Conseguirá agora o filme de João Falcão o público
que não teve nos cinemas?
Houve grandes filmes do cinema brasileiro em 2005,
sendo o melhor Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, seguido de
perto por Cidade Baixa, de Sérgio Machado. O primeiro reinventava a estética
da fome do Cinema Novo e revelava um ator excepcional, Miguel Jorge. O
segundo reabria a vertente do submundo urbano, cujas origens estão nas peças
de Plínio Marcos e num filme-farol como A Rainha Diaba, de Antônio Carlos
Fontoura, somando a tudo isso o brilho de uma atriz também excepcional -
Alice Braga.
Mas houve um terceiro filme, que, ao contrário dos outros dois, colheu
pancadas dos críticos e não conseguiu motivar o público, estacionando em
medíocres 50 mil espectadores, quando a expectativa, até pelo selo Globo
Filmes colado à produção, visava a um número muito mais alto. A Máquina, de
João Falcão, sai em DVD da Buena Vista, antecipando a estréia do novo filme
do diretor, Fica Comigo Esta Noite, também interpretado por Gustavo Falcão.
Ganhará A Máquina sobrevida?
Tudo já foi invocado para explicar a rejeição a este filme tão bom, a
começar pelo título, que afugentaria tanto o público cativo da série Máquina
Mortífera - pelo motivo óbvio: o título pode prometer um filme de ação, mas
o cartaz a nega -, quanto os espectadores que querem distância de Hollywood.
Esse hibridismo confundiu até os críticos, que não entenderam muito bem a
implosão de estéticas em A Máquina. Como nas criações de Ariano Suassuna, as
raízes do filme estão no rico fabulário nordestino, que o diretor, com base
no livro de sua mulher, Adriana Falcão, recria com total liberdade.
A prosódia poética de A Máquina produz estranhamento, mas não menor que a
ousada disposição de João Falcão de misturar/contrapor/subverter várias
linguagens - cinema, teatro, mímica, dança, televisão, publicidade - na
encantadora história de um sujeito que busca realizar o sonho de sua amada.
Ela quer conhecer o mundo. Ele, com medo de perdê-la, traz o mundo para a
cidadezinha de Nordestina, por meio da televisão. Mas há uma pane e Antônio,
o protagonista, marca um encontro com ele mesmo, quando velho, o que faz com
que o personagem de Gustavo Falcão seja também interpretado por Paulo
Autran. É uma viagem - no tempo, na poesia, na linguagem - que o público dos
cinemas não quis fazer, mas o do DVD tem agora a chance de recuperar. Para
os românticos, é um programão - a história de amor de Antônio e Carina
(Mariana Ximenes) é linda.
(L.C.M.)
SERVIÇO
A Máquina. Brasil, 2005. Dir. de João Falcão, com Gustavo Falcão e Paulo
Autran. DVD da Buena Vista. Só para locação