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Lado B da sobrevivência musical

11/06/2008

Silvério Pessoa tem um alter-ego:“Sir Rossi”

Silvério, China, Mombojó, Mula Manca, Parafusa e Negroove apostam em projetos paralelos para pagar contas e bancar trabalho autoral

ALAN LUNA

No mosaico de artistas e bandas que movimentam a atual cena da música pernambucana, poucos são os pontos em comum. Da MPB ao indie, passando pelo reggae e o samba, há lugar para tudo. Como regra, só mesmo a diferença. Isso, no entanto, vale para as propostas. Quando o assunto é o modus operandi, boa parte das bandas segue roteiro parecido: entre um compromisso e outro do trabalho autoral, tocam projetos paralelos. Del Rey, Sir Rossi, Seu Chico, Chef Ladrão e Os Ordinários, só para citar alguns, são o “lado B” de China e Mombojó, Silvério Pessoa, Mula Manca e a Triste Figura, Negroove e Volver. Os exemplos não se esgotam por aí. E surgem novos a cada dia. O caso mais recente é a Dibontom, projeto da banda Parafusa dedicado ao “poetinha”, Vinícius de Moraes. A prática anda tão disseminada que ganha ares de fenômeno pop.

Os projetos paralelos, é verdade, não são novidade alguma na música brasileira. Pelo contrário. Nomes de peso do rock brazuca, como Edgar Scandurra (do Ira!), Frejat (Barão Vermelho)e Nando Reis (ex-Titãs), costumavam dar “a pausa que refresca” dos seus grupos principais para tocar projetos que, segundo eles, não teriam espaço na proposta da banda “oficial”. É aí onde mora a diferença. Hoje, sobretudo em Pernambuco, não são exatamente as “divergências conceituais” o leitmotiv para as viagens paralelas. A empreitada também não é mais solitária: são as bandas inteiras que (como Zélia Duncan) se transformam em outras para prestar tributo a algum medalhão que lhes influencie o som. Entre os homenageados por esses covers de luxo estão artistas como Roberto Carlos (Del Rey), Chico Buarque (Seu Chico), Bezerra da Silva (Chef Ladrão), Renato e seus Blue Caps (Volver) e até o “rei do borogodá”, Reginaldo Rossi (Sir Rossi). A oferta é tamanha que se torna muito difícil circular pela noite da cidade hoje sem esbarrar com alguma casa que ofereça shows do tipo.

Essa profusão suscita algumas questões. A primeira delas, óbvia: o que leva bandas que fazem um som autoral a partirem para um “segundo expediente”? Aqui no Recife, uma resposta “mercadológica” parece ser a mais coerente. É reclamação constante entre os artistas a falta de espaços para se apresentar, lacuna que nem o poder público nem a iniciativa privada tem se mostrado capaz de suprir. Fora da grade de programação das rádios, falta-lhes ao currículo um indispensável arsenal de hits, item tão caro aos produtores que vivem de lotar casas de espetáculo (e também à gente que as lota).

O curioso é que isso é válido apenas para o trabalho autoral. Quando se trata de projetos paralelos, a coisa muda de figura: quase todas as bandas têm agenda movimentada e público certo. O resultado é uma muito bem-vinda grana extra. E os artistas sabem disso. “A idéia do Chef Ladrão surgiu porque precisávamos levantar dinheiro para uma turnê do Negroove no sul. É legal porque a banda se expõe, faz o nome circular, continua tocando e ainda entra um ‘caixa dois’”, afirma Jr. Black, front man dos dois projetos. Tibério Fonseca, vocalista do Seu Chico, concorda. E aponta um dado curioso: o projeto, surgido para manter a banda azeitada enquanto o novo CD da Mula Manca estava em fase de finalização, já ganha ares de principal quando o assunto é caixa. “Hoje em dia, ganhamos mais dinheiro com o Seu Chico e mais prestígio com a Mula Manca”. Como ninguém vive só de prestígio, Seu Chico segue com a agenda cheia.

(© JC Online)


Falta de espaço estimula os projetos

Qual seria, então, a causa desse insuspeito desnível prestígio X conta bancária? Black ensaia uma teoria: “É uma grande cadeia. A apatia do público com relação à música nova termina sendo corroborada pelo pouco espaço cedido no rádio e na televisão e pela pouca abertura das casas de show locais para o som autoral.”

A esse respeito, China, que encara os vocais de uma mais bem-sucedidas bandas do gênero, a Del Rey, prefere falar em segmentação de público. Ele enxerga dois grupos bem definidos na cidade: o primeiro, formado pelos que conseguem furar o estado de sítio imposto pelas rádios, tem interesse no trabalho de autor. No entanto, por se tratar de um universo ainda muito restrito, é incapaz de manter uma agenda regular mínima para a proposta autoral.

No segundo rol, bem mais numeroso, está gente preocupada apenas em “dançar e, se possível, cantar junto”. Foi o que ele percebeu após temporada de um mês com a Del Rey em uma boate local. Para este nicho de mercado, inclusive, ele avisa: “Fazemos também festa de 15 anos e casamentos”.

A propósito, esse público aparentemente avesso ao novo é visto com outros olhos por “Sir Rossi”, alter ego de Silvério Pessoa quando encarna o rei do brega. O músico lançou a banda para realizar um sonho antigo e enxerga o projeto apenas como um “charme” na sua carreira. Mas não descarta que gente atingida por Sir Rossi possa se interessar pelo trabalho de Silvério Pessoa.

Entre o ceticismo de um e o otimismo do outro, Diogo Andrade, da Parafusa/Dibontom, prefere a síntese dialética. Para ele, os projetos paralelos são uma espécie de terceira via. “Há muita banda na cidade, dividida em dois blocos: os grupos autorais e os de baile, com repertório FM. Os projetos não são uma coisa nem outra. Ao optar por homenagear um artista consagrado, não apresentam trabalho autoral, mas também não fazem concessões excessivas, garantindo a qualidade do repertório”.

Leituras divergentes à parte, em um ponto todos os entrevistados concordam. É preocupação unânime entre todos os ouvidos pela reportagem o cuidado para que o projeto “nem se iguale nem tome o lugar da carreira autoral”, como afirma Silvério. A situação foi ainda mais bem definida por China: “Eu não quero ser Roberto Carlos. Aliás, até quero. Mas através de minha própria música”.

Próximos showsDel Rey: Dia 12 – Studio SP. Dias 14 e 21 – Grazie a Dio (SP). Os ordinários: Dia 11 – Mercado Eufrásio Barbosa, Olinda. Chef Ladrão: Dias 16, 23 e 30 – Novo Pina. Seu Chico: Dias 9, 16, 23, 26 e 30 – Cuba do Capibaribe. Dibontom: Dias 10, 17, 24 e 31 – Toca da Joana

(© JC Online)

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