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Câmara Cascudo:
esforço para desvendar as raízes étnicas do Brasil |
Há exatos 20 anos, morria o pesquisador Luís da Câmara Cascudo. Filho
único de uma família tradicional do Rio Grande do Norte, ele surpreendeu
amigos e familiares quando negou-se a enveredar por uma esperada carreira
política. Ao invés disso, Cascudo preferiu se dedicar a uma carreira
intelectual que rendeu a publicação de quase 170 livros e uma vasta
documentação de saberes e práticas da cultura brasileira. Com contribuições
reconhecidas para o folclore, a antropologia, a sociologia, a história
social - dentre outras áreas -, a obra do intelectual potiguar mantém um
grande círculo de admiradores e reafirma sua importância diante de críticas
que a dizem ultrapassada. Nesta edição, o Caderno 3 passa a limpo a
contribuição de Cascudo para compreender a cultura brasileira
Dellano Rios
Quando o assunto é Brasil, a enxurrada de clichês é das maiores. É
“tupiniquim” pra cá, “país continental” pra lá, passando pela falácia da
“união das três raças” e outras besteiras do gênero. Esquivando-se dos
reducionismos e das generalizações, o antropólogo potiguar Luís da Câmara
Cascudo dedicou a maior parte de sua vida a compreender as minúcias e
pluralidades deste país que, apesar de ser - de fato - de dimensões
continentais, permanece pouco conhecido.
Antropólogo, etnógrafo, folclorista, literato e mais uma série de definições
que encontraram espaço nas cerca de 150 obras produzidas. Câmara Cascudo
transitou por diversas áreas. Sua obra abrangeu de ensaios sobre culinária a
levantamentos sobre a diversidade dos insetos encontrados no Brasil; da
coleta de histórias e contos populares a observações do cotidiano de
jangadeiros e vaqueiros.
Fascinado pela terra onde nasceu - e onde viria a morrer - o Rio Grande do
Norte, Câmara Cascudo foi quem melhor definiu a curiosidade e inquietação
que movimentou sua obra. “Queria saber a história de todas as cousas do
campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores
dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações.
Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado.
Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção
medular da contemporaneidade”, escreveu no jornal potiguar “A Província”, em
1973, numa edição comemorativa que registrou a passagem de seus setenta anos
de idade e cinqüenta de atividade literária.
Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1898 e
faleceu na mesma cidade, em 1986. Filho único do casal Francisco Justino de
Oliveira Cascudo e Anna da Câmara Cascudo, ele nasceu em uma das famílias
mais tradicionais do Estado. Desde cedo, Cascudo mostrou inclinações para as
atividades intelectuais. Contrariando as expectativas, não seguiu os passos
políticos da família (o que não o impediu de ser membro destacado e chefe
regional da Ação Integralista Brasileira - AIB, partido político de
inspiração fascista).
A trajetória intelectual impressiona: publicou seu primeiro livro com apenas
23 anos, “Alma Patrícia” (1921), um estudo crítico e biobibliográfico de 18
escritores e poetas, norte-rio-grandenses ou radicados no Estado; em 1922,
aprendeu a língua inglesa, para acompanhar os viajantes pela África e Ásia;
e seguiu produzindo obras originais e traduções, como a do clássico livro
“Travels in Brazil”, do viajante inglês Henry Koster. Rebatizado por Cascudo
como “Viagens ao Nordeste do Brasil”, a obra é uma das mais valiosas para o
conhecimento e interpretação do Brasil do início do século XIX.
Na década de 1920, Câmara Cascudo passou pela Faculdade de Medicina da Bahia
(curso que deixou incompleto) e pela Faculdade de Direito do Recife, curso
que concluiu em 1928. Neste mesmo ano, o escritor também concluiu o curso de
Etnografia, na Faculdade de Filosofia, do Rio Grande do Norte, onde
encontraria sua estrada acadêmica de fé.
Chegou a ser professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de
Direito do Recife, e de Etnologia Geral, na Faculdade de Filosofia, em
Natal. Entretanto, ganhou fama em todo o país pelos estudos que desenvolveu
nos mais variados assuntos.
(©
Diário do Nordeste)
| Divulgação |
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| Com
Mário de Andrade, amizade e convivência intelectual de igual para
igual |
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ESPECIAL
CASCUDO.DOC
Nos 20 anos da morte de Luís da Câmara Cascudo, o pesquisador Gilmar
de Carvalho - uma das principais referências nos estudos das culturas
tradicionais nordestinas - revisita a vasta obra do antropólogo. No artigo,
Carvalho fala da atualidade das contribuições de Cascudo para os estudos das
tradições brasileiras e o diálogo travado com o outro expoente do mapeamento
de nossa cultura, o modernista Mário de Andrade
Gilmar de Carvalho*
especial para o Caderno 3
Vinte anos depois, pode-se avaliar a crescente importância de Cascudo.
Do alto de seu saber enciclopédico, o potiguar antecipou-se ao recusar sair
de sua Natal para fazer o Sul e ganhar fama como muitos conterrâneos velhos
de guerra.
Ficou mesmo aqui, enfrentando preconceitos que ainda perduram. Não era a
fama que ele perseguia, mas um projeto de uma vida inteira.
Sua produção está aí para mostrar sua disciplina e sua competência.
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Difícil abarcar Cascudo em um único texto, tão
polifônico ele foi.
Tido como folclorista, numa tentativa de depreciá-lo, ele foi muito além.
Pode-se pensar no etnólogo de olhar atento, no antropólogo a seu modo,
dialogando com os grandes do seu tempo, de igual para igual e sem cair na
produção maneirista que se acha acadêmica porque elege gurus e segue
modismos.
Cascudo foi muito além da nota de rodapé e da citação ornamental.
Foi fundo.
Pode-se dizer que começou “errado”, com sua volumosa “História de Natal”.
Mas corrigiu o rumo, por sugestão de Mário de Andrade.
Se tinha tudo aquilo a seu lado, se tinha tanta sensibilidade para
compreender a “voz rouca” das ruas e o cheiro do povo, por que não fazê-lo?
A relação entre Mário e Cascudo merece uma reflexão mais funda.
Eram iguais, intelectuais do mesmo nível, com a mesma competência e a mesma
determinação de virar esse país pelo avesso, buscar raízes e mergulhar nas
tradições que outros achavam índice de atraso, da construção de estereótipos
estado-novistas ou de uma ideologia nacionalista.
Eles estão aí.
Mário fez a longa viagem país adentro. Parecida com a viagem de Prestes, com
estratégias diferentes e o mesmo objetivo de conhecer o Brasil profundo.
Cascudo ficou fazendo voltas em torno do coração selvagem do sertão.
Pouco cosmopolita? Pois sim...
E o que dizer de pesquisas que cruzavam o Atlântico, quando não havia
internet.
Hoje, tudo parece tão fácil. Não era.
Cascudo hospedou Mário. A correspondência entre os dois é leitura
obrigatória para quem quer compreender uma parte importante da história das
idéias no Brasil.
“Viagem pelo Sertão”, de 1934, mostra um Cascudo que começava a abrir um
leque de possibilidades de recolhas, anotações e reflexões sobre coisas
aparentemente pequenas ou banais. Sua grandeza vem daí.
Quem se aventuraria a pensar sobre a rede de dormir, a cachaça, nossos
gestos, a jangada, a carnaúba. Eram temas prosaicos demais para merecerem o
rótulo de acadêmicos.
Ele estava pouco preocupado com a chancela “uspiana”.
Queria dar conta de seu recado. E o fez como ninguém.
Somos todos devedores de suas anotações cuidadosas, de sua sensibilidade ao
estabelecer nexos, propor vínculos e deixar uma “obra”, na acepção mais
completa do termo. Cascudo não foi autor genial de um livro só. Vale pelo
conjunto da obra, que nos dá uma idéia (vaga) da disciplina monástica, da
montagem de um grande quebra-cabeça intelectual. Devemos a ele este puzzle,
esta colcha de retalhos, onde cada peça dialoga com a próxima e assim por
diante.
Rigoroso, cientificava-se de tudo o que escrevia. Não tinha a leviandade da
proposição não fundamentada. Seu texto é claro. Sua argumentação é lógica.
Tudo se encaixa e faz sentido.
Claro que não somos obrigados a concordar com tudo o que ele disse ou fez.
Ele nunca deve ter pretendido ser essa unanimidade.
Pode-se discordar de sua avaliação precipitada de que o beato José Lourenço,
do Caldeirão, era um “negro lascivo”. Esse era o discurso policial adotado
pela ditadura varguista.
Como “bom” integralista, Cascudo tinha sua camisa de “galinha verde”, mas
não foi tão longe como Gustavo Barroso, com seu anti-semitismo militante.
Aliás, ficou fácil alinhar estudos da tradição com uma visão conservadora.
Grande parte dos estudiosos era de “direita”, quando ainda existia a
possibilidade da utopia e da visão do mundo generosa e renovada (claro que
não falo de Stalin ou do realismo socialista).
Mas é importante se falar nisso, sem que configure “patrulhamento
ideológico”, como se defendem alguns.
Hoje, quando o foco se ajusta, quando são valiosos documentos como os de
Cascudo e Mário; o Itaú Cultural faz seu mapeamento; o grupo Caxuêra! grava
discos e DVDs; a Bahia lança seu “Singular e Plural”; o entorno de Brasília
é redescoberto por Roberto Correia; a revista RAIZ renova o repertório da
grande imprensa e o Brasil não se envergonha (tanto) de sua periferia ou de
seus grotões.
Por trás disso tudo está Cascudo, trancafiado em seu escritório, minucioso e
abrangente, cantando sua “aldeia” e falando deste mundo vasto mundo.
Quando se fala tanto em “globalização” (que outros preferem “mundialização”,
em termos de cultura) é hora de agradecer à contribuição de Cascudo, chamar
a atenção para o que ele fez e nos deixou para fazer.
Mais do que um necrológio, pelos seus vinte anos de morte, seria a vez de
partir do que ele fez para superá-lo, com outros referenciais teóricos (a
Semiótica da Cultura, por exemplo), afinados com a quebra dos paradigmas, a
contemporaneidade e um rigor que não prescinde da emoção.
Ele também se antecipou à idéia da hibridação, negou a cultura “autêntica,
genuína e de raiz” e compreendeu os trânsitos, a dinâmica e o processo que
nos faz mais ricos e humanos.
Cascudo é tudo isso e esse prazer do texto, essa aventura da descoberta,
esse anseio de devorar cada página como se fosse a única, a última ou um
“farte” comido no final de uma tarde sobralense, cuja receita, árabe, veio
nas caravelas de Cabral e aqui ganhou o auxílio luxuoso da “farinha de pau”
da tradição indígena e as mãos das mucamas nessa mistura fina que se chama,
apesar de tudo, Brasil.
* O autor é pesquisador e professor do curso de Comunicação Social da
UFC.
(©
Diário do Nordeste)
UM PROVINCIANO INCURÁVEL
Literatura para ficar na memória
Divulgação
Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) certa vez se definiu como “um
provinciano incurável”. O fascínio pela terra onde nasceu e morreu, o Rio
Grande do Norte, não abandonou o estudioso, mesmo após ter travado contatos
com outras culturas - algumas longínquas, encravadas no continente africano.
O erudito manteve o respeito e a curiosidade pelos costumes, gestos e arte
de personagens anônimos: vaqueiros, jangadeiros, rendeiras, violeiros,
cantadores, cozinheiras. Mas foram sobretudo as histórias que essas pessoas
contavam que tanto encantaram Câmara Cascudo. Direta ou indiretamente, as
narrativas foram os ingredientes que possibilitaram a escrita de obras
clássicas, como “Antologia do Folclore Brasileiro”, “Lendas brasileiras” e
“Literatura oral no Brasil”. Da introdução deste último, retiramos o texto
que você lê abaixo. Com uma entonação lírica, Câmara Cascudo percorre os
caminhos da memória e fala da literatura oral e do meio onde ela foi (e
continua sendo) produ
zida
Luís da Câmara Cascudo
(1898-1986)
Todos os anos vividos no alto sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba
foram cursos naturais de Literatura Oral. Tive a revelação de meu
scholarship quando estudei na cidade a outra literatura, livros, livros,
livros, escolas, diagramas, influências, mestres, críticas, resumos. A vida
nas povoações e fazendas era setecentista nas duas primeiras décadas do
século XX. A organização do trabalho, o horário das refeições, as roupas de
casa, o vocabulário comum, os temperos e os condutos alimentares, as
bebidas, as festas, a criação de gado dominadora, as superstições,
assombros, rezas-fortes estavam numa distância de duzentos anos para o plano
atual. Os plantios de algodão multiplicar-se-iam mais tarde, derrubando os
raros capões, as oiticicas, juazeiros verdes, sombras das malhadas,
arranchos de comboios esperando o pender do sol na queda da viração da
tarde. O fazendeiro só faltava mandar
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nas estrelas e nos xéxeus, longes umas e alvoroçados outros para
respeitar o brado autoritário. O gado era, 99%, gado crioulo, local e
nativo, entendendo a monodia do aboio, gostando de negaciar a “bassôra” à
mão firme dos derrubadores nas tardes de vaquejada. A instituição do
compadrio era uma potência, determinando o vínculo obrigacional sagrado
entre o compadre rico e o compadre pobre, mandando o primeiro armar os
acostados e ir assaltar a cadeia da vila para arrancar das grades o segundo
e tornando este, pela simples enunciação do título, um servo jubiloso,
vitalício e gratuito, do primeiro.
Os livros eram raros nas fazendas. Raríssimo o livro de reza e mais ou menos
fácil o de deleite, Carlos Magno e os Doze Pares de França e mais a
biblioteca que registrei no Vaqueiros e Cantadores, em 1939. Não havia
casamento sem os vivas protocolares e sem a louvação dos cantadores, de
violas enfeitadas de fitas, empinando o braço e depondo os instrumentos aos
pés dos noivos confusos, t
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alqualmente sucedera nas bodas de Cid el Campeador. Os ditados,
provérbios, frases-feitas eram moeda corrente no comércio diário familiar.
Recorriam aos exemplos sacros e aos reparos dos antepassados: - como dizia
meu avô: um gambá cheira o outro... E as imagens expressivas: - dar nó em
pingo d’água, comprida como paciência de pobre, boca aberta como sino. O
caçados vivia da boca de uma espingarda. O pescador vivia da vontade dos
peixes. Depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa,
filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Café e poranduba. Não havia
diálogo mas uma exposição. Histórico do dia, assuntos do gado,
desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro,
queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes,
tempo da guerra do Paraguai, cangaceiros, cantadores, furtos de moça,
desabafos de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia
seguinte.
Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de
evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas não há
criatura vivente para contar uma estória. Seriam temas para pesquisas sábias
de alemães e norte-americanos essa linguagem auxiliar, indispensável nos
“primitivos” de todos os tempos, Gebärdensprache, manual concepts, variações
de timbres, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando
visões de vôo, pompa, ferocidade, alegria, Lautbilder. Os contos tinham
divisões, gêneros, espécies, tipos, iam às adivinhações, aos trava-línguas,
mnemonias, parlendas. Ia eu ouvindo e aprendendo. Não tinha conhecimento
anterior para estabelecer confronto nem subalternizar uma das atividades em
serviço da outra. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura.
Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e
vizinhanças, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra
vida.
Voltando a Natal, fui para o curso secundário e pude ver a diferença entre
as duas literaturas, ambas ricas, antigas, profundas, interdependentes e
ignorando as pontas comunicantes. Inconscientemente confrontava ritmos e
gêneros, as exigências do dogma do culto e a praxe dos cantadores
sertanejos, setissílabos, décimas, pé-quebrado, a ciência do “desafio”.
Todas as leituras subseqüentes foram elementos de comparação.
Compreendera a existência da Literatura Oral brasileira onde eu mesmo era um
depoimento testemunhal. Voltava carregado de folhetos de cantadores, centos
de versos na memória, lembrança dos romances reeditados há tantos cem anos,
vivos no espírito de milhões de homens e jamais citados nas histórias
registradoras das atividades literárias do Brasil. Na biblioteca paterna fui
encontrando outras formas e espécies da mesma substância que vira no sertão
velho. E verifiquei a unidade radicular dessas florestas separadas e
orgulhosas em sua independência exterior.
* O texto está disponível no livro “Literatura Oral no Brasil” - Global
Editora, 488 pp., R$ 65,00).
(©
Diário do Nordeste)
COLEÇÃO CÂMARA CASCUDO
Bibliografia revisitada
Autor de estudos clássicos sobre as culturas populares de grande parte
do território brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo viu seu nome se
tornar sinônimo de folclore. De fato, o estudioso contribuiu para o
levantamento dos “saberes do povo”, em obras referenciais como “Dicionário
do Folclore Brasileiro” e “Antologia do Folclore Brasileiro”. Assim, não foi
de se estranhar quando os estudos de Câmara Cascudo enfrentaram um período
de recessão no meio acadêmico. Nas últimas décadas, prevaleceram as teorias
antropológicas que vêem a cultura como um fenômeno dinâmico e, em
conseqüência, a idéia de folclore entrou em declínio nas ciências sociais
Independente do lugar que a academia lhe conferiu - e das limitações que
possui -, a obra de Cascudo não chegou a sair de cena após a morte do autor.
Estudos críticos revisaram a obra, a figura do próprio pesquisador ganhou
biografias e seminários foram realizados para discutir seu legado. Como não
poderia deixar de ser, os livros também voltaram às prateleiras.
Desde o final de 2000, a editora paulista Global tem se dedicado a colocar
no mercado os principais títulos publicados por Câmara Cascudo. Ao todo, a
editora já lançou 25 livros, uma pequena amostra da bibliografia do escritor
potiguar, que contabiliza uma marca incerta (nem o próprio Cascudo sabia
exatamente quantos livros havia publicado). O certo é que o número gira em
torno de 130 e pode chegar a 150, se contarmos traduções e edições
comentadas. Pelo menos outras 10 obras permanecem inéditas.
As obras estão divididas em duas linhas: uma que reúne os principais estudos
do folclorista e outra que transporta alguns dos contos por ele coletados
para o universo da literatura infantil.
A primeira conta com 19 livros já publicados. Estão disponíveis no catálogo
da editora: os dois volumes de “Antologia do folclore brasileiro”, “Canto de
muro”, “Civilização e cultura”, “Contos tradicionais do Brasil”, “Dicionário
do folclore brasileiro”, “Geografia dos mitos brasileiros”, “História da
alimentação do Brasil”, “História dos nossos gestos”, “angada: uma pesquisa
etnográfica”, “Lendas brasileiras”, “Literatura oral no Brasil”, Locuções
tradicionais no Brasil”, “Made in Africa”, “Mouros, franceses e judeus -
Três presenças no Brasil”, “Prelúdio da Cachaça”, “Rede de dormir - uma
pesquisa etnográfica”, “Superstição no Brasil” e “Vaqueiros e cantadores”.
Na segunda linha, que reúne histórias ilustradas publicadas nas antologias
de literatura e contos populares, foram publicados: “A princesa de
Bambuluá”, “Couro de piolho”, “Facécias”, “Maria Gomes”, “O marido da mãe
d´água / A princesa e o gigante” e “O papagaio real”.
A editora ainda divulgou os quatro próximos títulos da Coleção Câmara
Cascudo - “Antologia da religião no Brasil”, “Coisas que o povo diz”,
“Religião do povo” e “Viajando o sertão”. Os livros devem chegar as
livrarias até o início de 2007. Atualmente, a Global negocia com os
detentores dos direitos da obra a publicação de outras obras.
SERVIÇO: ´Coleção Câmara Cascudo” - 25 volumes lançados pela editora Global.
Confira o catálogo completo das obras de Câmara Cascudo disponíveis no
mercado no site da editora,
www.globaleditora.com.br
(©
Diário do Nordeste)
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CÂMARA CASCUDO
Vaquejadas e apartações
Na literatura colonial não há registro das “Vaquejadas” como as conhecemos
no Nordeste brasileiro. Viajantes, mercadores, naturalistas, aventureiros,
traficantes de escravos, todos quantos deixaram impressões sobre o Brasil
dos séculos XVII e XVIII e princípios do XIX, assistiram festas imemoráveis
mas nenhuma parecia com as nossas “apartações” e derrubadas de gado. Como em
Portugal, especialmente durante o século XVIII, as touradas dominam, veio o
costume para o Brasil mas não se aclimatou no Norte.
Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro “corria-se” o touro, com farpas
ou aguilhão. Assim Saint-Hilaire viu no Rio Grande do Sul, La Barbinais na
Bahia, o príncipe de Wied-Neuwied nas fronteiras baianas-mineiras. A
“cavalhada” paulista e mineira, tão comum nas festas espaventosas de
nascimento real ou comemoração de predicamento municipal, limitava-se à
“corrida da argolinha” como em Portugal. Depois seguiam-se provas de
destreza, apanhar objetos no solo na disparada da galopada, quadrilhas
eqüestres, com mudanças, chaças e volteios, jogos de bolas. Quando o touro
surgia era para ser “picado” à castelhana, com quadrilhas e bandarilheiros,
capas vermelhas e “sortes” finais de espada. Assim em São Paulo, nas festas
da elevação da vila a cidade, 1712, o Coronel Antônio de Oliveira Leitão
recebeu uma ovação entusiástica por ter decepado com a espada a cabeça de um
touro.
Nenhuma festa tinha as finalidades práticas das “apartações” do Nordeste.
Criado em comum nos campos indivisos, o gado, em junho, sendo o inverno
cedo, era tocado para grandes currais, escolhendo-se a fazenda maior e de
mais espaço pátio de toda ribeira. Dezenas e dezenas de vaqueiros passavam
semanas reunindo a gadaria esparsa pelas serras e tabuleiros, com episódios
empolgantes de correrias vertiginosas. Era também a hora de negócios.
Comprava-se, vendia-se, trocava-se. Guardadas as reses, separava-se um certo
número para a “vaquejada”. Puxar o gado, correr o boi, eram sinônimos. A
“apartação” consistia na identificação do gado de cada patrão dos vaqueiros
presentes. Marcados pelo “ferro” na anca, o “sinal” recortado na orelha, a
“letra” na ribeira, o animal era reconhecido e entregue ao vaqueiro. A
reunião de tantos homens, a ausência de divertimentos, a distância vencida,
tudo concorria para aproveitar-se o momento. Era um jantar sem fim, farto e
pesado, bebidas de vinho tinto e genebra, aguardente e “cachimbo”
(aguardente com mel de abelha). Antes, pela manhã e mais habitualmente à
tarde, corria-se o gado.
Vacas, bezerros, bois velhos, eram afastados. Só os touros, novilhos e bois
de era mereciam as honras do “folguedo”. Alguns homens, dentro do curral
onde os touros e novilhos se agitavam, inquietos e famintos, tangiam, com
grandes brados, um animal para fora da porteira. Arrancava este como um
foguetão. Um par de vaqueiros corria, lado a lado. Um seria a “esteira” para
manter o bicho numa determinada direção. O outro derrubaria. Os cavalos de
campo, afeitos à luta, seguiam como sombras, arfando, numa obstinação de
cães de caça. Aproximando-se do animal em disparada, o vaqueiro apanha-lhe a
cauda (bassôra) envolve-a na mão, e puxa, num puxão brusco e forte, é a
mucica. Desequilibrado, o touro cai, virando para o ar as pernas entre
poeira e aclamações dos assistentes. Se o animal rebola no solo, patas para
cima, diz-se que o mocotó passou. É o título da vitória integral. Palmas,
vivas, e corre-se outro bicho. Quando não conseguem atingir o touro
espavorido pela gritaria, dizem que o vaqueiro botou no mato. E é o caso de
vaia.
De Vaqueiros e Cantadores. Global. 2005.
(©
Diário do Nordeste) |
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