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11/06/2008
Beatriz Coelho Silva
Cinema, Aspirinas e Urubus, do estreante Marcelo
Gomes, levou cinco dos dez prêmios do júri no primeiro Prêmio Contigo!
Pantene de Cinema, inclusive melhor filme. A festa de entrega foi ontem, no
Museu Histórico Nacional, com a presença dos diretores e parte do elenco de
Dona Flor e Seus Dois Maridos e Xica da Silva, que completam 30 anos de
lançamento. 2 Filhos de Francisco foi o preferido do público (que votou por
celular e internet) e levou três dos cinco prêmios na categoria. Casa de
Areia, o favorito, com nove das dez indicações, só levou figurino, para
Cláudia Kopke. Sertão como espaço mítico
Marcelo Gomes
fala sobre sua produção cinematográfica, retoma o debate sobre o
sertão como espaço visual nos filmes e afirma ser Glauber Rocha um
de seus professores
Peter Fussy Em meio à finalização de seu próximo filme - Carranca de acrílico azul piscina, um documentário sobre o sertão - o cineasta Marcelo Gomes falou à CULT sobre o papel do Cinema Novo na formação dos diretores de sua geração, sobre o sertão como espaço mítico de reflexões sobre o Brasil e, ainda, sobre a crise mundial da linguagem cinematográfica. Diretor de Cinema, Aspirinas e urubus, filme que recebeu o prêmio da Educação Nacional no festival de Cannes 2005 e também o de melhor filme na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Gomes percebe uma ausência de educação básica para a consolidação de um cinema nacional e analisa as dificuldades que filmes brasileiros encontram para atingir o grande público. Mesmo assim, afirma ser confiante na nova safra de diretores que pensam o cinema nacional, buscando novos caminhos para revelar suas inquietações.
CULT - Como começou seu interesse por
cinema?
Marcelo Gomes - Meu interesse por cinema começou desde pequeno. Tinha um cinema de bairro perto da minha casa e minha família me levava muito. Na época era o mais novo de seis irmãos e ia muito com eles, sempre gostei de ir ao cinema. Depois comecei a freqüentar algumas sessões de arte que tinham aqui no Recife.
CULT - Naquela época o que mais gostava de
ver?
M.G. - Eu via tudo, qualquer coisa, indiscriminadamente. Do pior cinema comercial americano a Bergman. Foi aí que conheci o cinema do Glauber. Teve uma mostra nos anos 80 que percorreu o Brasil inteiro. Como na maioria dos cineastas e nas pessoas que gostam de cinema, ficou uma impressão muito forte de algo muito original e único dentro do cinema brasileiro. Foi importante para o país e para o mundo construir não apenas um cinema, mas toda uma estética cinematográfica. Na época em que estava preparando o meu filme, às vezes ia dormir assistindo Deus e o diabo na terra do sol em DVD. Acredito que seja o filme que mais vi na vida, umas 50 vezes. Aquele filme me acalenta muito, dá uma alegria muito grande vê-lo, pela reflexão do que é o Brasil, do que é o nordeste, cultura brasileira, e pela construção como se fosse faroeste, que é algo extremamente americano. Acho fantástica a fotografia, a interpretação dos atores, a mise-en-scène que parece um teatro greco-romano onde o sertão é o grande palco. Tudo isso foi muito importante para a minha formação.
CULT - O espaço nordestino, principalmente o
sertão, continua recorrente nos filmes nacionais. Ele sempre vai ser o
palco para mostrar personagens que passam por uma transformação pela
realidade social e política?
M.G. - O sertão é um espaço mítico muito forte no nosso imaginário, como o western é muito forte nos Estados Unidos. E tem a questão do abandono também, aquela paisagem parece abandonada. É um lugar de uma experiência radical, por isso está tão presente na nossa cinematografia. No meu caso, decidi fazer no sertão primeiro porque se baseia num fato histórico que aconteceu com meu tio-avô e, segundo, porque é um espaço de experiência afetiva muito importante na minha vida porque eu fui desde a infância com meus pais para o sertão. Isso me influenciou muito. Eu vi o sertão antes na minha vida do que nos filmes, ao contrário do que acontece com a maioria das pessoas.
CULT - E o sertão dos filmes e da realidade
são muito diferentes...
M.G. - Aí que está. Esses filmes são de ficção, que não têm uma preocupação de retratar o sertão como ele é. Eu construí um sertão das minhas memórias, como eu o vi desde pequeno, e o sertão da experiência dos meus personagens. Não tinha uma ligação direta com o real. Mas, logicamente, a realidade influencia muito. O espaço geográfico é o mesmo, as pessoas, o universo, o tempo, fica tudo impregnado pelo sertão real, mas continua sendo um filme de ficção.
CULT - Voltando aos anos 80, você montou o
cineclube e começou a estudar?
M.G. - Passei dois anos num curso de engenharia, parei e decidi fazer comunicação porque não tinha curso de cinema aqui e eu não tinha grana para ir cursar em outro lugar. Então montei o cineclube com meus amigos que era o meu curso de cinema. Tive a chance de conhecer a cinematografia do mundo inteiro. A gente via cinema independente europeu, americano, cinema novo, marginal. Vi muitos filmes do Sganzerla, Bressane, Glauber, cinema novo alemão, Fassbinder, Alexander Kluge, Herzog, cinema espanhol, cinema inglês, que era muito forte na época. Essa foi a minha formação. Depois, ganhei uma bolsa pra estudar cinema na Inglaterra. Fiz dois anos de escola de cinema lá, um curso extremamente prático, onde o exercício da produção, da criação e da montagem foram muito importantes para mim.
CULT - Hoje quem quer trabalhar na área
precisa fazer uma faculdade de cinema?
M.G. - Acho que depende da pessoa. A maioria aproveita pouco. Só pode fazer faculdade de cinema quem já tem uma certa experiência de vida, porque para contar uma história a gente também precisa ter vivido um pouco. Eu fui pra minha escola de cinema com 26 anos. Já estava maduro, primeiro, para saber que eu queria fazer cinema, segundo, para saber que é uma profissão que você vai ter que dedicar a sua vida. A gente ficava de domingo a domingo na escola para produzir um filme. É uma dedicação muito grande. E terceiro, porque é um exercício de paciência. Você tem que ficar muito tempo para desenvolver um trabalho, construir um roteiro, para conseguir dinheiro. A juventude te dá muitas coisas, mas te tira um pouco de paciência e perseverança (risos). Foi muito importante para mim fazer uma escola de cinema, mas acho que não iria deixar de fazer cinema se não tivesse feito. Você conhece pessoas maravilhosas, faz amigos pelo resto da vida, pessoas que começam a dialogar com você sobre o fazer do cinema, e até descobre parcerias. É importante, mas não fundamental. Os filmes estão aí, os livros estão aí, qualquer um pode aprender.
CULT - Você acredita que é mais difícil
fazer um filme hoje do que antigamente?
M.G. - Acho que o nível de dificuldade é o mesmo, só que naquele tempo as dificuldades eram umas, hoje são outras. Eu passei sete anos para fazer o meu primeiro filme. Com 24 anos [idade em que Glauber lançou Deus e o diabo na terra do sol] eu não tinha nem ido pra escola de cinema. Estava tentando fazer o cineclube porque aqui em Pernambuco nem atividade cinematográfica tinha. Na época do Glauber havia uma efervescência que foi importante para ele. O Brasil vivia um momento cultural muito relevante, na arquitetura, literatura, música e no próprio cinema. O Nelson [Pereira dos Santos] já tinha feito um cinema muito arrojado para a época. Então, Glauber entrou nesse caldo cultural que era muito grande no Brasil. Quando eu tinha 24 anos o cinema vivia em completa derrocada. A retomada vai acontecer em 94, quando eu voltei da Inglaterra, o que foi uma sorte também. O mais importante é que antigamente existia uma vontade de ousar, de investigar a linguagem cinematográfica. Hoje, o cinema de autor é muito mais pragmático, de uma forma ou de outra você tem que fazer um certo sucesso, seja nos mercados independentes ou festivais, pra continuar sobrevivendo. Comparando os períodos, acho que o cinema ficou mais "careta".
CULT - Mesmo assim, ainda podemos perceber
alguma influência do Cinema Novo no cinema atual?
M.G. - Acho que naquela época o cinema brasileiro vivia muito envolvido com o aspecto do Cinema Novo, era uma coisa que pairava sobre a cabeça de todos os cineastas. Hoje, a pluralidade que o cinema nacional vive é bem interessante. Isso é muito rico. Falando de mim, acho que sou muito influenciado pelo Cinema Novo. Fiquei muito feliz quando o Gilberto Gil deu uma declaração em Cannes, dizendo que o meu filme era de alguém que conhecia a tradição do cinema brasileiro mas não se submetia a ela. Achei engraçado porque a gente entende melhor o filme que fez a partir das coisas que o espectador fala. Meu filme tem um pouco disso, está ali a questão do migrante que quer deixar o sertão, a mesma levantada pelo Vidas secas; está ali, talvez, a mesma luz do cinema do Nelson, mas tratada de forma diferente. Acho que a influencia do Cinema Novo no meu filme é decisiva. Agora, eu não faço Cinema Novo. Faço outra coisa que eu nem sei o que é.
CULT - Falta pensar o cinema brasileiro?
M.G. - Acho que isso não é um problema do cinema brasileiro, é um problema do cinema mundial. Por exemplo, a França, que é um berço do cinema mundial, teve uma crise imensa do cinema autoral. O cinema virou muito pragmático, só pensa em produzir e deixar o filme pronto. Os festivais não promovem grandes eventos de discussão do cinema, mas shows cinematográficos, com estrelas. Você vê a crítica do Cahiers du Cinema falando do nível da competição em Cannes, refletindo sobre a necessidade de pensar o cinema. Acho isso fundamental. Se a gente quer que o cinema tenha mais 100 anos de vida, a linguagem cinematográfica não pode estagnar. Ele está engatinhando ainda, tem apenas 100 anos, enquanto o teatro tem 2 mil. Tem que pensar muito para evoluir, encontrar outras linguagens, e sempre incorporar o contexto político-social-cultural que a gente vive. Se não, ele vai pro museu rapidinho.
CULT - Podemos falar numa nova safra de
diretores, principalmente do nordeste, incluindo você, Sérgio Machado,
Karim Ainouz, Cláudio Assis, também o Beto Brant, em São Paulo, que tem um
projeto de pensar o cinema?
M.G. - Essas pessoas não estão fazendo cinema de forma pragmática. Elas fazem cinema porque, primeiro, amam o cinema, e por isso querem que a linguagem cinematográfica esteja sempre em evolução. Além disso, existe um pensamento nos filmes. Não são novelas de duas horas. São pessoas que procuram investigar a linguagem e, por coincidência, ou não, têm filmes que falam sobre o Brasil e são muito bem reconhecidos em festivais internacionais. Isso é importante porque o respaldo de fora também dá respaldo aqui, é uma corrente. Eu não sei se podemos falar de um movimento. Quem sabe daqui a dez anos podemos ter uma reflexão maior sobre este momento. Mas são pessoas que estão fazendo cinema autoral, investigam sua linguagem e são, sobretudo, amantes do cinema. Acho que por enquanto é isso que liga essas pessoas.
CULT - Talvez seja um pouco mais do que
isso... podemos ver uma certa colaboração entre vocês. Esse sentimento de
camaradagem influi na qualidade das produções?
M.G. - Sem dúvida. Como na nouvelle vague francesa, em que um ajudava o filme do outro. No Acossado, do Godard, o roteiro é do Truffaut e o conselheiro técnico é Claude Chabrol; ou no novo cinema alemão dos anos 70, Win Wenders, Alexander Kluge, Herzog e Fassbinder se ajudavam e tinham a mesma distribuidora. Toda vez que aconteceu um trabalho de desenvolvimento do pensamento cinematográfico, isso aconteceu em forma de grupo. Até mesmo no Dogma, o Winterberg é amigo do Lars Von Trier, então, existia também uma gangue ali. Espero que esta gangue brasileira se forme e seja cada vez mais coesa.
CULT - Podemos esperar, então, alguma coisa
no sentido de caracterizar um cinema brasileiro nos próximos anos?
M.G. - Vamos ver (risos). Me pergunte isso daqui a cinco anos.
CULT - Combinado. Você acredita que o cinema
ainda exerce uma função social?
M.G. - É complicado. Acho que mesmo antigamente ele exercia, mas em poucas pessoas, porque este tipo de filme não tem um público muito abrangente. Agora, mesmo hoje eu acho que o cinema promove uma reflexão de consciência. Até filmes que podemos chamar de mais "rasteiros" como os do Michael Moore promovem um certo tipo de consciência, para um certo tipo de pessoas. E mesmo filmes mais "densos" como os do Lars Von Trier também tratam da sociedade. Isso promove a reflexão, não sei em quais níveis. São pessoas importantes, que debatem, discutem, e formam uma massa crítica. Avaliar como foi no passado e como é hoje, fica complicado porque os momentos político, cultural e econômico são muito diferentes. Até mesmo o engajamento das pessoas dentro da sociedade era outro. Mas acho que o bom cinema, inteligente, com idéias, sempre vai promover esse fluxo de consciência nas pessoas.
CULT - Assisti ao
Cinema, aspirinas e urubus na sua
estréia no Cinusp. Tivemos uma conversa depois da projeção e me lembro de
você ter comentado que gostaria que o filme fosse visto em escolas no
Brasil. Na sua opinião, falta educação para o público se interessar por
este tipo de filme ou é mais uma questão de mercado mesmo?
M.G. - Olha, acho que falta educação. Ponto. A educação no Brasil teria que ser dez vezes melhor. Falta educação de uma forma geral, em termos de geografia, matemática, história, física, química. Todos os países que têm uma cinematografia importante têm também uma educação forte. Por exemplo, França, Alemanha, até mesmo países como o Irã, têm uma escola forte. Educação é a base de tudo. O cinema pode também contribuir para educar melhor o povo brasileiro, ou seja, o governo tem que levar nossos filmes para as escolas. Tem que haver uma videoteca em cada escola pública deste país como deveria ter biblioteca. Acho isso fundamental. Imagina se no primário ou ginásio você assiste um filme como Deus e o diabo na terra do sol ou Memórias do cárcere, você constrói uma cultura cinematográfica que vai ser importante lá na frente para todo mundo, para a construção da cidadania e do nosso público.
CULT - Em quantas salas e por quanto tempo
em média ficou em cartaz seu filme?
M.G. - Depende. Em São Paulo ficou mais de 6 meses e tivemos mais de 60 mil espectadores. Ao todo já são mais de 120 mil. E tem lugares que a gente nem lançou ainda, não conseguimos cinema para ele. Mas a gente vai em frente, continua em cartaz e só sossegamos quando passarmos o filme para o Brasil inteiro.
CULT - As leis de incentivo tem como
objetivo também democratizar a cultura. Como você falou, vemos que isso
não acontece, e as maiores bilheterias continuam sendo infantis com
apresentadores famosos ou ligados à maior rede nacional de televisão. O
que significa para o cinema brasileiro ser dependente dos incentivos
estatais?
M.G. - Acho que, se não existisse o cinema estatal, não existiria o nosso cinema. Quer dizer, parte dele, porque a outra parte é comercial e nem precisa do apoio estatal. Aliás, não sei nem porque tem, se não precisa. Quem precisa desse apoio é a gente, porque em todo lugar do mundo o cinema é subvencionado, não consegue andar com suas próprias pernas. Agora, essa subvenção também deveria estar na distribuição, na exibição e na popularização dos nossos filmes. Não que eu queira fazer um cinema popular, mas queria popularizar o acesso. Acho que deveria ter cinema de R$ 1 em todas as cidades do Brasil, para passar nossos filmes. Aí democratizamos o acesso ao cinema, não só a produção.
CULT - Qual a sua opinião sobre a
aproximação da indústria do cinema norte-americana com diretores e
produtores brasileiros?
M.G. - Acho que tem duas coisas. Tem diretores brasileiros que estão sendo convidados para fazer filmes lá fora, o que é super interessante porque abre mercado, perspectivas. E existem também produtoras americanas que a partir do artigo 3º [da remessa de lucros] podem investir dinheiro em filmes nacionais. Mas se essa lei não existisse, duvido muito que essas empresas iriam apostar em filmes brasileiros.
CULT - Quem ganha mais com isso?
M.G. - Acho que ganham os dois. Porque abre mercado para nós e eles podem investir em filmes que vão ser produzidos por eles, ao invés de pagar impostos. Mas acho que deveria ser pensado. Talvez, parte desse dinheiro poderia ser investida em filmes que de uma forma ou de outra nunca vão ter apoio dessas grandes empresas. Políticas culturais sempre têm quer ser pensadas e revistas, para que autores e produtores comerciais tenham o seu espaço dentro do mercado. Toda cinematografia nacional tem seu lado comercial e não-comercial. Como eles sobrevivem? Cada um tem sua equação e agente tem que construir a nossa. Espero que nossos governantes pensem nisso e construam essa equação de forma coerente.
CULT - O que podemos esperar do seu próximo
filme?
M.G. - Carranca de acrílico azul piscina é um documentário poético-sentimental sobre o sertão. Surgiu da necessidade minha, que sou pernambucano e do Karim Ainouz ,que é cearense, de tentar refletir sobre o sertão - uma região que tem uma relação muito forte com nossas memórias. O filme revela um sertão na virada do milênio, numa encruzilhada cultural entre o arcaico e o moderno. (© Revista Cult)
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