Henrique Nunes
Brejeirice de quem se acerca da cidade, guardando no peito os sinais
do sertão. Tudo de bom que nos deste, Nordeste de tantos sonhos e sons:
manteiga da terra; banho de açude; sorrisos de folias e alecrim; cantos da
noite, do trovão e do passarinho. “Fruta que dá no tempo”. Depois do
elogiado “Tudo Que Me Nordeste”, produzido ao lado de Pantico Rocha, em
2002, o cantor e compositor Eudes Fraga está reabastecendo nosso lirismo
agreste, nossa universalidade de timbres mais regionais, em “Do espinho da
flor do mandacaru” (selo Rádio MEC). Num desfile de ritmos e estéticas com
participações de Geraldo Azevedo, Dominguinhos e Quinteto Agreste, seu
terceiro CD tem lançamento hoje e amanhã, no Teatro do Centro Dragão do Mar
O álbum marca um reencontro com outros cearenses, mas também com outros
parceiros musicais, acumulados ao longo de tantos festivais de que Eudes
participou. A maioria dos arranjos da aldeia agr
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este de Fraga é de Roberto Stepheson, função que o flautista e
saxofonista cearense já desempenhara no álbum anterior, ao lado do próprio
Eudes, de Pantico e ainda do acordeonista Chico Chagas.
Sete das faixas são parcerias com o compositor carioca Paulo César Pinheiro,
presente em três faixas do trabalho anterior, que também destacava esta
linguagem entre faixas como “Tem que ser nordestino pra saber dar valor ao
Nordeste brasileiro” (Eudes/Luís Homero/Ivanildo Vilanova), “Urubu mestre do
vôo” (Eudes/Joãozinho Gomes) e “Romeiros” (Dori Caymmi/Paulo César
Pinheiro).
Gravado entre Fortaleza e Rio de Janeiro, “Do espinho...” foi lançado em
outubro do ano passado, no (carioca) Teatro Rival, na companhia das feras
Stepheson, Fernando Merlino (piano elétrico), Bororó (baixo), Ocello
Mendonça (cello e flauta), Marco Lobo e Mila Schiavo (percussão) e Vitório
Cavalcante (bateria). Produzido pelo cantor e compositor Paulo César Feital,
o álbum é o segundo lançamento da série regional do selo Rádio MEC, em
parceria com a Petrobras. O primeiro foi “EmCantos Geraes”, de Marcio Lott.
Visões menos ortodoxas da musicalidade e da temática nordestina,
intermediárias do modo de vida representado, entre o mar e o sertão, pelo
agreste. Assim, resplandecem as parcerias com Paulo César Pinheiro, por
exemplo. Uma contribuição estética marcada por arranjos simples e originais,
sem nos estendermos nos seus naturais encantos poéticos: do piano (Merlino)
e oboé (Vitor Astorga) de “Minha aldeia e o mar”, ao xote lenineano
“Fogo-fátuo”, além da enxutíssima folia-canção “Casa Real” e do lamento de
voz, piano, flauta e lirismo: “Assovio”.
Sem timbres fechados em seu legado regional, a sanfona de Adelson Viana
convive à vontade com o baixo de Marcelo Mariano e os batuques de Pantico
Rocha na canção afro “Cavaleiro Jorge” ou a rabeca de Marcos Moletta com o
pandeiro do ritmista cearense e a viola de 10 cordas de João Lyra, no “Coco
praieiro” e seu trava-língua animado. Na seqüência, também além das
convenções e também fruto da parceria com Pinheiro são os naipes de cordas e
metais da fanfarra dolente “Som da Ciranda” que fecha o CD.
Dolência que se manifesta mais lírica na faixa de abertura, “Língua de
Trovador” (Rafael Altério/Eudes Fraga), já (bem) registrada pelo cantor e
compositor cearense Sávio Leão, há alguns anos. Aqui, com vocais do nosso
Quinteto Agreste entre as cordas de Ocello, Lyra, André e Daniel Cunha
(violinos) e Renata Ribeiro (viola), o lamento ganhou em harmonia, mesmo
diante de sua marcação em torno do nosso maracatu. A canção é uma das mais
representativas da brejeirice nordestina na lírica de Eudes, apesar de falar
em personagens como Patativa e Lampião, e de onde ele extraiu o verso título
do CD.
Outros parceiros também trazem este clarão lírico do agreste ao “Do espinho
da flor do mandacaru”. Com Marcos Quinan, o balanço de “Fogo-fátuo” tem
continuidade em “São Gonzaga do Baião”, ritmo modernamente resfolegado entre
violões, flautas e baticuns e reunindo de uma só vez as participações vocais
de Dominguinhos e de Geraldo Azevedo. Com Iranildo Pedreira, Eudes se
encontra apenas ao lado do piano de Merlino para descrever seu pensamento em
torno da já distante, no tempo, “Chapada do Araripe”.
Mirando o futuro e o passado também, Rafael Altério e Joãozinho Gomes
dividem com Eudes “Olhos da noite”, um maracatu “incomum”, de caminhos mais
indefinidos. Já “Violeiro do Ar” tem letra contemplativa do paulistano Jean
Garfunkel. Noutro grande arranjo do álbum, piano, cordas, coro e o Maracatu
Vozes da África permitem, serenos, que Eudes demonstre toda a sua discreta e
eficiente instrumentação vocal, em um timbre mais Nilson Chaves, que também
marca a intimista “Minha aldeia e o mar”.
Com letras também contemplativas, mas com mais elementos humanos, Marcos
Quinan comparece em mais duas parcerias: primeiro, na canção “Sertão de
pedra”, visão urbana das vivências que vão de Fortaleza a Quixadá,
construída ainda com Paulo Fraga, irmão de Eudes, entre violões de aço de
Farnando Carvalho e os já habituais Pantico, Stepheson e Marcelo Mariano.
Depois, com os mesmos músicos, além do acordeon de Adelson Viana, Quinan,
Eudes e Iranildo Pereira defendem a transposição do “São Francisco
Nordestino”, com a maestria discreta deste nosso conterrâneo universal.