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11/06/2008
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Francisco Inácio de Carvalho
Moreira, o Barão do Penedo |
Biografia escrita há 62 anos resgata diplomata
dândi do século 19 nascido às margens do São Francisco
Jotabê Medeiros
Gostava da mundanidade, do "farfalhar de saias e
dos aromas femininos", de ler Lord Byron, de escrever versos sertanejos à
moda de Bocage ("Aos vinte anos é a mulher mato espinhoso, onde entra o
caçador fuzil armado"). Teria conhecido intimamente a amante do imperador, a
Marquesa de Santos. Vadiava por Paris à cata de novas cortesãs acompanhado
de ninguém menos que Eduardo VII, Príncipe de Gales - enquanto a mulher o
pressionava chorando para saber quem era a rapariga inglesa nas fotos
encontradas em sua gaveta. Advogado hábil, era patrão de José de Alencar e
amigo de Joaquim Nabuco. Depois, diplomata ambicioso, deu-se bem com a
Rainha Vitória da Inglaterra e foi condecorado com a Grã-Cruz de Gregório
Magno pelo papa Pio IX, em 1858.
Das figuras históricas esperamos tudo, menos um relato sem papas na língua.
Geralmente são quase santos, heróis de mármore e bronze, gente de inequívoca
importância política e social. Por isso, o que há de surpreendente na
reaparição de um vulto da história, o Barão do Penedo, morto há um século, é
que na única biografia que se escreveu dele, Um Diplomata na Corte da
Inglaterra, de Renato Mendonça, publicada pela primeira vez há 62 anos,
emerge um retrato de quase todos os aspectos de uma vida: sexo, ambição,
engenhosidade, presença de espírito, blefe, adultério, astúcia, fraqueza,
vaidade.
Um Diplomata na Corte da Inglaterra está sendo reeditado pela editora do
Senado Federal por conta do centenário de morte de Francisco Inácio de
Carvalho Moreira, o Barão do Penedo. "A figura do Barão do Penedo é
peça-chave para entender melhor o legado deixado pela diplomacia no tempo do
império", afirma Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores.
Nascido às margens do Rio São Francisco, na cidade histórica de Penedo (a
segunda mais antiga do País, fundada pelo navegador português Duarte Coelho
em 1535), o Barão do Penedo foi responsável pelo rompimento das relações
diplomáticas do Brasil com a Inglaterra, em 1863, naquilo que ficou
conhecido como A Questão Christie.
Ele era então o representante brasileiro na terra da Rainha. Nessa ocasião,
tinha sido enviado pela Rainha ao nosso país um certo Mr. Christie. Um
naufrágio na costa do Brasil, do barco inglês Prince of Wales, iniciou um
enfrentamento curioso: notas ásperas à chancelaria brasileira, jogos
diplomáticos, hostilidade. Até que, um ano depois, cinco embarcações
brasileiras foram tomadas pelos ingleses. O Barão do Penedo, na Inglaterra,
começava a formular uma defesa que ficou famosa. Chamou de "atos de guerra"
a atitude inglesa e, finalmente, pediu seu passaporte e deixou o Reino
Unido, considerando interrompidas as relações entre Brasil e Inglaterra. "A
superioridade de forças não deverá constituir um privilégio acima do Direito
da Justiça", registrou.
"Ele há de permanecer como o tipo da nossa diplomacia vigilante e cautelosa,
tanto quanto Alencar o do nosso romantismo indianista, Bernardo de
Vasconcelos o da nossa política construtiva e Cotegipe o da nossa
resistência à nossa política de desagregação", escreveu Oliveira Lima, em
Cousas Diplomáticas.
Não que a atividade diplomática do barão seja uma unanimidade. Há
controvérsia, por exemplo, sobre o empenho do Barão de Penedo em ajudar o
Visconde de Mauá a escapar da bancarrota e a negociar dívidas. O próprio
Visconde acusou o Barão no Jornal do Comércio de 30 de novembro de 1884 de
ter ajudado a precipitar sua ruína. Cartas inéditas trocadas por ambos no
final do volume ajudam a esclarecer a questão.
Para o Itamaraty, o livro de Renato Mendonça sobre o barão possibilita a
análise de todo um período da política externa do Brasil no Segundo Reinado:
a economia, a industrialização, a Guerra do Paraguai, as relações com a
Igreja, a escravidão e os desafios da expansão nacional, como a navegação
pelo Rio Amazonas.
A cidade natal do barão, Penedo, tombada como Patrimônio Nacional, é uma
pequena maravilha da História brasileira meio largada e esquecida em
Alagoas. Costumavam chamá-la de "a Ouro Preto do Nordeste", e a fama tem
suas razões: possui conjuntos impressionantes, como a igreja e o convento de
Nossa Senhora dos Anjos, cujo forro da capela foi pintado por um escravo,
Lázaro Libóreo Leal. E a eclética Igreja Nossa Senhora da Corrente, barroca,
rococó e neoclássica, cuja porta está aberta para o Rio São Francisco e que
guarda imagens incomuns, como uma estátua de Judith segurando numa das mãos
a cabeça de Holofernes.
Em Penedo se travou a grande queda-de-braço entre portugueses e holandeses
pelo domínio da nova colônia. Em 1637, Maurício de Nassau ergueu sobre
aquela margem do São Francisco um forte colossal, que abrigou 1.600
soldados, e que foi completamente destruído com a expulsão dos holandeses. A
cidade está sobre as ruínas.
Ali onde nasceu em 1815, num sobrado de dois andares, a memória do Barão do
Penedo resiste na insistência de um único homem, o psiquiatra Francisco
Alberto Sales, de 66 anos, presidente da Fundação Casa do Penedo, mantida
com recursos próprios (duas aposentadorias), e que guarda um acervo
respeitável: cartas trocadas entre o Barão e personalidades como o Duque de
Caxias, o positivista Augusto Comte, um busto de mármore de Carrara do
estadista feito em 1880 pelo artista E. Epinay, em Roma.
Francisco Sales (que vive em Brasília mas passa boa parte do ano refugiado
em Penedo) conseguiu a reedição de Um Diplomata na Corte da Inglaterra e
alimentou o sonho de um grande evento nacional na cidade para o lançamento.
Teve de adiá-lo, por não conseguir conciliar as agendas políticas. Mas não
pensa em desistir. "Eu li Cândido, de Voltaire, e isso me impregnou, me
transformou num otimista incorrigível."
Iconoclasta, o dr. Sales nunca deixa passar batida uma oportunidade de
alfinetar os cânones. "Há mais fetos enterrados por aí do que na obra de
Augusto dos Anjos. Muitas meninas foram defloradas nestes claustros e muitas
freiras engravidadas", ele se diverte, passeando pelas igrejas e mosteiros.
Ao encontrar um frade pelo caminho, não hesita: "Um poeta americano, Ezra
Pound, dizia que a Metamorfose, de Ovídio, era muito mais importante que as
Escrituras."
O dr. Sales se diverte com toda a mitologia criada em torno da figura do
Barão do Penedo. Há um rumor, por exemplo, de que ele tivera caso até com a
Rainha Vitória da Inglaterra. O dr. Sales se apressa em desfazer essa tese.
"Acho difícil. Porque a Rainha Vitória era feiíssima, assombraria qualquer
um que se atrevesse. Acho até que o marido dela morreu por isso."
(©
Agência Estado)
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