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11/06/2008
Maria Bethânia é a atração mais disputa da entre o público da Festa Literária Interna cional de Parati, que homena geia o escritor baiano SYLVIA COLOMBO A apresentação será na tenda da Matriz, no centro histórico da cidade fluminense. "O fato de o espetáculo ser em um lugar fechado e climatizado limita um pouco, mas não tem importância, porque Parati vale", disse a cantora em entrevista à Folha, por telefone. O show, assim como a festa propriamente dita, vai homenagear o baiano Jorge Amado (1912-2001). Bethânia, que considera o autor uma das principais influências de sua geração, deve ler alguns trechos das obras que começou a conhecer por meio do pai, que gostava de ler seus textos em voz alta, e da escola, em Santo Amaro da Purificação, cidade onde cresceu, na Bahia. "Depois, já dona de minha vida, fui gostando dele mais e mais..." Parati vai à Bahia com Bethânia e Amado Show da cantora terá trechos de obras do escritor e "É Doce Morrer no Mar" Cantora também vai mostrar algumas canções do próximo disco, que será duplo e deve sair em outubro ou novembro DA REPORTAGEM LOCAL Sempre que ouve falar de Jorge Amado, Maria Bethânia, 60, diz que lembra da infância e do pai. "Ele era um leitor compulsivo, um funcionário de correio que tinha uma bela voz e gostava de ler em voz alta. Tanto prosa como poesia. E isso nos cativava, pois éramos crianças e queríamos entender aquelas palavras", conta. Apesar de "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" (1961) e "Navegação de Cabotagem" (1992) serem os livros de Amado preferidos da cantora, não foi destes que ela escolheu trechos para serem lidos no espetáculo de abertura da Flip. As passagens foram selecionadas de "Os Velhos Marinheiros" (1961) e "Bahia de Todos os Santos" (1945) -uma espécie de guia da cidade de Salvador. Bethânia também deve cantar "É Doce Morrer no Mar", composição de Amado com Dorival Caymmi, e "Coração Ateu", canção de Sueli Costa interpretada pela cantora na novela "Gabriela", exibida pela Rede Globo em 1975. Além de um apanhado de seu repertório tradicional, a cantora também
promete mostrar algumas canções inéditas que estarão no seu próximo CD, no
qual está trabalhando atualmente. O álbum, que deve sair em outubro ou
novembro, terá duas partes (que depois serão vendidas separadamente). Morando no Rio há mais de 40 anos, Bethânia conta que desde então freqüenta Parati, que acha parecida, em alguns aspectos, com Santo Amaro da Purificação ("tem essa coisa de ser cidade de mar, de mangue"), e acha muito positivo o fato de a festa ter se tornado uma referência no circuito cultural internacional. "Uma feira literária, nesse lugar mágico, tem um significado imenso. É a única saída que posso entender para o Brasil. Essa idéia de que devemos conversar, ouvir outras pessoas de outras culturas, ler o que estão escrevendo, é algo deslumbrante." A participação de Bethânia na Flip já era para ter acontecido em anos
anteriores. "Sempre quis e nunca deu, agora que conseguimos encaixar na
agenda, estou muito feliz", diz a artista, que não conferiu ainda a
programação nem os convidados deste ano, mas que quer assistir a algumas
mesas. Apesar de reconhecer a grande influência da obra de Jorge Amado no
imaginário do brasileiro sobre a Bahia ("todas as expressões mais típicas
dos baianos estão ali"), Bethânia conta que se impressiona muito com a
maneira como a obra do autor causa impacto nos estrangeiros. "Jorge levou a
Bahia para o mundo. Quem é de fora delira com a Bahia profunda que surge de
seus livros. E sempre me perguntam sobre as putas e os bêbados, os cheiros e
as comidas que estão no universo dos seus romances." Nas edições anteriores, a Flip celebrou as obras de Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Desta vez, para homenagear Amado, além do show de Bethânia, haverá atividades dentro da programação principal e na Flipinha -seção dedicada a jovens e crianças, na Tenda Azul. Na quinta-feira, dia em que o escritor completaria 94 anos, uma mesa reunirá Myriam Fraga, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, o poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva e Eduardo de Assis Duarte, autor de "Jorge Amado - Romance em Tempo de Utopia". Até o fechamento desta edição, ainda havia ingressos para todas as mesas da Flip. Mais informações podem ser obtidas pelo site www.flip.org.br. (SYLVIA COLOMBO)Crítica/DVD "Música É Perfume" tem olhar de fora LUIZ FERNANDO VIANNA Consta que o francês Georges Gachot ficou tão impressionado ao ver um show de Maria Bethânia nos anos 90 que decidiu fazer um documentário sobre a cantora. Concluída em 2005, a missão se chama "Maria Bethânia - Música É Perfume", agora em DVD. O olhar espantado do diretor marca o filme. Neófito em Brasil, ele ressalta os nossos contrastes, mostrando, por exemplo, mulheres com vestes de candomblé em uma igreja de Santo Amaro da Purificação, cidade baiana de Bethânia. E exibe a beleza natural avassaladora do Rio, vizinha à miséria social também chocante. O texto subjacente é que Bethânia é a voz do país, por ser tantas em uma só, por conciliar rural e urbano, popularidade e sofisticação. Mas incomoda um pouco a gratuidade de imagens como as de pessoas dentro de ônibus. Parece um clipe da "gente simples brasileira". O documentário vale mais pela incursão que faz aos bastidores do trabalho de Bethânia, logo ela que é tão reservada e não cede ao exibicionismo do mundo do entretenimento. Há momentos especialmente comoventes, como quando a câmera acompanha a cantora ensaiando "Bom Dia, Tristeza" (Adoniran Barbosa/Vinicius de Moraes). Ela vai "entrando" na música e, de repente, a tristeza toma conta de tudo, por obra e graça de sua força de intérprete. Os depoimentos de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Nana Caymmi não chegam a ser reveladores, ao menos para quem conhece a trajetória de Bethânia. Alguns são didáticos, pois dirigidos a um estrangeiro. Mas há boas falas, como a de dona Canô, delicadíssima, dizendo que está com a filha através de orações, dada a distância entre Santo Amaro e o Rio. Ou a de Chico classificando "Brasileirinho" como a idéia de um país possível, esse que espantou Gachot e espanta todos nós. MARIA BETHÂNIA - MÚSICA É PERFUME "Navegação de Cabotagem" encerra reedição de obra DA REPORTAGEM LOCAL Não é só com homenagens que Jorge Amado está sendo lembrado agora, cinco anos após a sua morte. A editora Record acaba de pôr no mercado "Navegação de Cabotagem", livro de memórias que o escritor escreveu ao longo do ano de 1991, quando o autor viveu em Paris, e lançado em 1992. A publicação faz parte do projeto de reedição da obra de Amado. A filha do escritor, Paloma Amado, conta que "Navegação de Cabotagem" nasceu depois que o escritor resolveu quebrar um pacto feito com o chileno Pablo Neruda e o russo Ilya Eremburg, em que os três prometiam nunca escrever um livro de memória. Depois que os dois amigos o "quebraram" -Neruda tendo seu "Confesso que Vivi" e Eremburg, suas memórias coletadas pela filha, lançados postumamente- o baiano resolveu também fazer o seu. (SC)
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