de reza e mais ou menos fácil o de deleite, Carlos Magno e os Doze Pares de França e mais a biblioteca que registrei no Vaqueiros e Cantadores, em 1939. Não havia casamento sem os vivas protocolares e sem a louvação dos cantadores, de violas enfeitadas de fitas, empinando o braço e depondo os instrumentos aos pés dos noivos confusos, t

 
 
 
 
 

alqualmente sucedera nas bodas de Cid el Campeador. Os ditados, provérbios, frases-feitas eram moeda corrente no comércio diário familiar. Recorriam aos exemplos sacros e aos reparos dos antepassados: - como dizia meu avô: um gambá cheira o outro... E as imagens expressivas: - dar nó em pingo d’água, comprida como paciência de pobre, boca aberta como sino. O caçados vivia da boca de uma espingarda. O pescador vivia da vontade dos peixes. Depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa, filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Café e poranduba. Não havia diálogo mas uma exposição. Histórico do dia, assuntos do gado, desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro, queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes, tempo da guerra do Paraguai, cangaceiros, cantadores, furtos de moça, desabafos de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia seguinte.

Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas não há criatura vivente para contar uma estória. Seriam temas para pesquisas sábias de alemães e norte-americanos essa linguagem auxiliar, indispensável nos “primitivos” de todos os tempos, Gebärdensprache, manual concepts, variações de timbres, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando visões de vôo, pompa, ferocidade, alegria, Lautbilder. Os contos tinham divisões, gêneros, espécies, tipos, iam às adivinhações, aos trava-línguas, mnemonias, parlendas. Ia eu ouvindo e aprendendo. Não tinha conhecimento anterior para estabelecer confronto nem subalternizar uma das atividades em serviço da outra. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura. Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e vizinhanças, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra vida.

Voltando a Natal, fui para o curso secundário e pude ver a diferença entre as duas literaturas, ambas ricas, antigas, profundas, interdependentes e ignorando as pontas comunicantes. Inconscientemente confrontava ritmos e gêneros, as exigências do dogma do culto e a praxe dos cantadores sertanejos, setissílabos, décimas, pé-quebrado, a ciência do “desafio”. Todas as leituras subseqüentes foram elementos de comparação.

Compreendera a existência da Literatura Oral brasileira onde eu mesmo era um depoimento testemunhal. Voltava carregado de folhetos de cantadores, centos de versos na memória, lembrança dos romances reeditados há tantos cem anos, vivos no espírito de milhões de homens e jamais citados nas histórias registradoras das atividades literárias do Brasil. Na biblioteca paterna fui encontrando outras formas e espécies da mesma substância que vira no sertão velho. E verifiquei a unidade radicular dessas florestas separadas e orgulhosas em sua independência exterior.

* O texto está disponível no livro “Literatura Oral no Brasil” - Global Editora, 488 pp., R$ 65,00).

(© Diário do Nordeste)


COLEÇÃO CÂMARA CASCUDO

Bibliografia revisitada

Autor de estudos clássicos sobre as culturas populares de grande parte do território brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo viu seu nome se tornar sinônimo de folclore. De fato, o estudioso contribuiu para o levantamento dos “saberes do povo”, em obras referenciais como “Dicionário do Folclore Brasileiro” e “Antologia do Folclore Brasileiro”. Assim, não foi de se estranhar quando os estudos de Câmara Cascudo enfrentaram um período de recessão no meio acadêmico. Nas últimas décadas, prevaleceram as teorias antropológicas que vêem a cultura como um fenômeno dinâmico e, em conseqüência, a idéia de folclore entrou em declínio nas ciências sociais

Independente do lugar que a academia lhe conferiu - e das limitações que possui -, a obra de Cascudo não chegou a sair de cena após a morte do autor. Estudos críticos revisaram a obra, a figura do próprio pesquisador ganhou biografias e seminários foram realizados para discutir seu legado. Como não poderia deixar de ser, os livros também voltaram às prateleiras.

Desde o final de 2000, a editora paulista Global tem se dedicado a colocar no mercado os principais títulos publicados por Câmara Cascudo. Ao todo, a editora já lançou 25 livros, uma pequena amostra da bibliografia do escritor potiguar, que contabiliza uma marca incerta (nem o próprio Cascudo sabia exatamente quantos livros havia publicado). O certo é que o número gira em torno de 130 e pode chegar a 150, se contarmos traduções e edições comentadas. Pelo menos outras 10 obras permanecem inéditas.

As obras estão divididas em duas linhas: uma que reúne os principais estudos do folclorista e outra que transporta alguns dos contos por ele coletados para o universo da literatura infantil.

A primeira conta com 19 livros já publicados. Estão disponíveis no catálogo da editora: os dois volumes de “Antologia do folclore brasileiro”, “Canto de muro”, “Civilização e cultura”, “Contos tradicionais do Brasil”, “Dicionário do folclore brasileiro”, “Geografia dos mitos brasileiros”, “História da alimentação do Brasil”, “História dos nossos gestos”, “angada: uma pesquisa etnográfica”, “Lendas brasileiras”, “Literatura oral no Brasil”, Locuções tradicionais no Brasil”, “Made in Africa”, “Mouros, franceses e judeus - Três presenças no Brasil”, “Prelúdio da Cachaça”, “Rede de dormir - uma pesquisa etnográfica”, “Superstição no Brasil” e “Vaqueiros e cantadores”.

Na segunda linha, que reúne histórias ilustradas publicadas nas antologias de literatura e contos populares, foram publicados: “A princesa de Bambuluá”, “Couro de piolho”, “Facécias”, “Maria Gomes”, “O marido da mãe d´água / A princesa e o gigante” e “O papagaio real”.

A editora ainda divulgou os quatro próximos títulos da Coleção Câmara Cascudo - “Antologia da religião no Brasil”, “Coisas que o povo diz”, “Religião do povo” e “Viajando o sertão”. Os livros devem chegar as livrarias até o início de 2007. Atualmente, a Global negocia com os detentores dos direitos da obra a publicação de outras obras.

SERVIÇO: ´Coleção Câmara Cascudo” - 25 volumes lançados pela editora Global. Confira o catálogo completo das obras de Câmara Cascudo disponíveis no mercado no site da editora, www.globaleditora.com.br
 

(© Diário do Nordeste)


 
 
 
 

CÂMARA CASCUDO

Vaquejadas e apartações

Na literatura colonial não há registro das “Vaquejadas” como as conhecemos no Nordeste brasileiro. Viajantes, mercadores, naturalistas, aventureiros, traficantes de escravos, todos quantos deixaram impressões sobre o Brasil dos séculos XVII e XVIII e princípios do XIX, assistiram festas imemoráveis mas nenhuma parecia com as nossas “apartações” e derrubadas de gado. Como em Portugal, especialmente durante o século XVIII, as touradas dominam, veio o costume para o Brasil mas não se aclimatou no Norte.

Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro “corria-se” o touro, com farpas ou aguilhão. Assim Saint-Hilaire viu no Rio Grande do Sul, La Barbinais na Bahia, o príncipe de Wied-Neuwied nas fronteiras baianas-mineiras. A “cavalhada” paulista e mineira, tão comum nas festas espaventosas de nascimento real ou comemoração de predicamento municipal, limitava-se à “corrida da argolinha” como em Portugal. Depois seguiam-se provas de destreza, apanhar objetos no solo na disparada da galopada, quadrilhas eqüestres, com mudanças, chaças e volteios, jogos de bolas. Quando o touro surgia era para ser “picado” à castelhana, com quadrilhas e bandarilheiros, capas vermelhas e “sortes” finais de espada. Assim em São Paulo, nas festas da elevação da vila a cidade, 1712, o Coronel Antônio de Oliveira Leitão recebeu uma ovação entusiástica por ter decepado com a espada a cabeça de um touro.

Nenhuma festa tinha as finalidades práticas das “apartações” do Nordeste. Criado em comum nos campos indivisos, o gado, em junho, sendo o inverno cedo, era tocado para grandes currais, escolhendo-se a fazenda maior e de mais espaço pátio de toda ribeira. Dezenas e dezenas de vaqueiros passavam semanas reunindo a gadaria esparsa pelas serras e tabuleiros, com episódios empolgantes de correrias vertiginosas. Era também a hora de negócios. Comprava-se, vendia-se, trocava-se. Guardadas as reses, separava-se um certo número para a “vaquejada”. Puxar o gado, correr o boi, eram sinônimos. A “apartação” consistia na identificação do gado de cada patrão dos vaqueiros presentes. Marcados pelo “ferro” na anca, o “sinal” recortado na orelha, a “letra” na ribeira, o animal era reconhecido e entregue ao vaqueiro. A reunião de tantos homens, a ausência de divertimentos, a distância vencida, tudo concorria para aproveitar-se o momento. Era um jantar sem fim, farto e pesado, bebidas de vinho tinto e genebra, aguardente e “cachimbo” (aguardente com mel de abelha). Antes, pela manhã e mais habitualmente à tarde, corria-se o gado.

Vacas, bezerros, bois velhos, eram afastados. Só os touros, novilhos e bois de era mereciam as honras do “folguedo”. Alguns homens, dentro do curral onde os touros e novilhos se agitavam, inquietos e famintos, tangiam, com grandes brados, um animal para fora da porteira. Arrancava este como um foguetão. Um par de vaqueiros corria, lado a lado. Um seria a “esteira” para manter o bicho numa determinada direção. O outro derrubaria. Os cavalos de campo, afeitos à luta, seguiam como sombras, arfando, numa obstinação de cães de caça. Aproximando-se do animal em disparada, o vaqueiro apanha-lhe a cauda (bassôra) envolve-a na mão, e puxa, num puxão brusco e forte, é a mucica. Desequilibrado, o touro cai, virando para o ar as pernas entre poeira e aclamações dos assistentes. Se o animal rebola no solo, patas para cima, diz-se que o mocotó passou. É o título da vitória integral. Palmas, vivas, e corre-se outro bicho. Quando não conseguem atingir o touro espavorido pela gritaria, dizem que o vaqueiro botou no mato. E é o caso de vaia.

De Vaqueiros e Cantadores. Global. 2005.

(© Diário do Nordeste)

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