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11/06/2008
Aos 69 anos, o professor e crítico literário morreu de complicações renais no Incor, em São Paulo Teresa Ribeiro e Antonio Gonçalves Filho SÃO PAULO - João Alexandre Barbosa foi um dos grandes professores e críticos de literatura do Brasil. Nasceu no Recife mas fez sua carreira no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, criado em 1961 por Antonio Candido, que era seu grande amigo. Em 1966 entrou para o grupo que iniciou o departamento, composto ainda por Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Davi Arrigucci Júnior, Teresa Pires Vara. O Salão Nobre da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas foi o local escolhido para o velório do corpo de João Alexandre Barbosa, que morreu na manhã desta quinta-feira, aos 69 anos, de complicações renais, no Incor, em São Paulo, onde estava internado há três meses. O velório que começou por volta das 14 horas, prossegue até as 9 horas desta sexta. Ele será cremado às 10 horas, no cemitério da Vila Alpina. João Alexandre Barbosa era professor aposentado de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, foi diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária e presidente da Edusp, a editora da Universidade de São Paulo, onde provocou uma revolução em sua linha editorial. Formado em Direito, João Alexandre Barbosa deu aulas de literatura francesa no Recife, onde escrevia no principal jornal pernambucano, o Jornal do Comércio, em 1962. Com o golpe militar de 1964, Alexandre Barbosa tentou viver em Brasília, mas as dificuldades de se manter justamente na capital obrigaram o professor a transferir sua residência para São Paulo. É autor entre outros de A Imitação da Forma e A Metáfora Crítica, entre outros livros fundamentais sobre poesia contemporânea. Tinha uma forte ligação com a cultura francesa, admirador e estudioso dos poetas Baudelaire e Mallarmé, que renderam trabalhos como As Ilusões da Modernidade (Perspectiva). Um de seus livros fundamentais, A Biblioteca Imaginária (Ateliê Editorial, 1996), reúne ensaios sobre os brasileiros João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis e Mário de Andrade, além do francês Paul Valéry e do italiano Ítalo Calvino. Um dos poetas preferidos de Alexandre Barbosa foi seu conterrâneo recifense João Cabral de Melo Neto (1920-1999) a quem dedicou vários ensaios e um livro que tem por título seu nome (João Cabral de Melo Neto, 2001, Publifolha). Sobre a função do crítico na sociedade brasileira, ele a analisa em A Leitura do Intervalo(Iluminuras, 1990) panorama histórico da poesia e da evolução da crítica no Brasil, de Sílvio Romero a Antonio Candido. João Alexandre Barbosa era casado com a arte-educadora Ana Mae Barbosa, professora aposentada da USP e um das pioneiras da arte-educação no Brasil. Deixa dois filhos e uma neta.
(©
Agência Estado) Literatura perde um grande crítico
João Alexandre Barbosa foi um dos mais importantes críticos literários do Brasil. No começo dos anos 60, fundou a disciplina de teoria da literatura no Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na época, a instituição foi uma das pioneiras do País a terem a disciplina no seu currículo. Nessa mesma década, foi também colaborador do Jornal do Commercio, onde comandou um suplemento literário. Em São Paulo, João Alexandre Barbosa dirigiu a editora da USP, a Edusp, e escreveu obras de referência como A imitação da forma, A metáfora crítica, As ilusões da modernidade, Mistérios do dicionário, A tradição do impasse e A biblioteca imaginária. Nos últimos anos, a Ateliê Editorial relançou alguns títulos da sua extensa bibliografia. Entre seus inéditos, uma coletânea de artigos sobre Paul Valéry (seu autor favorito) está para ser lançada pela Iluminuras. Seu filho é o poeta Frederico Barbosa, que comanda a Editora Landy, voltada à poesia contemporânea brasileira. AMIGOS LAMENTAM – Para o editor responsável pela Edusp e pela Ateliê Editorial, Plínio Martins Filho, a morte de João Alexandre Barbosa significou a “perda de um amigo, de um professor, e de um crítico como poucos e raros são iguais. O tempo em que ele passou na direção da Edusp foi responsável por mudar o caráter do livro universitário no Brasil, fazendo com que o livro universitário se tornasse competitivo e atraente ao mercado”, destacou. O escritor Jomard Muniz de Brito, logo que soube do falecimento de João Alexandre, enviou para a viúva do crítico, Ana Mae Barbosa, um telegrama destacando que “João Alexandre permanece como nosso amigo, mais do que intelectual, exemplo de dignidade, senso de humor e compromisso ético-estético-político.” Para Samuel Leon, responsável pela Editora Iluminuras, “foi uma perda irreparável para a cultura brasileira, além dele ser um grande amigo meu. O que posso dizer é que estou muito consternado.” O escritor pernambucano Raimundo Carrero declarou que: “Eu tenho uma posição diante da morte bastante firme, porque sei que é uma coisa inevitável. No caso de um escritor, de um artista, de um grande crítico, apesar da saudade física, quando ele vai embora, como consolo, deixa o seu melhor, que é a sua obra. E estamos falando de uma grande obra, que foi a realizada por João Alexandre”. “Eu lamento a morte de João Alexandre Barbosa porque ele foi um grande
intelectual e um amigo. Ele me indicou para sua sucessão na disciplina de
teoria da literatura da UFPE”, destacou o poeta César Leal. Para a
professora e escritora Luzilá Gonçalves, “foi uma perda irreparável para a
crítica e para o magistério do Brasil. O João Alexandre fazia a gente se
sentir inteligente. Ele tinha uma maneira de explicar as coisas que fazia
as coisas difíceis parecerem tão simples de repente.”
Morre João Alexandre Barbosa Crítico literário, ex-professor de letras da USP e ex-presidente da
Edusp teve complicações renais após sofrer um AVC Nascido em Recife em 1937, autor de estudos sobre os poetas João Cabral de Melo Neto e Paul Valéry, João Alexandre teve fundamental papel na consolidação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP como um centro de referência para os estudos literários, além de ter mudado o panorama editorial brasileiro com sua atuação à frente da Edusp. No prefácio a seu último livro publicado em vida, "Mistérios do Dicionário" (Ateliê), ele definiu os textos ali coligidos como "escritos de um leitor que, cada vez mais, gosta menos das "grandes teorias" e mais se compraz em exercer, com liberdade e alegria, o jogo de relações, as descobertas de pequenas e inesperadas relações que a literatura tem para oferecer". No entanto, mesmo nos ensaios esparsos, publicados em jornais e revistas literárias, percebia-se a recorrência obsessiva de certos temas, como a noção de "releitura", termo que se refere não apenas ao ato de reler um livro, mas ao reconhecimento das camadas de significado que vão sendo semeadas numa grande obra literária e que só podemos compreender quando, terminada a leitura, tornamos ao início. Sob a liberdade e a alegria do leitor, portanto, havia uma paixão pela teoria responsável por um livro como "A Leitura do Intervalo" (Iluminuras), no qual faz uma reflexão sobre as representações ficcionais de conteúdos extraliterários sem cair nos pólos opostos do reducionismo sociológico ou do formalismo. Orientando de Antonio Candido no fim dos anos 60 (quando, após ser expulso da UnB por motivos políticos, veio para São Paulo), seus estudos sobre José Veríssimo são complementares aos trabalhos sobre Silvio Romero feitos pelo autor de "Brigada Ligeira" -o que assinala uma preocupação comum em compreender como se formou no Brasil um pensamento crítico e a própria idéia de uma cultura literária. Mesmo nesses momentos de grande complexidade conceitual, porém, ele seguiu o modelo do francês Valéry (sobre quem deixou um livro inédito, a ser publicado pela Iluminuras). Preferia a escrita fragmentária ou, como costumava dizer, um "sentido de anotação", que consiste em transpor para a escrita os acasos da experiência literária, recusando os sistemas totalizantes -que seriam uma maneira de "pacificar" a leitura, fixando um sentido unívoco para o fenômeno literário. A paixão de João Alexandre pela literatura ia além do ato silencioso da leitura, envolvendo a relação tátil com o livro. Por isso, uma de suas obras mais importantes foi o trabalho como editor. Presidente da Edusp entre 1988 e 1993, transformou uma instituição que apenas participava de projetos de outras empresas numa editora de fato, com identidade visual própria e um catálogo de rara coerência intelectual -e que constituiu modelo para o hoje importantíssimo segmento das editoras universitárias. PRINCIPAIS OBRAS REPERCUSSÃO
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