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Sobrevida para o encantamento de A Máquina

11/06/2008

Mariana Ximenes e Gustavo Falcão em cena do filme A Máquina


Conseguirá agora o filme de João Falcão o público que não teve nos cinemas?

Houve grandes filmes do cinema brasileiro em 2005, sendo o melhor Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, seguido de perto por Cidade Baixa, de Sérgio Machado. O primeiro reinventava a estética da fome do Cinema Novo e revelava um ator excepcional, Miguel Jorge. O segundo reabria a vertente do submundo urbano, cujas origens estão nas peças de Plínio Marcos e num filme-farol como A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura, somando a tudo isso o brilho de uma atriz também excepcional - Alice Braga.

Mas houve um terceiro filme, que, ao contrário dos outros dois, colheu pancadas dos críticos e não conseguiu motivar o público, estacionando em medíocres 50 mil espectadores, quando a expectativa, até pelo selo Globo Filmes colado à produção, visava a um número muito mais alto. A Máquina, de João Falcão, sai em DVD da Buena Vista, antecipando a estréia do novo filme do diretor, Fica Comigo Esta Noite, também interpretado por Gustavo Falcão. Ganhará A Máquina sobrevida?

Tudo já foi invocado para explicar a rejeição a este filme tão bom, a começar pelo título, que afugentaria tanto o público cativo da série Máquina Mortífera - pelo motivo óbvio: o título pode prometer um filme de ação, mas o cartaz a nega -, quanto os espectadores que querem distância de Hollywood. Esse hibridismo confundiu até os críticos, que não entenderam muito bem a implosão de estéticas em A Máquina. Como nas criações de Ariano Suassuna, as raízes do filme estão no rico fabulário nordestino, que o diretor, com base no livro de sua mulher, Adriana Falcão, recria com total liberdade.

A prosódia poética de A Máquina produz estranhamento, mas não menor que a ousada disposição de João Falcão de misturar/contrapor/subverter várias linguagens - cinema, teatro, mímica, dança, televisão, publicidade - na encantadora história de um sujeito que busca realizar o sonho de sua amada. Ela quer conhecer o mundo. Ele, com medo de perdê-la, traz o mundo para a cidadezinha de Nordestina, por meio da televisão. Mas há uma pane e Antônio, o protagonista, marca um encontro com ele mesmo, quando velho, o que faz com que o personagem de Gustavo Falcão seja também interpretado por Paulo Autran. É uma viagem - no tempo, na poesia, na linguagem - que o público dos cinemas não quis fazer, mas o do DVD tem agora a chance de recuperar. Para os românticos, é um programão - a história de amor de Antônio e Carina (Mariana Ximenes) é linda. (L.C.M.)

SERVIÇO
A Máquina. Brasil, 2005. Dir. de João Falcão, com Gustavo Falcão e Paulo Autran. DVD da Buena Vista. Só para locação

(© Agência Estado)

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