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O samba baiano que chega para engrossar o caldo nas noites da Lapa

11/06/2008

Lanlan (voz e percussão), Emanuelle Araújo (voz), Tony Costa (guitarra), Pedro Mazzillo (violão) e Mauricio Braga (bateria): o "Moinho da Bahia"

João Pimentel

Ao chegar ao Rio, algum tempo depois de deixar de lado o sucesso fácil na Banda Eva, Emanuelle Araújo não sabia ao certo o que faria, apenas que seguiria sua carreira de cantora e atriz. Mais uma integrante da grande comunidade baiana que existe na cidade, a cantora que substituíra com êxito Ivete Sangalo no grupo de axé passou a freqüentar a Lapa. Apaixonada pelo ambiente do velho bairro boêmio, teve a idéia de abrir o que chama de “janelinha” para o samba baiano. Ligou para a conterrânea Lanlan, e a percussionista comprou o barulho na hora.

— Fiquei amarradona na idéia e corri para pegar o cancioneiro de Dorival Caymmi. Abri numa página e o nome estava lá: “Moinho da Bahia” — lembra Lanlan. — Pronto, já tínhamos um nome.

Influências que vão de João Gilberto a Pepeu Gomes

Em seguida, a percussionista ligou para o guitarrista Toni Costa, que durante dez anos participou do grupo de Caetano Veloso; para o baterista Maurício Braga, seu colega na banda Os Elaines; e para o violonista Pedro Mazillo. O moinho começou a girar...

— O nome foi perfeito para a nossa proposta. Toni vai de João Gilberto a Pepeu Gomes; eu e o Maurício temos um pé no underground, e o Pedro tem a linha do violão do Dino Sete Cordas, a coisa do baixo do samba. Então virou uma grande mistura do samba carioca com o samba-de-roda baiano, o samba duro, as chulas. Mas tudo com uma pitada de rock ’n’ roll — brinca Lanlan.

— O Moinho foi moendo tanto que deixou de ser exclusivamente baiano. Abrimos para o resgate de grandes compositores. Fazemos uma releitura da releitura que João Gilberto fez de “Bolinha de papel”, do Geraldo Pereira, um sambista mais carioca impossível — completa Costa.

Emanuelle acredita que a razão para o sucesso do Moinho — que começou timidamente, no segundo andar do Teatro Odisséia, e hoje se tornou a principal atração da festa Superbrazooka, que acontece aos sábados na casa — está na informalidade do trabalho.

— É uma fórmula despretensiosa. Nós queríamos mostrar o trabalho de mestres baianos como Dorival Caymmi, Batatinha, Riachão, Nelson Rufino. Mesmo as mudanças que ocorreram no projeto original foram naturais. Hoje cantamos novos compositores e também as parcerias que começaram a surgir dentro do grupo — conta a ex-Eva.

Lanlan ressalta que os shows do Moinho da Bahia reúnem músicos de diversas correntes, como Davi Moraes e Jussara Silveira:

— O palco está sempre aberto para os nossos amigos músicos. Nara Gil, Érika Nande e Gui, percussionista do Monobloco, foram incorporados ao grupo. Tem muita gente que vem atrás de um certo purismo e acaba gostando da nossa pegada. O Gil disse que fazemos “samba com pressão” — conta a percussionista.

E Toni Costa põe mais cana na moenda:

— O público não tem esse preconceito. Não temos o menor purismo em conservar nada. Respeitamos, mas já tem muita gente imbuída desse espírito. Quando sentimos vontade de distorcer, fazemos sem o menor pudor.

É esse descompromisso que o grupo resolveu levar para estúdio. No repertório, ainda não completamente definido, estão “Pra que discutir com madame”, “Bolinha de papel” e “Saudades da Bahia”.

— É claro que nos perguntamos o que poderíamos acrescentar com mais uma gravação dessas músicas. Descobrimos que a resposta está na química que rola quando estamos juntos — diz Costa.

(© O Globo)

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