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INSTRUMENTOS percussivos,
confeccionados de maneira artesanal, dão o diferencial da orquestra, apoiada
pela Secretaria de Cultura de Alagoas |
A Orquestra de Tambores de
Alagoas, coordenada pelo músico e artesão Wilson Santos, chega a Fortaleza
para concerto gratuito amanhã (30), às 18h30, dentro do I Festival BNB da
Música Instrumental. Os 11 componentes, entre percussionistas e alunos,
apresentam xangôs variados e músicas de domínio público que unem o afro às
manifestações nordestinas
Teresa Monteiro
da Redação
Um som diferente do habitual está dando uma nova cara ao Centro de Maceió,
Alagoas. Alfaias, djembês, tambores, caixas, atabaques e demais instrumentos
percussivos, antes vistos só de rabo de olho, estão agora ganhando status de
renovação pela própria comunidade a partir do trabalho de um só homem.
Wilson Santos, 31 completos somente em setembro, é músico, artesão e
idealizador de um grupo, melhor, de uma orquestra onde a percussão é o
centro das atenções. Dentro da programação do I Festival BNB da Música
Instrumental, a Orquestra de Tambores de Alagoas chega pela primeira vez a
Fortaleza já com um agenda cheia: neste domingo, às 15h, em esquema de
ensaio aberto, e às 18h30, os músicos apresentam-se no auditório do Centro
Cultural Banco do Nordeste (Centro), com a entrada franca.
Na concepção de sua pesquisa, iniciada no final dos anos 80, a mistura dos
ritmos afro-brasileiros, voltados sobretudo para os cultos religiosos,
associa-se perfeitamente com as manifestações populares do Nordeste, feita
de maracatus, bois e xotes. É a música instrumental primitiva aliada à
contemporaneidade. "A idéia do nosso trabalho surgiu a partir da própria
característica da cidade, que têm muitos percussionistas, mas eles não
tinham nenhuma escola que ensinasse, que tivesse essa troca de informações.
Eram todos percussionistas natos. Pra você ter uma noção, aqui no Estado nós
temos uns 28 folguedos e cada qual com um ritmo diferente", explicou Wilson.
A Orquestra de Tambores de Alagoas surgiu, porém, quase por acaso. "Como a
gente não tinha um lugar certo, as pessoas tocavam no terreiro, na capoeira,
ou seja, dentro do seu próprio espaço folclórico. Só em 2004, eu tive então
a idéia de montar o grupo pra, de uma forma independente, trazer esse músico
pra tocar, se expressar mesmo. Eu aproveitei e passei a reunir o pessoal no
quintal de casa mesmo, com quatro percussionistas só". Mas os vizinhos...
"começaram a reclamar, né?", ri-se. "Até hoje quando a gente vai com um
tambor pela rua, alguns vêm e: - Lá vem o tambozeiro, o macumbeiro... Mas a
gente, ainda bem, está conseguindo mudar essa história".
Na bagagem, Wilson Santos carrega sobretudo a sabedoria de sua religião para
passar os ensinamentos à nova geração de percussionistas. "Eu sou ogã de
candomblé, então eu já venho naturalmente com esses ritmos, com essa
mistura. A minha linha é afro, né? Eu comecei, pra proveito próprio, a
pesquisar a relação do ritmo com a natureza, isso por volta de 1989. A
partir de 2003, 2004, a gente misturou o afro com o folclore. O
Quebra-Louça, que é um xangô voltado para o elemento fogo, nós misturamos
com o maracatu e vimos que a célula, ela é muito parecida. A maioria, aliás,
desses ritmos tem toda uma relação", afirmou.
A intenção de Wilson com o grupo é simples: pegar o ritmo como base e
proporcionar uma releitura nas apresentações. "Existe uma árvore africana
chamada Yroco que a gente costuma associá-la sempre com o nosso trabalho na
orquestra. Nós somos tal qual a raiz, cravada totalmente no chão (devido ao
som primitivo dele extraído), e as folhas e o caule totalmente antenados com
o que acontece no mundo". Mas se por um lado o músico analisa a diferença
positiva alcançada desde a criação da orquestra, por outro constata a falta
de apoio aos
grupos que têm na percussão seu ponto de partida.
"Aqui no nosso Estado, mas eu acho que é na maioria do Brasil, as pessoas
têm um ranço fortíssimo. Em 1912, por exemplo, ocorreu um fato muito louco:
existia um movimento de terreiros grande, praticamente tinha um terreiro em
cada esquina de Alagoas. Eram maracatus, afoxés, tudo nessa história de
xangôs, e o prefeito da época, um cara chamado Euclides Malta, conseguiu
dizimar eles todos. Só algum tempo depois que conseguiram retirar a base do
poder dele e voltar ao normal. Então esse caso é só pra você notar como as
coisas são complicadas".
Percalços de lado, o grupo é só alegria. "As coisas que vêm acontecendo pra
nós é tudo uma surpresa porque utilizamos o tambor como forma de expressão.
No último réveillon, a gente tocou pra umas cinco mil pessoas! Então o que
eu posso concluir disso? Que nós temos um papel na sociedade. Temos um CD
demo pra divulgar nosso trabalho em festivais e eventos como esse, mas o que
eu quero é que a Orquestra de Tambores de Alagoas represente, sobretudo, a
comunidade periférica, antes mesmo de representar o Estado de Alagoas, os
bairros de Ponta Grossa, Trapiche da Barra, etc. A gente sabe que é
complicado. Nós não somos nem melhores nem piores, mas somos uma
alternativa".
SERVIÇO
I Festival BNB da Música Instrumental - Ensaio aberto, às 15h, e concerto,
às 18h30, com a Orquestra de Tambores de Alagoas. Amanhã (30), no Centro
Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro); às 20h, no
mesmo local, a atração é o A La Sax Quarteto (AL). Segunda (31), às 19h,
Wilson Santos, coordenador da Orquestra de Tambores de Alagoas, ministra
Oficina de Percussão no BNB Clube sede praia (avenida Zezé Diogo, 4333 -
Praia do Futuro/ tel.: 3433.7235), sendo direcionada a adolescentes do
projeto social Cidadão de Futuro. Grátis. Info.: 3464.3108.
Multiplicando saberes
Quando não está se apresentando, Wilson Santos tem uma segunda casa durante
a semana: o Centro de Belas Artes de Alagoas (Cenarte). Lá, o músico
ministra não só aulas de percussão como também ensina aos alunos a arte da
confecção de instrumentos, alguns até então inexistentes. "São aulas
ministradas pra comunidades do Centro, Margem da Lagoa, Vergel do Lago...
São pessoas da camada pobre e nós viemos com esse projeto, com essa idéia, e
ganhamos o total apoio da Secretaria de Cultura de Alagoas; no ano passado,
também ganhamos o Edital do BNB", explicou.
E como é isso na prática? "Hoje a gente tem feito um trabalho de
multiplicação. Existe aqui na nossa cidade um centro de ressocialização de
menores infratores, o Instituto Humberto Mendes, onde eles já estão até
liberados, mas a família não quer de volta. Então o grupo tem prestado um
trabalho com eles. Nós não temos grana pra comprar instrumentos, então
ganhamos R$ 10 mil de material e os confeccionamos. Chamamos o jovem, então,
pra esse diálogo fazendo dele um elemento transformador porque, a partir do
momento em que ele sabe do seu passado, vai ter condições de compreender
daqui por diante".
Os instrumentos aprendidos são variados e acabam todos fazendo parte da
orquestra. De origem africana, saem os djembês e até o engome, "que
utilizado nos cultos afro de Alagoas, já estava meio extinto, sendo feito
com tronco de coqueiro. O que a gente mudou da sua origem, vamos dizer
assim, foi a corda que antes era de cizal e agora usamos de felpro". Também
são confeccionados zabumbas, pandeiro, alfaia, reco-reco e o tambor falante.
Quando usados nos shows, o repertório dá vazão a essa mistura que ora
mergulha no universo afro, ora nas manifestações oriundas do Nordeste. "A
maioria das nossas músicas são de domínio público. Existe o refrão de um
xangô alagoano que nós colocamos com baião, atabaque com zabumba, e o pífano
no lugar da voz", adiantou.
Atualmente, a Orquestra de Tambores de Alagoas é formada por 22 componentes;
para Fortaleza, vêm 11 permanecendo aqui até a Feira da Música 2006, que
ocorre de 9 a 12 de agosto, sendo uma das atrações ao lado dos conterrâneos
da banda Cumbuca. No BNB Clube sede praia, Wilson Santos irá ministrar na
segunda-feira (31), às 19h, uma oficina de percussão e noções para a
confecção/afinação de alguns instrumentos. O público-alvo, no entanto, serão
adolescentes do projeto social Cidadão de Futuro. (Teresa Monteiro)
(©
O Povo)
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